NUVENS PASSAGEIRAS
CONTOS, CRÔNICAS E OPINIÃO
10º LIVRO - PRIMEIRA PARTE

Cada
IDÉIA que alimento
Cada
personagem que crio
Cada
frase é uma nascente
Cada
livro, um caudaloso rio.
O
canoeiro que por ele navega
É
o leitor que atento lê
É
aquele que nota as pedras
E
fica de sobreaviso
Esquiva-se
das correntezas
Evita
as cachoeiras
e
ancora pensativo.
Cada
palavra é uma célula
Do
autor que a escreve
Cada
personagem é o escritor
que
nos momentos de dor
camuflado
aparece
Para
dizer o que padece
Em
tom de revolta ou de amor.
E
o canoeiro navegante
Que
um dia por ali passou
Só
lançará novamente a canoa
Se
a lembrança lhe ascender
A
fome de esperança
Ou
o desejo
de aprender.
APRESENTAÇÃO
Passo a passo, devagarinho, às
vezes claudicando, às vezes me arrastando ferido, caminhei literariamente até
aqui. Já me deparei com grandes obstáculos e ferrenhos críticos: hostes que
me imaginavam ameaçador e orgulhoso, mas que tão logo perceberam o equívoco,
afrouxaram a resistência. Nada de ressentimentos: não houvesse eu passado sob
a marquise, não teria o caibro caído sobre minha cabeça.
Aos humildes, a investida dos que
criticam, ainda que maldosamente, sempre se transforma num grande benefício.
O inimigo sincero ajuda mais o humilde, do que o amigo fingido.
Como há quinze anos, aqui estou, mais determinado que nunca em alcançar o
objetivo de um dia, se for a vontade de Deus, tornar-me um modesto escritor.
Nossos anseios e desejos são como
sementes de relva: de milhões, apenas algumas acontecem. Por isso, como criança
que tem tudo a aprender, vou estudando, atropelando a sintaxe, examinando as críticas
e seguindo os conselhos, — vou semeando — na esperança de que algumas
sementes brotem, cresçam, sejam boas e frutifiquem. Se alguma nascer, se
se tornar uma árvore, se der frutos, que sejam frutos de fé e de esperança.
Se não, que o sol do amor de Deus a queime antes de germinar.
NUVENS PASSAGEIRAS, não
passa de mais um round de minha luta difícil e infrene para errar menos.
Embora cheio de hematomas e escoriações, mantive-me de pé por nove assaltos.
O adversário é forte, quase imbatível, mas com minha tática de humildade
ensinada pelo Técnico Divino, pretendo vencer. Se não posso voar,
caminho: também andando espero chegar.
Este livro contém artigos diversos
nos quais exponho minha maneira de ver o mundo e as pessoas. Explorei cada emoção
de minha alma: revolta, felicidade, fé, planos, tristeza, utopias, devaneios,
imaginação, dúvida, alegria, humor, saudade, esperança, desabafos, desilusões,
fraquezas..., tudo transcrito honestamente. A fé é, para mim, a prioridade, o
ponto marcante, a presença e o poder quase total de Deus em nós. A convicção
sincera, o caminho certo para consegui-la. Por causa disto a persigo
ferrenhamente. Afinal, seria insensatez desistir ou voltar agora.
Paulatinamente vou progredindo nessa
longa estrada. Durante quarenta anos li e pensei bastante a respeito de como
tudo começou e, também, de como tudo irá terminar. Queria saber tudo e logo.
Perto da loucura desisti da pressa, respirei fundo, afrouxei os passos e, ainda
hoje, sigo com sensatez e determinação.
Retornar será extremamente
arriscado: não chegarei a tempo. O prazo urge. Depois de concordar e discordar
intermitentemente de muitas verdades, depois de me assentar cheio de dúvidas na
encruzilhada dos tantos caminhos, acabei por erguer-me e tomar um deles. NUVENS
PASSAGEIRAS, ainda que nas entrelinhas, mostra como estou vendo, agora, as
pessoas, a natureza, as religiões, as crenças, a fé, enfim, como me sinto
nesta inter-relação.
A cada mês que passa, mais burilo
minhas convicções. O dia em que eu encontrar a verdade suprema e absoluta, ou
me convencer honestamente de alguma mentira, estarei certo de haver posto termo
em minha caminhada. Avalizo o Talmude quando diz que, aos olhos de Deus, a boa
intenção vale tanto quanto as ações. Não tenho mais a pretensão de
entender os desígnios de Deus, mas de apenas aceitá-los.
Há
situações em que não há como desistir, como retornar. Sentimo-nos como alguém
que se mete por um buraco estreito e que vê no prosseguimento, sua única
esperança de sair. Foi assim que me senti ao tentar entender os mistérios de
Deus. Sei que não devia ter entrado, que não havia necessidade de tamanha incúria,
mas me enfiei por ele no afã da liberdade. Entrei e, sem poder retornar, ainda
hoje continuo me arrastando na esperança de encontrar a saída.
Cada livro que lanço faço de meus
personagens, solidários cirineus, confidentes de minhas dúvidas. É
através deles que pretendo encontrar a saída. Nela, um dia, com
certeza, dar-se-á O ENCONTRO: tema preestabelecido do livro que, com a
graça de Deus, pretendo escrever um dia com a pena de minha alma...,
apresentando-o como testemunho de minha vitória e de minha própria salvação.
DEDICATÓRIA:
À
Corina
Vinte
e cinco anos juntos! Não foram vividos no amor épico imaginado por
Shakespeare, nem nos fracassos, traições e desafetos das novelas modernas.
Foram simples e heroicamente vividos. Juntos lutamos, sorrimos e choramos.
Juntos vimos os anos passarem, os filhos crescerem, as rugas sulcarem nossa
pele. Hoje, com os corpos cansados, mais velhos e dependentes, precisamos um do
outro. Este livro representa duras horas de sono e de trabalho: é coisa simples
— podemos dizer: não é nada — mas é tudo que pude fazer dentro de minhas
limitações. Ofereço-o, carinhosamente, a você.
POR
QUE NÃO DESISTIR
O
caçador que se perde não pode descansar enquanto não reencontrar a picada. O
fraco que, desesperado entregar-se, covardemente perecerá no lugar.
O
autor.
A
MENINA, O SORRISO E A LÁGRIMA
Quando a conheci, era simplesmente
uma criança. Viera, com os pais, de algum lugarejo de Goiás: não me recordo o
nome agora. Pele rosada,
extrovertida de nascença, saudável como uma corsa das campinas. Tomava-a nos
braços e, meneando o corpo, corria com ela acavalada no cogote, saltando como
um potro arredio o faz ao sair espicaçado de um curral de rodeio. Ela ria, dava
gargalhadas diante do perigo de domar um cavalo —
devia imaginar — louco. Se eu parasse, ela estalava a língua contra o
céu da boca e depois instigava-me atropelando as palavras:
— Mazi, mazi, pula mazi, meu
cabal!...
Ah, o tempo!, esse remédio para a
dor e veneno para a felicidade! Devagarinho ele foi passando, corroendo,
destruindo sonhos e fantasias, fazendo daquela menina pura e feliz, uma jovem
pobre e desiludida. Depois disso, muitos anos se passaram sem que a visse, e por
causa dos malefícios causados pelas agruras da vida, quase não
reconheci mais a filhinha de olhos vivos de meu vizinho de outrora.
Empreguei-a como cozinheira numa frente de serviço que mantínhamos a
quatrocentos quilômetros daqui. Ela ficou mais dois anos trabalhando com a
gente. Quando encerramos o serviço, foi embora.
Durante mais de cinco anos, em
qualquer bate-papo, se as recordações daquele tempo sobreviessem, comentávamos
sobre o desaparecimento da Maria, a cozinheira, então, de olhar tristonho, que
passava o dia cantando a versão de HEY JUDE, de Lennon e McCartney. Ainda pareço
ouvi-la enquanto mexia nas panelas: "Ei, tu, não fique assim! Sabe, a vida
ainda é bela. Esqueça de tudo que aconteceu, amanhã será um novo
dia..." Ela gostava tanto desta música que, certa vez, toda acanhada,
pediu-me para que lhe comprasse uma fita e gravasse, toda ela, com "EI
TU". (Era assim que ela a conhecia).
Dissera-me que havia casado, amado
como ninguém e sido vilmente traída pelo companheiro. Por isso, renovava a
esperança quando, quase chorando, entoava: "Ei, tu, pra que chorar por
alguém que não te ama? Se o mundo agora te faz sofrer, tudo vai passar, você
vai ver. Muita coisa vai fazer você mudar; não tem mais razão de ser, esta
tristeza. Se alguém te faz sofrer, pra que lembrar? Mais vale tentar viver de
esperanças..."
Hoje, enquanto dirigia pelas ruas de
Imperatriz, tendo ao lado dois colegas de trabalho daquela época, por estranha
coincidência, liguei o rádio no exato momento em que começava a música de
que tanto a Maria gostava. No mesmo instante lembramos dela e comentamos o chá-de-sumiço
que tomara, desde que os trabalhos da CIAMA
foram concluídos.
Ainda antes que um de meus
companheiros completasse o comentário de que, a última vez que a havia visto
fora há um ano e oito meses, e que na época
ficara penalizado com o estado em que a mesma se encontrava, eis que,
surpreendentemente, a vimos caminhando pela calçada da Avenida Getúlio Vargas.
Estacionamos o carro e fomos falar
com ela. Fitou-nos num misto de surpresa, alegria e dor: dor por reminiscências
cravadas no coração, agora vivenciadas por nossa presença. Aquela criança
bonita, cheia de vida, alegre e que nunca imaginara a crueldade das pessoas,
agora estava pálida, sorriso tristonho, olhar sem destino, vadio. Percebi que
seus olhos umedeciam na desesperança de refazer a vida, de ver um novo sol
nascer, de recomeçar tudo pela garupa de seu "cabal", e então, para
sufocar a emoção angustiante que se formava, corri para o carro, abri a porta,
aumentei o volume do rádio, alcançando ainda as últimas estrofes:
"...olha pra mim, veja o dia
como está lindo, esqueça de tudo o que já passou, amanhã será um novo dia.
Muita coisa vai fazer você mudar, não tem mais razão de ser, esta tristeza.
Se alguém te faz sofrer, pra que lembrar? Mais vale tentar viver de esperanças."
Aí, então, ela baixou a cabeça e começou a chorar, de fato.
AVE-MARIA
Somos
treze irmãos, todos nascidos na roça, no interior norte do Espírito Santo,
hoje, Governador Lindenberg. Todas as tardes, minha mãe reunia a família em
torno de um velho rádio, sintonizava a Tamoio do Rio de Janeiro e nos fazia
ajoelhar para ouvir a Ave-maria. O apresentador Júlio Lousada, com seu timbre
grave de voz, emocionava: "Seis horas da tarde, ouvinte amigo; que a paz
da Virgem Maria encha de graça seus lares e que as bênçãos de Deus invadam
seus corações, hoje e sempre."
Ainda quando pequeno minha mãe
amamentava-me ouvindo a Ave-maria. Fui crescendo, crescendo e enquanto
vivi sob a expensas da família, nunca deixei de me ajoelhar às 18 horas,
juntamente com todos meus irmãos, bem juntinho do velho rádio.
O tempo foi passando e quando mais
tarde me casei, resolvi tentar a vida sozinho. Saí de casa e fui aprender o ofício
de dirigir caminhões pesados — sonho que sempre fez parte de minha juventude.
Achava lindo e emocionante ver alguns rapazes, meus amigos, chegarem à vila
buzinando seus carros enfeitados com faixas e penduricalhos em cores berrantes.
As meninas suspiravam por eles como se fossem verdadeiros gênios ou heróis.
Mesmo longe de minha mãe e do
restante de minha família — se viajava — nunca deixava de ligar o rádio do
caminhão na Tamoio, todas as tardes, às 18 horas. Se estava fora, achegava-me
perto de um rádio qualquer e pedia ao proprietário a que me deixasse ouvir as
palavras de Júlio Lousada. Era uma fé condicionada, um santo e bom costume, e
também, um grande respeito pelos ensinamentos de minha santa mãe.
Tirei carteira profissional,
consegui um caminhão e comecei a trabalhar. Meus irmãos e meu pai deram o
jeito de comprar-me um Mercedes 1113 e com ele saí pelo mundo. Trabalhava dia e
noite, o tanto que minhas forças suportavam, a fim de não atrasar o pagamento
das malditas prestações.
Na véspera do Natal do ano de 1959,
vinha eu pisando fundo para chegar em casa e passar o dia em que se comemorava o
nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus, juntamente com minha mulher e, então,
meu filho recém-nascido.
Muitos quilômetros separavam-me de
Governador Lindenberg e apesar de todo esforço,
a tarde vinha caindo, vagarosa, mas implacável. Eu queria chegar, eu precisava
chegar! Levava comigo presentes para minha esposa e estava certo que ela,
sofregamente, vigiava a curva onde
eu devia aparecer, acionando fortemente a buzina a ar.
Aqueles pensamentos enchiam meu coração de saudades e apreensão.
Comecei a subir a Serra do
Pinga-fogo. Ela é íngreme e comprida, famosíssima por sua altitude e curvas
perigosas. Aproximava-me da atual cidade de Venda Nova do Imigrante. O caminhão,
em primeira marcha, subia lentamente. O barulho estridente, e ao mesmo tempo monótono
do motor, associado ao extremo cansaço em que me encontrava, fez de
mim uma presa fácil do sono: o sono da morte.
Hoje,
quando relato isso, ainda sinto um arrepio me
varrer a espinha e não posso impedir que meus olhos se molhem de lágrimas.
O certo é que em determinado momento, o sono fez-me deixar o caminhão à
deriva de seus caprichos, em plenos mil metros de altitude, com despenhadeiros
ao lado capazes de tornar em poeira a mais bruta máquina que por eles
despencasse.
Estando a dormir, sobreveio-me um rápido
sonho. Nele eu vi minha mãe se achegar à varanda e gritar desesperada para mim
que pescava num riacho, distraidamente: "Marinho, Marinho, venha
logo, venha correndo! Já vai começar a oração da Ave-maria."
No mesmo instante eu acordei e vi
que meu caminhão saía da estrada para se precipitar num dos tantos
despenhadeiros sem fim. Pisei automaticamente no freio e ele parou de chofre,
ficando a balançar entre a estrada e o precipício. Olhei no relógio e eram,
exatamente, 18 horas. Percebi que havia acontecido um milagre e que não foram
em vão a persistência e a fé de minha mãe durante aqueles tantos anos.
Liguei o rádio imediatamente e ouvi as
primeiras palavras de Júlio Lousada: "... porque se estás com Nossa
Senhora, nada de mal poderá acontecer-te."
A
ÁGUA MILAGROSA
Conta-se
que numa paróquia do interior vivia um sacerdote humilde e pobre que se tornara
milagroso por causa de sua "Água de São Geraldo".
Nunca se soubera, até então, a fonte onde o velho sacerdote apanhava a tal água
que possuía a força intrínseca de resolver contendas e acabar com velhas e
constantes discórdias entre as pessoas.
Naquele tempo, segundo a história,
casou-se um jovem intempestivo que, embora muito religioso, não
conseguia dominar seu gênio terrível. Sua maneira impulsiva de reagir a
qualquer contratempo estava prestes a dissolver seu matrimônio. O escândalo
parecia iminente, já que, por aquelas bandas "o casamento continuava a
ser um sacramento indissolúvel".
Todas as noites ao regressar de seus
afazeres, o homem o fazia com os nervos à flor da pele. Se não encontrasse a
toalha ou qualquer objeto no lugar desejado, começava logo a reclamação. Já
cansada de toda aquela impertinência, a esposa reagia, advindo daí um discussão
sem precedentes. E de tal forma o problema foi se agravando que, certo dia, após
o jantar, a mulher, tomando a palavra cheia de aflição, disse ao marido que
iria para a casa da mãe dela, pois
não suportava mais tanta incompreensão e nervosismo.
Um vizinho amigo, ouvindo o
bate-boca acirrado, acorreu solidário:
— Caros amigos: estou sabendo que
a coisa não anda nada fácil por aqui e o zunzum que corre é que os prezados
pretendem a separação por incompatibilidade de gênio.
— É verdade! — suspirou o homem
— ninguém consegue viver com uma pessoa relaxada como minha....
— Relaxada, vírgula! — retrucou
a esposa ofendida. Você, com esta sua petulância...
— Por favor, tenham calma,
escutem-me um minuto apenas. Conheço um velho e santo sacerdote que possui uma
água milagrosa, capaz de acabar com qualquer desentendimento, principalmente
entre marido e mulher.
Os dois quietaram um pouco e depois
de ouvir o vizinho, concordaram em procurar o velho ministro de Deus a fim de
conseguirem, em última instância, a tão propalada "Água de São
Geraldo", capaz de acalmar os ânimos mais acirrados e promover a
compreensão e a concórdia. Dias depois foram falar com o velho sacerdote.
Quando chegaram ele estava ajoelhado
num tosco genuflexório, passando vagarosamente as vistas cansadas sobre as orações
matutinas de seu missal, ainda em latim. Ouviu-os atentamente e observou:
— Apenas um dos dois precisa usar
da água e vou optar pela esposa. Por favor, acompanhe-me — falou designando-a
com o olhar.
Lá dentro da sacristia, o velho
sacerdote explicou:
— A Água de São Geraldo é de
fato milagrosa, desde que se observe rigorosamente sua maneira de ser usada.
Todas as vezes que seu marido chegar em casa nervoso e começar
arreliar, você deve colocar um pouco da água na boca e segurá-la sem
que vaze uma só gota. Não poderá
engoli-la também . Tão logo seu marido se acalme e cesse de acusá-la, você
deverá ir até seu quintal e jogar a água que estiver na boca numa plantinha
de sua estimação. Verá que quando o litro secar, ou mesmo antes disso, seu
esposo chegará em casa calmo e compreensivo. O milagre terá acontecido.
Embora duvidando, a mulher assentiu.
O velho sacerdote foi sozinho ao fundo do quintal e encheu o litro com água
comum da torneira que utilizava para molhar as parcas flores do jardim. Voltou
e, cerimoniosamente, entregou-o à mulher que incriminava o marido como único
culpado.
— Muito cuidado
— recomendou — se a água
derramar, coisas piores poderão advir.
Dois meses depois os dois voltaram
cheios de gratidão e felicidade:
— O senhor é, de fato, um padre
santo. Deus lhe pague o que fez por nós. Agora, por favor, mostre-nos a fonte
dessa água milagrosa. É injusto privar tantas pessoas que dela precisam.
O sacerdote, sorrindo, levou-os ao
fundo do quintal, mostrou a torneira comum que utilizava para molhar as plantas
do jardim, e explicou:
— Filhos, a água nem sequer foi
benzida. Na verdade, quando uma pessoa está nervosa, ninguém deve tentar
convencê-la de coisa alguma, pois toda razão estará prejudicada. Por outro
lado, ninguém, por mais nervoso que se encontre, ficará falando sozinho. Você,
com a boca cheia d'água não podia revidar as acusações, e ele, sem o revide,
acabava percebendo a estupidez de estar falando ao vento. Por isso a Água de São
Geraldo funcionou mais uma vez — e irá funcionar sempre que um dos exaltados
se calar dando chance ao outro de reconhecer a ignorância que toda violência
acarreta. Agora podem ir em paz e que Deus os acompanhe.
OS
CRISÂNTEMOS
Conta-nos a lenda que no sertão de
um país bastante frio, morava uma família de camponeses. Como vivessem do
amanho da terra, era comum o chefe da casa preocupar-se mais amiúde com as
plantações, mormente nos tempos de neve e de tormentas. Numa tarde cinzenta de
inverno, a temperatura caiu bruscamente e começou a nevar forte. O camponês,
ao sentir que sua roça poderia ser dizimada pela intempérie, vestiu o
sobretudo e foi verificar suas tenras plantinhas. O vento gélido soprava forte,
criando uma verdadeira rajada de flóculos através dos campos.
Ao retornar cansado, numa curva
ainda mais fria, ouviu um gemido de criança que parecia agonizar. Achegou-se
mais e deslumbrou no meio da neve, um menino pobre, seminu, que mal conseguia
mover os bracinhos arroxeados. Surpreso e comovido, o camponês, num ato
impulsivo, retirou a criança da neve, enrolando-a em seu sobretudo e partindo
à pressa para sua casa.
Lá chegando, colocou-a ao lado da
lareira, enquanto sua mulher preparava qualquer coisa para saciar a fome daquele
menino desamparado. Quando o mingau chegou, já a criança dormia profundamente
e acharam por bem não acordá-la. Colocaram-na num berço e também foram
descansar.
Pela manhã, ainda antes de o sol
nascer, acorreram curiosos, mas não o encontraram na caminha. Vasculharam,
procuraram vestígios: nada. Era como se o menino tivesse evaporado por encanto.
No outro dia, domingo, por ocasião
da missa, o camponês viu, pregada numa das paredes da capelinha, uma gravura do
Menino Jesus. A semelhança daquela gravura com o menino que salvara deixou-o
incrivelmente surpreso. Chamou a mulher e segredou-lhe o que estava imaginando.
Ela, também, ao olhar para a gravura, ficou estupefata, mantendo-se boquiaberta
como se estivesse vendo uma miragem do além.
Na segunda-feira, ao voltar para o
serviço, o pobre camponês não resistiu à tentação de examinar o lugar onde
havia encontrado o menino. No mesmo lugar, por entre flocos de neve, dezenas de
lindas flores coloridas e perfumadas, cresciam cheias de vida. O camponês, já
não tendo mais dúvida alguma de que aquela criança que socorrera se tratava
do Menino Jesus, colocou nos renovos o nome de CRISÂNTEMOS, que quer dizer,
flores-de-cristo.
Pois é, caros leitores, as lendas
estão por aí, sempre avivando nossa sede de fé. De fato, o ser humano é o único
animal que crê em Deus ou, ao menos, em alguma entidade superior e criadora de
tudo. É um dó que existam seitas e crenças falsas misturadas à verdadeira
religião. Elas são como o dinheiro e outras coisas falsas de estrita semelhança
com as verdadeiras e que a tantos confundem e prejudicam. De qualquer forma Deus
nos julgará pelas intenções e não pela religião que seguimos.
Hoje
o que me importa é lembrar que muitos "meninos jesus" são colocados
em nossa porta, no nosso lugar de trabalho, na nossa cidade..., todos esperando
nossa solidariedade e ajuda. Esses pobres, miseráveis, injustiçados,
doentes... são verdadeiras graças de Deus àqueles que desejam se salvar. É
por meio deles que na neve, nos cortiços, nos hospitais, certamente em todo
recanto do mundo, surge-nos a oportunidade de fazer florescer milhares de crisântemos.
Notemos quantos, em vão, batem à
porta, imploram nosso socorro, solicitam emprego,
um prato de comida...
Não é por outro motivo que em
nossos dias seguintes, ao cruzarmos os locais onde nos solicitaram em vão, os
encontramos áridos, inóspitos e vazios. Na verdade, quando fazemos a caridade,
quando socorremos nossos semelhantes necessitados, em algum ponto do universo
nascem crisântemos — ainda que nos recônditos de nossos corações, eles
certamente nascem.
VOCÊ
PODE SER DEUS
Um dia ele se olhou no espelho e
percebeu que se deixasse a barba e os cabelos crescerem, ficaria se parecendo,
fisicamente, com Jesus Cristo. Puxa!, Jesus Cristo sempre fora seu herói, seu
ídolo, seu Deus. Se toda sua admiração por Ele se convertesse em fé,
certamente ele seria também Deus.
Começou a não mais rapar a barba,
nem tão pouco cortar os cabelos. À medida que eles cresciam, não só ele, mas
qualquer um notava certa semelhança com os traços fisionômicos que os
pintores deixaram de Jesus.
Iniciou-se, a partir dali, um
processo de transformação doentia: a cada dia ele ia se convencendo mais de
que era a reencarnação do Filho de Deus. Deixou seus vícios, lia e relia a Bíblia
e tudo o mais que podia sobre esse Homem que deu a própria vida para remir os
pecados da humanidade.
Aquele ser frágil que vivia nele,
cheio de defeitos, de desejos escusos, de malícia, inveja e egoísmo,
paulatinamente foi cedendo lugar a outro, cheio de compreensão e
desprendimento. Mais um pouco e ele completaria os trinta anos. Seria a hora das
pregações, de reapresentar ao mundo adormecido e ingrato, as belas e
esquecidas leis do perdão, da justiça, da mansidão e da fraternidade. A idade
chegou.
Deixou sua casa onde já ouvia
rumores de que estava mal da cabeça, e foi para as regiões semidesérticas do
Nordeste. Na própria terra, pouco se consegue — lembrou-se disto como se
estivesse em Nazaré, diante de conterrâneos descrentes: "Não é este
o filho do carpinteiro?"
Depois de quarenta dias comendo o
que encontrava nos cerrados, apareceu numa vila do sertão nordestino. Sentiu
muitas tentações, porque mesmo nos tresloucados, os desejos são fortes. Houve
dias em que teve medo do que estava fazendo. Quis desistir, mas todas as vezes
que se olhava no espelho, a semelhança divina incitava-o a prosseguir.
Em busca de uma tábua de salvação
que flutuasse no mar de corrupção, fome e miséria em que se encontrava o País,
as pessoas sofridas da região, acorreram a ele cheias de esperanças. A notícia
espalhou-se rapidamente por todos os recantos.
O bispado reagiu, delegando uma
comissão com o fito de demovê-lo daquele alucinado comportamento. Ninguém
é mais incompreendido do que os idealistas, os predestinados, aqueles
que chegam a este mundo antes da hora. Por causa destes pensamentos, não
desistiu. Ele mesmo nunca soubera se era normal ou louco.
Meses depois a Igreja Católica
tomou posição definida e drástica: ou ele parava com suas pregações, ou
seria, sumariamente, excomungado. Ora — pensava — quem poderá fazer isso a
mim se toda autoridade de mim emana? Rogava mais uma vez ao Pai para que lhes
perdoasse, porque apesar dos quase dois mil anos, "os rabinos" ainda não
sabiam o que estavam fazendo.
Numa tarde, enquanto pregava a uma
multidão, subiu até aonde se encontrava, trazendo consigo um surdo de nascença,
um sacerdote muito esperto. Interrompeu o sermão, desafiante:
— Caros fiéis, o próprio Jesus
afirmou que aqui só voltaria com sua presença física para julgar os vivos e
os mortos, no Juízo Final. Este homem vive fora da realidade. É um autista
que, por causa de problemas mentais, criou um mundo irreal e autônomo, e isto
pode ser muito perigoso para suas almas. Trouxe aqui comigo o Joel, surdo de
nascença que todos vocês conhecem. Vejamos se este jesus lhe devolverá a audição.
Sem temer, o pregador retrucou em
riste:
— E se o Joel passar a ouvir,
acreditará em mim?
O sacerdote inquietou-se
sobremaneira, mas apesar da ameaça cheirar-lhe a "tentar
Deus", não recuou. Estava mais que certo que o Joel continuaria surdo e
que aquele homem seria desmascarado. Por isto, desafiou prepotente:
— Não só eu, mas todos os que
estão aqui, certamente, acreditarão que você é Jesus Cristo. Faz com que ele
ouça os trinados destes galos-de-campina e acreditaremos.
Tomando ares de intensa compenetração,
o "tresloucado" foi ao
surdo e apoiando as mãos nos ombros dele,
fitou-o nos olhos, repreendendo o sacerdote:
— Por que duvida? Acha isso impossível
a meu Pai que está nos céus?
Fez-se silêncio sepulcral. Sem
saber ao certo o que estava se passando, e vendo diante de si uma figura que
tanto já vira em folhinhas e igrejas, o surdo de nascença foi entrando numa
espécie de transe, em seu mundo de ilusões e sonhos. Seu coração
encheu-se de fé; sua alma transbordou de esperanças. Já
não tomava sentido ao que se passava ao redor. Cada célula de seu corpo foi
sendo invadida por uma força capaz de remover montanhas: a fé. Ele sim, entre
todos, era o único que não tinha dúvidas de estar diante daquele que poderia
livrá-lo da surdez: Jesus Cristo.
E o lindo véu escarlate que naquela
tarde encobria o horizonte árido, testemunhou, pelo milagre daqueles ouvidos
que se abriram, os belos trinados dos galos-de-campina. De joelhos, rosto
banhado em lágrimas agradecidas, o até então surdo, ascendeu aos céus um
olhar comovente.
O homem que se dizia Jesus Cristo não havia
dito, pedido nem ordenado nada. O surdo havia se curado pela própria confiança.
Então ele, voltando à realidade,
desceu a colina certo de que era o mais comum dos mortais, mas que poderia ser
Deus sim, se conseguisse ter fé.
O
FANÁTICO
Apareceu um dia em minha casa um
homem alto e magro, descalço e de roupas esgarçadas, barba e bigode crescidos,
alguns dentes na boca. Era moreno, aparentava uns cinqüenta anos e refletia nos
olhos castanho-escuros, um brilho estranho: desses que a gente só percebe nas
pessoas desajustadas ou carismáticas. Uma grande cicatriz que se estendia da
cabeça até à ponta do queixo, chamava a atenção.
Muitas vezes já havia visto pessoas
assim: todas apresentavam desvios psíquicos. Por isso, quando ele se aproximou,
com toda sutileza possível, convidei-o a entrar e a sentar-se. Ele esfregou os
pés casquentos e empoeirados na calçada, pediu licença e entrou. Percebi, então,
que era quase careca, e que os cabelos remanescentes há muito não eram
aparados. Perguntei:
— O senhor deseja falar comigo?
— Não sei — limitou-se a
responder enquanto se entretinha com qualquer coisa que esfregava contra o chão
com a planta do pé direito. Supus aí que aquele homem poderia mesmo ser um
desajustado mental. Insisti:
— Se veio aqui, certamente é
porque tem alguma coisa a me dizer.
— É que ando pelas ruas gritando
pros home se lembrá de Deus e por isso me chamam de louco. Você acha que sô
doido mesmo?
— Não penso assim — arrefeci.
Muitos dos que foram tachados de loucos no passado, hoje se afirmam como gênios
nascidos antes do tempo. Quando alguém apresenta uma idéia diferente, um
pensamento que não condiz com o conhecimento da época, logo é considerado
anormal. Mas, entre loucura e genialidade, até hoje, poucos sabem da diferença.
Sem dizer mais nada ele se ergueu e,
cabisbaixo, contou uma rápida e triste história:
— Eu morava no Centro do Toim,
tinha muié e um fio. Uma noite, quando abri os zóios, vi um home de facão na
mão, no pé de minha cama. Assustado, eu quis levantá, mas ele meteu o gume na
minha cabeça. Só vi o facão que vinha e nada mais. Quando vortei do desmaio,
vi minha muié e meu fio, tudo morto, picotados. Logo que vi o que tinha
acontecido, panhei de uma faca de cozinha e quis metê ela na minha goela. Não
consegui: tinha arguma coisa segurando minha mão. Eu oiei dos lado e não vi
ninguém. Então eu entendi que era Deus que segurava, e que se não deixava eu
me esgoelá era porque esperava arguma coisa de mim. Ai eu comecei a senti
vontade de gritá pros home se lembrá de Deus. Acho que é isso que Ele qué de
mim.
Dizendo isto, rodou nos pés e foi
embora. Apenas a silhueta fantasmagórica,
eclipsando-se na curva da estrada, ficou-me como lembrança.
Alguns dias depois, voltando eu de
uma viagem ao Pará, subi meu carro na balsa de travessia do Araguaia. Muitos
passageiros se misturavam aos veículos. Era noite e chovia muito. Não havia
luar, ventava forte e as águas estavam turbulentas. De repente, os solavancos
das ondas arremessaram um caminhão para frente. Na confusão que se seguiu, uma
senhora tropeçou e, na ânsia de agarrar-se ao corrimão, deixou que o filho de
dois anos caísse nas águas tempestuosas.
No meio do tumulto e do desespero,
ela gritava para que acudissem. Seus gritos, porém, confundiam-se com a melopéia
fúnebre de ventos uivantes e ondas agitadas. Foi então que ouvi uma voz um
tanto familiar, a voz do lunático (?) que me visitara dias atrás. E sua voz
sufocou a balbúrdia num grito épico de fé:
— Carma, tenha fé, fios de Deus!
Nada vai acontecê se Deus não quisé.
A mulher desesperada, revidou:
— Deus, Deus!... Meu filho caiu na
água e tou certa que Deus não vai salvá ele.
— Se Ele quisé Ele salva sim —
respondeu o fanático, ou o homem de fé, não saberia precisar.
Não fosse a feição ardente de um
desvairado, dir-se-ia que a fé transmitida por sua confiança era palpável. A
luz sem presteza vinda dos faroletes e de algumas lanternas alumiava o rosto
transfigurado do homem que diziam louco ou fanático. Braços erguidos, olhos
fixos para o alto, ele orou:
— Deus do céu e da terra, nunca
pedi pra mim nem pro meu fio o que vô pedi agora pro Sinhô: salva a vida do
menino desta muié. Tire ele da água pra prová que aqui na terra as coisa só
acontece se o Sinhô quisé.
Fez-se silêncio tumular. Parecia
que o homem ouvia uma voz desafiante. Depois de alguns segundos ele replicou
anuente:
— Eu vô no lugá do menino. É
preciso prová, agora, que o Sinhô existe. Este povo todo pensa que sô doido
porque sei que se o Sinhô quisé, esta criança vai saí viva do rio.
E dizendo isto atirou-se nas águas
escuras do Araguaia, deixando no ar apenas o marulhar das ondas agitadas e a
escuridão das incertezas. Ninguém esboçou o menor gesto para salvá-lo: todos
acreditavam que era louco. Vivia
pelas ruas das cidades gritando o nome de Deus e alertando aqueles que o ouviam
para que não se esquecessem do Criador.
A embarcação continuou singrando
até encostar, enfim, na margem oposta. A mãe já não gritava: soluçava
apenas. Um senhor comovido tomou-a pelos braços ajudando-a a descer. Quando
ainda não tinha pisado o solo, ouviu-se um grito que vinha de um canoeiro que
subia, misteriosamente, o rio:
—
Gente, nois pegô uma criança trepada num gaio de pau lá embaixo. Ela caiu daí?
O
CHORÃO
Todo pai de grande prole sabe que,
apesar da mesma origem, os filhos não são todos iguais. Uns estão sempre
irritados; outros morrem de preguiça; uns são destemidos; outros, covardes...
Só mesmo quem tem uma grande família compreende essas vicissitudes incompreensíveis
ainda ao nosso entendimento.
Na comunidade, que é o agrupamento logo acima da família, também
encontramos gente das mais diferentes índoles. Dizem que é por isso que o
mundo é bonito. Vale aqui o velho provérbio: "Que seria do verde se todos
gostassem do amarelo?"
Dia a dia nos encontramos com gente
de todo tipo. O mais interessante mesmo é o chorão, aquele que é sempre um
incansável na arte de reclamar. É, tem pessoas que pensam sempre que estão
levando a pior, que o vizinho, o pai, o sócio, o amigo, enfim, todos os que com
ele vivem, o extorquem, exploram e sugam.
Era comum, nos meus tempos de criança,
a visita de missionários católicos em nosso vilarejo, hoje, cidade de Marilândia.
Esse acontecimento significava, na época, o que hoje talvez representasse a
visita do próprio papa João Paulo II. Mal
o Jeep despontava lá no começo da vila, na fazenda do Luís Catelan, os
foguetes espocavam, os vivas ecoavam pelo vale como se fossem as trombetas do Juízo
Final, ou as cítaras, timbales, liras, e saltérios na locomoção do Tabernáculo
Sagrado nos tempos do rei Davi.
No almoço, muitas galinhas caipiras
regadas a vinho de laranja, davam o toque típico da hospitalidade genovesa:
particularidade preservada da saudosa península. Com a exceção da de Corpus
Cristi, não havia naquela comunidade italiana, festa maior.
Esses missionários não passavam
mais que uma semana nas localidades que visitavam, mas era o bastante para não
serem esquecidos até a próxima "inspeção", quase sempre, um ano
depois. As penitências eram tão rigorosas e excêntricas
que, às vezes, tínhamos a impressão de havermos sido condenados ainda em
vida. Para se ter uma idéia, um coleguinha meu, por haver paquerado as
cabritas do Eurides Canal, teve que rezar cinco terços com a estuprada nas
costas. A turminha ficou tão assustada e cheia de escrúpulos que, até por
lembrar das cabras, já interrompia a comunhão dominical. Não havia pecado
mais horrendo.
Numa dessas visitas, o padre
Ponciano, missionário holandês aloirado, alto e de voz estridente, mandou que
fizessem cruzes, tantas quantos eram os pecadores dispostos a sanar as dívidas
para com o Todo Poderoso. Embora do mesmo tamanho, as cruzes tinham pesos
diversos, já que eram feitas com as mais diferentes essências da região: bicuíba,
paraju, baraúna, pau-sangue, jequitibá, caxeta... O paraju, por exemplo, só
perdia pelo ébano africano, chegando a pesar mais de uma tonelada e meia por
metro cúbico. As cruzes feitas de
cedro e vinhático, eram as
mais leves, mesmo assim passavam de quarenta quilos cada uma.
Chegada a hora, entusiasmados, os fiéis
meteram as pesadas cruzes às costas e partiram. No começo, tudo pareceu fácil.
Algumas horas depois, porém, já poucos não arrastavam seus pesados lenhos. A
euforia não diminuía, pois com seu sotaque engrolado, o padre Ponciano não se
cansava de lembrar a cada um que Jesus Cristo havia sofrido horrores por causa
dos pecados que haviam cometido durante o ano.
No meio da multidão havia um fiel,
o Altino, proverbial em sua mania de possuir todos os sintomas de qualquer doença
que se tivesse notícia. Era desses eternos reclamadores que todos nós
conhecemos. Não foi preciso mais que alguns minutos de caminhada para que começasse
a proclamar-se injustiçado por terem lhe dado a cruz mais pesada. Os demais,
porém, seguiam quietos e resignados.
Caiu a noite. A primeira etapa
estava cumprida. Cada um arrancou do embornal um bom naco de polenta, puína e
queijo e foi saciando a fome que parecia digerir o próprio estômago. Em
seguida, cada um foi se estirando
pela pastaria. Fazia parte do sacrifício, a noite ao relento. O cansaço, no
entanto, desvalorizou o sacrifício, pois em poucos segundos tudo o que se ouvia
eram roncos e bufadas. Nenhum outro colchão de penas ou taboas seria, naquela
noite, mais macio que o capim-pernambuco do chão. Extenuados fisicamente e
aliviados espiritualmente, os camponeses dormiam e sonhavam, novamente, com as
paragens celestiais.
O Altino, porém, não conseguia
dormir. Revoltado com a desdita de haver tocado a ele o lenho mais pesado, saiu
de fininho e, apesar da escuridão, foi até aonde se encontravam as cruzes
amontoadas. Com sua resistência debilitada funcionando como sensor
de qualquer grama, separou uma cruz que lhe pareceu de cedro seco, a mais
leve de todas.
Às cinco horas, embora um tanto
escuro ainda, o missionário, com sua voz estridente e inconfundível, deu o
toque tempestuoso de alvorada: "Vamus, pecatores, que las chamas do inferno
estã acessas e..." O Altino levantou-se à pressa e, sorrateiramente, foi
apossar-se do lenho que havia separado. Afinal, ninguém mais que ele sofrera
tanto no dia anterior e não era justo pagar, sozinho, a conta daquele batalhão
de pecadores.
Imaginem a decepção dele quando, ao clarear
plenamente, reconheceu na cruz que havia separado, a mesma que transportara
durante todo o dia anterior.
OITO
ANOS SEM ÁGUA
Há quatorze anos, mudamo-nos de
Linhares, no Espírito Santo, para Imperatriz, no estado do Maranhão. Entre
familiares e funcionários, contávamos vinte e duas pessoas. Homens, mulheres,
crianças..., toda a patota foi condensada dentro de uma única casa que não
possuía mais que cento e vinte metros quadrados. Para diminuir o espaço, tínhamos
ainda a companhia de gatos, cachorros, centenas de pássaros que eu trouxera do
meu estado, um caticoco e mais o papagaio de estimação de minha saudosa mãe.
O caxinguelê, tenso pelo celibato
forçado de longos anos, mais a balbúrdia avessa a seus princípios naturais,
passou a se tornar agressivo. No mesmo instante em que saltitava de um galho
para outro — pois vivia solto — ele quietava, eriçava o rabo, emitia um tchac
tchac característico e depois investia contra quem estivesse mais perto. A
esposa de um de meus funcionários, depois do curativo na canela, assinou-lhe o
atestado de óbito: numa trágica manhã ele apareceu com as tripas de fora.
Os gatos logo debandaram para as
bandas da Vila Lobão e entre cacetadas e pragas, somadas às perseguições
ferrenhas de seus inimigos eternos, os cachorros, desapareceram.
Os cachorros, por sua vez, um tanto
desacostumados com o tráfego intenso de uma BR, terminaram seus dias sob as
pesadas rodas de jamantas açodadas. Somente o "Cruck",
papagaio de minha mãe, assistiu-nos a até pouco tempo, quando a crise forçou
um magote de pivetes a entender que não seria mau negócio, um velho "curupaco"
que conseguia, com versatilidade impressionante, interpretar várias músicas de
nosso folclore.
Pois bem, todo esse preâmbulo serve
apenas para traduzir nosso agradecimento a esta terra que nos deu a oportunidade
de crescer e fazer sólidas amizades, pois foi aqui que, pouco ou muito,
conseguimos aumentar nosso patrimônio a nível de classe média.
Depois de uns tempos, construímos
nossas casas. Em todas observamos o princípio de justiça, usando o mesmo tipo
de material e a mesma metragem construída. Apenas o formato diferia. Por azar
ou coisa parecida, as torneiras da cozinha e da área de serviço de minha casa
pareciam entupidas: nelas a água era minguada, quase pingava.
Nas de meus irmãos e também nas
demais torneiras de minha casa, ela jorrava aos borbotões. Aquilo me dava uma
inveja danada... e entreveros também, pois não é fácil ter que suportar em
cada toque de torneira, o sermão de uma esposa afoita, sempre afobada e
irritada com o almoço atrasado.
Muitas vezes pensei em arrebentar
tudo e examinar a causa, mas sempre concluía não valer a pena, já que os
azulejos e cerâmicas que seriam danificados, não tinham similares no mercado.
A casa ficaria remendada e feia. Oito anos passamos assim: a água pingando e a
mulher com os nervos à flor da pele.
Um dia, a bomba d'água deu
problema. (Nosso sistema de água era particular). Trocamos por outra que também
durou pouco. As torneiras que antes pingavam, secaram definitivamente. Neste
comenos, chega minha mulher, indo diretamente lavar um copo ou um pires, não me
lembro bem. Nada.
Intempestiva de nascença, investiu
furiosa:
— Antes tivesse me casado com um
bombeiro; pelo menos não teria que passar oito anos nesse sofrimento. Que diabo
de homem é você que não dá jeito nesta droga de torneira?
— Ao invés de desejar um
bombeiro, deveria maldizê-los, pois foram eles que fizeram esta droga emperrada
— defendi-me num repente.
E no jogo pouco amistoso de
palavras, acabamos por nos emburrar, cada qual realizando sua catarse em
resmungos imbecis. Não satisfeita, minha mulher, depois de esgotados os
recursos verbais, apelou para a desforra física, agarrando torneiras e canos e
forçando-os pra todo lado. Não sei a razão, mas em cada torção de torneira,
sentia meu pescoço doer. Estava certo que eles, altruisticamente, substituíam
o meu lugar. Tudo que via e que imaginava ter ligação com água, não escapou.
E foi assim que ela descobriu um objeto que há oito anos estava silencioso e
abandonado num canto, ao lado do exaustor do fogão.
Aquilo, amigos, estava ali há oito
anos, fosco e empoeirado, untado mesmo pela gordura que escapava da aspiração,
bem em frente ao nosso nariz, diríamos, rindo de nossa falta de raciocínio e
observação. Aquela pecinha empoeirada, ali há oito anos, por cima do fogão,
num lugar em que quase se batia com a cara ao se mexer nas panelas, aquilo...,
bem, aquilo era um REGISTRO, e estava quase fechado desde a construção da
casa.
Quando
o abrimos e a entrada de ar foi eliminada dos canos, o jato que se seguiu
parecia querer descontar o atraso. Minha mulher e eu nos entreolhamos
penalizados: não havia dizer.
ATÉ
NO CÉU HÁ FARSANTES
No último fim de semana estive
viajando por aí. Quase sempre minhas andanças restringem-se à fazenda ou
similares. Nesses lugares, muito caboclo, muita gente simples e humilde. Durante
o dia quase não os vejo, mas à noite, num banco tosco de madeira sob cajueiros
e à luz do luar, ouço casos e histórias, as mais engraçadas e filosóficas
possíveis:
"Lá pras bandas de Machacalis,
em Minas, tinha um home que morava perto do rio Grumará e esse home ganhava o
sustento da famia plantando mio. As roça dele era sempre as maió da região.
Cumo onde tem comida sempre aparece os bicho pra comê ela, logo os pássaro-preto
invadiro a prantação.
Vendo que seu mio era arrancado inté
antes de nascê, o fazendero resolveu mandá o fio, que tinha dom, fazê um
espantaio de vinhático, madeira mole, leve, faci de escupi. O menino era bom
fazedô de boneco de pau e o espantaio ficô pronto em duas semana. Eles foro lá
na beira do Grumará que cortava toda a prantação e enfiaro o tal boneco pra
mode espantá os passarinho.
Numa noite quando as chuva do tempo
apertaro, o rio subiu muito e carregô o espantaio que tava na bera. No amanhecê
do dia o boneco tinha sumido e ninguém mais achô aquela coisa por bom bocado
de tempo.
Deixa que as água levô o troço
mais de quinze quilômetro pra baixo e lá, num remanço que feis praia, por
coincidença, o boneco ficô de pé, enterrado na areia até a cintura. Um
matuto que primeiro viu aquela geringonça saiu espaiando a notiça dizendo que
um santo havia descido do céu pra ajudá eles.
Não foi preciso mais que meis pra
que o santo desandasse a fazê milagre, livrando todo mundo das infermidade.
Gente vinha de todo canto de Minas e inté de outros lugá mais distante e todo
mundo voltava falando maravias.
Deixa que o fabricante do santo caiu
doente tombém. Embora a notiça do santo milagroso já tivesse passado por lá,
eles nunca tinha ido vê. Já havia sido inté construído uma capelinha em
vorta e pela marge do Grumará uma vila começava, com quiosque e tudo.
Sem jeito do fio
miorá, o pai resorveu, um dia, arriá os animal e levá ele inté o
santo milagroso. A viage foi difici, mas num domingo à tarde eles chegaro lá.
A beira do Grumará estava parecia festa, todo mundo apinhado esperando a veis
pra entrá na tenda dos milagre.
Manco
arribava as perna, nego que não trabaiava de dor nas costa saía dando cabaiota
pela areia, muié de corrimento saía do oratoro oiando o marido de lado. A fé
aumentava cada veis mais em cada
milagre que acontecia. Foi inté que chegô a veis do menino entrá na
igrejinha. Ele foi de cabeça baixa, cheio de confiança, pedindo, primero perdão
dos pecados da mocidade sem muié pruque entendia que o santo não ia passá em
caminho intupido, e sua foia corrida não era das mió.
Ele se aproximô do altar com lágrima
escorrendo na cara. Quando levantô os zóio e enxergô aquela coisa que ele
mesmo tinha feito, pulou em pé como se tivesse sido curado. O pai que tava
fora, socorreu agoniado cumu leitão de porca de muito fiote:
— E aí, fio, ocê tá curado?
— Pai!, — disse ele — a image
que tá lá dentro é o espantaio que o sinhô mandô eu fazê pra mode
espantá os grumará do mio. Isto nunca foi santo não, pai!
Daquele dia em diante nunca mais
aconteceu lá um milagrinho siqué. Acho que aqueles que diz que
Deus somo nóis mesmo pro meio da fé estão com a razão pruquê
enquanto o povo acreditava que aquilo era santo, mesmo sendo um espantaio de
espantá grumará, os milagre acontecia. Depois que descobriro que era só um
pedaço de pau véio, a cabocada
cacetô ele como se fosse o Juda da Semana Santa."
— É — concluí — "para
quem acredita, cabeça de peixe faz milagres"!
É
DANDO QUE SE RECEBE
Se os seres humanos fossem mais
observadores, certamente não precisariam
freqüentar escolas para viver mais
dignamente e em paz neste mundo. A própria vida, com suas nuanças e surpresas,
é um professor constante a nos ensinar os segredos da boa convivência. É
lamentável que apanhemos todos os dias por causa das mesmas incidências e
jamais nos libertemos das falhas,
dos vícios, dos maus costumes e de toda prática
invirtuosa.
É erro crasso imaginar que os ricos
não precisam dos pobres; que o culto não aprende com o ignorante e que —
como diz o matuto — o aviador não possa, um dia, precisar de um velho jegue.
Sempre, enquanto existir vida humana no planeta, os seres humanos, sem distinção
de raça ou cor, de riqueza ou pobreza, precisarão uns dos outros. A idéia de
que não dependemos de nossos irmãos é a mais falsa que existe.
Quando jovem, cheio de sonhos e ilusões,
comprei um Rural Willis (embora isso deponha contra minha idade, devo dizer que
esse tipo de carro não é mais fabricado). Aquele veículo, erroneamente, era
uma das coisas mais importantes que eu possuía. Cuidava dele como, talvez, não
cuidasse de mim.
Naqueles idos comecei a namorar uma
estudante do interior. Ela morava a uns sessenta quilômetros de mim e quando o
fim de semana se aproximava, eu começava a dura tarefa de dar limpeza e brilho
no meu Rural —
a intenção era impressionar o quanto possível.
Aquele sábado — apesar de
distante — parece-me hoje. Lá ia eu devagarinho (nem a poeira queria que
entrasse) quando percebi um senhor de cor negra que, de cacaio às costas,
caminhava tropegamente pela estrada, acompanhado da mulher e mais três famélicas
crianças. Entre a formação que me pedia para dar carona e a vaidade de chegar
com o carro perfumado e limpo, venceu a formação. Eles entraram. Estavam sujos,
fedorentos: sinceramente, não pareciam humanos. Meu impecável Rural ficou em
situação deplorável. Na fazenda do então senador Lindenberg eles desceram e,
com mil agradecimentos, entraram na capoeira. Adiante ficava a tapera em que
moravam. A vida de muitos brasileiros — se desconhecem — é subumana.
Quando olhei a sujeira interior de
meu estimado carrinho e aspirei o ar fétido que entranhou em tudo,
arrependi-me. Que iria pensar minha namorada?
O que ela pensou, nunca me disse. De
qualquer forma, aquilo não foi motivo para que me deixasse. Muitas outras
viagens fiz para o interior, mais precisamente de Linhares para a, então, vila
de Governador Lindenberg. A estrada, em boa parte, margeia o Rio Doce e quando
chove transforma-se em verdadeira tortura para os motoristas.
Numa de minhas viagens, voltava eu
da visita. Eram vinte e três horas. A chuva surpreendeu-me no caminho. A
estrada ficou lisa e perigosa. Num determinado trecho, o carro atolou. Eu estava
só, e em volta, apenas capoeira, som intermitente de chuva, algum cricrilar
apaixonado e um cenário de pirilampos que riscavam a escuridão como se fossem
fagulhas de fogos de artifício. Acelerei o carro o quanto possível, na
tentativa de sair daquele lugar ermo e fantasmagórico. Mais de trinta minutos
vivi aquela agonia.
De repente, como por encanto, vi que
a luz de uma lamparina movimentava-se pela capoeira e vinha em minha direção.
Fiquei apreensivo e, confesso, com muito medo. Como não tinha para aonde
correr, aguardei os acontecimentos. Era um negro e sua mulher que, ouvindo o
roncar do motor, vinha em socorro de quem ali estivesse. Rasparam o chão,
empurraram, lutaram e lutaram em plena noite de chuva, até que meu carro saiu
do atoleiro.
Em estrada firme desliguei o motor e
saí para agradecer. Qual não foi minha surpresa quando, depois de conversarmos
um pouco e com a ajuda da claridade da lamparina, reconheci naquele "cirineu",
o mesmo homem que há um ano atrás, com sua família, emporcalhara e empestara
o meu carro numa simples carona.
Entendi que, diretamente pela
mãos de nossos semelhantes aqui nesta terra, ou indiretamente pelas mãos de
Deus na outra vida, tudo que fizermos aos outros, um dia tornará
a nós.
A
TEIMOSIA DE UM CURURU
Tudo começou quando resolvi criar
inhambus no quintal. As inhambus fazem parte da família Tinamidae. São
pássaros que vivem no chão pelas florestas, capoeiras e campos e que somam
menos de cinqüenta espécies, sendo mais de quarenta, brasileiras. Para quem é
caçador ou mero curioso, devo esclarecer que o pé-de-serra, a tona, a perdiz,
a codorna, a sururina, a chorona, o chororó, o chintã..., são membros dessa
família.
Pois bem, tentando criá-las em
cativeiro (porém com um pouco mais de espaço), operei-lhes uma das asas e
deixei-as pelo quintal. Num canto adequado coloquei uma vasilha de barro com água.
Não demorou para que eu encontrasse, todas as manhãs, dentro dela, um "recado"
promíscuo e fedorento.
Só na segunda semana preocupei-me
com o fato e resolvi vigiar a fim de descobrir o autor daquela brincadeira de
mau gosto. Ainda antes das vinte e duas horas fui dar a primeira verificada: lá
estava, todo escarranchado, no sossego dos justos ou folgados, um velho sapo
cururu. Para ser sincero só fui acreditar ser ele o autor daqueles "recados"
depois de constatações oculares. Com certeza eu não sabia, até então, que
os cururus... bem, "vá lá": cagavam tanto e tão grosso.
Com a calma de toda primeira vez,
delicadamente, tirei-o da água, fustigando-o carinhosamente com a ponta do pé.
Com boas maneiras — logo percebi — não iria convencer aquele velho sapo a
escolher outro lugar para suas necessidades fisiológicas. No dia seguinte, o "recado"
estava lá outra vez. Apanhei um saco plástico, protegi a mão da sensação
desagradável de tocar um animal frio e, tradicionalmente asqueroso, e levei-o
para a outra extremidade do quintal.
No outro dia, outra vez estava ele lá,
só com o "nariz" do lado de fora. Um pouco mais atrás... bem,
eu só queria saber por que tinha que ser dentro de minha tigela! Já ciente da
pouca simpatia que lhe devotava, ao perceber-me, ele pulou da vasilha e tentou
escapar. Peguei-o no segundo pulo e já sem a mesma paciência
de dias atrás, lancei-o por sobre o muro.
Uma semana depois, talvez se metendo
pelo buraco do esgoto de águas pluviais, o velho e teimoso cururu voltou. Numa
onomatopéia tácita trocamos alguns insultos. Demonstrando sensatez ele tentou
dar no pé, mas agarrei-o na terceira tentativa, apertando-o com raiva. Enfiei-o
dentro de um saco plástico e levei-o a uma poça d'água a mais de cem metros
de minha casa, atrás da Tocauto.
No mês seguinte, chegando o
inverno, depois de uma noite de chuvas e trovoadas, quando eu já nem mais me
lembrava dele, a surpresa: de pernas abertas como se estivesse cansado de uma
longa caminhada, dentro de minha tigela com a água que servia às inhambus,
estava o cururu. Um pouco mais magro e, pareceu-me, mais realizado, ele chegara.
Atrás dele, nenhum "recado". Quem sabe, teria ele aprendido
bons modos? Apesar da raiva não contive o riso e chamei meus familiares:
— É outro, seu bobo! —
pilheriaram eles tentando convencer-me.
A falta daquela inconfundível,
fedorenta e enorme cagada dentro da tigela era um álibi que deixaria confuso o
mais veemente acusador. No entanto, aqueles olhos semicerrados e cínicos não
se cansavam de lembrar-me de um velho e renitente sapo cururu que me causara
certo transtorno.
No outro dia, a prova incontestável
e definitiva: dentro da vasilha, mais grossa, preta e fedorenta que nunca, o
palpável sinal da desforra. Sapo nenhum do mundo conseguiria tal façanha. Era
ele.
Agarrei-o, enfiei-o dentro de uma
caixa, coloquei-o em cima da camioneta e dei ordens para deixá-lo na sede da
fazenda, lá no Pará, a duzentos quilômetros daqui. Segundo meus cálculos ele
só deverá retornar ali pelo ano dois mil, caso não lhe ocorra algum acidente
ao longo do penoso percurso. Diante de tanta teimosia e determinação,
sinceramente, não direi que foi trazido por alguém se o ver depois do ano dois
mil, dentro de minha tigela.
UM
PAVAROTI APAIXONADO
Começamos a nos incomodar com o
cricrilar persistente que vinha da varanda. Era tão estridente e ininterrupto que já
não se podia usar o silêncio como forma de concentração para qualquer exercício
mental. As crianças se trancavam dentro do quarto para estudar, pois qualquer
compartimento da casa que apresentasse ligação com o corredor estava
impregnado com aquele som alto, enjoativo e irritante. Poderíamos compará-lo a
um cantor de óperas executando uma destas chatas canções bregas.
Estava metido sob caixas, mudas de
abacaxi, pneus carecas, sacos velhos..., debaixo daqueles célebres amontoados
de sucata sempre presentes em toda residência que se preza, principalmente, de
italianos. Várias vezes tentei expulsá-lo de lá, revirando-lhe o esconderijo,
mas tudo o que consegui foi espirrar seguidamente diante daqueles terríveis alérgenos
revolvidos.
Ele quietava, escondia-se,
aguardava. Mal eu virava as costas e ele, a princípio educadamente e em seguida
à toda capacidade das cristas, mostrava sua dor
clamando por sua amada temperamental.
Nunca vi ortóptero com tégminas
mais estridulantes do que o grilo de minha varanda! Não foi à toa que Deus
premiou a espécie com os ouvidos na "canela"!
Seu canto parece agulha afiada a espetar nossos nervos,
sem pausa para recuperação. Ah, se os homens possuíssem a determinação
dos grilos!
O pesadelo durou duas semanas. As idéias
macabras, regadas a uma aplicação letal de inseticida já não cediam mais aos
princípios ecológicos de que se deve respeitar os rituais de amor de cada espécie,
ainda que seja de grilos. Debaixo dessa tensão, estacionei o carro na garagem
contígua ao esconderijo dele.
Ao dar a volta para entrar em casa,
vi, esgueirando-se pelo portão, a rogada fêmea que há duas semanas resistia
aos apelos do teimoso e arrebatado grilo. (Os grilos não enrouquecem porque não
usam a garganta para emitir os sons. E quanto as cristas das asas, nunca irei
entender porque Deus as fez mais resistentes que o diamante.)
Ao vê-la expondo-se, inconseqüentemente,
ergui o sapato para esmagá-la, mas ao perceber que o som exasperado não estava
sendo produzido por ela, contive-me envergonhado. Ela, vagarosamente (parecia
zangada ou, ao menos, mal-humorada), passou por mim e adentrou pelas mudas de
abacaxi. Eram duzentas mudas, o que justificou a esticada da seresta por mais
uma hora. Depois, silêncio sepulcral, entrecortado aqui e lá,
por cricrilarezinhos safados.
Mais
ou menos um mês depois, retirando uns pneus velhos do local, vi dezenas de
grilinhos saltitando de um lado para outro, na indizível satisfação de quem vê
o mundo pela primeira vez. Não pude me furtar à idéia de uma possível "denúncia
vazia", caso todo aquele coral resolvesse se instalar nas gretas da
garagem de minha casa. Apesar de poder eliminá-los facilmente, não pude vencer
o carinho que sempre se apossa de mim diante de criaturinhas ingênuas e
indefesas.Certa vez quase capotei o carro ao desviar de um calango que tomava
sol no asfalto.
Lembrei-me que os animais, pela
preservação da espécie, são muito mais persistentes e indomáveis que nós.
Não sei se a primeira "esposa" daquele grilo havia morrido ou
sido flagrada em passeio noturno por algum cururu traiçoeiro e faminto... não
sei! Mas o grilo sabia que dia menos dia uma fêmea passaria ao alcance de sua
voz enamorada e se aproximaria para atender à lei natural de que se deve, mesmo
a um grilo arrogante, entregar-se pela preservação da espécie.
A
ESTUDANTE
Como um passarinho ela acorda cedo.
Lá fora, o barulho dos madrugadores a desperta. A ânsia de viver não a deixa
permanecer na cama. Espinhas no rosto, vontade de comer chocolate branco, ciúmes
da Marisa que lhe dizem mais bonita e elegante. Pensamentos rápidos vêm e voam
de sua cabecinha cheia de planos.
Bolsa pesada nos ombros, tênis
surrados, calça jeans, blusa amarrada na cintura, um fitilho do Senhor
do Bonfim enlaçado no punho
esquerdo, lá vai ela pela rua, apressada como se o dia fosse curto para
saborear o direito de viver a juventude. Em cada esquina o jornaleiro grita:
"Mais dois assassinatos. A inflação sobe. Escândalo e corrupção no
Congresso..." Ela, porém, não quer saber de coisas tristes e
desalentadoras, de brasileiros ingratos e desonestos. Para ela o sol apenas
desponta, o casulo mal se abre: há um mundo muito grande e bonito para curtir.
Seu corpo está inquieto. Nos seus
olhos, o brilho da pureza, a graça plena de Deus. Não pensa nas coisas feias
dos adultos. Quer viver, correr pelos campos, andar pela cidade, conversar com a
Tânia, combinar um convescote, jogar vôlei na quadra da Escola Santa
Teresinha, acertar a turma para a tarefa de Português.
Suada, rosto rosado pelo sol forte,
encontra-se com amigos. Olha o Pedrinho de soslaio. Os hormônios já começam a
incomodá-la. De volta a casa, olha-se no espelho, força o nariz para cima,
encosta as orelhas para trás, sorri de perfil... Apesar de toda beleza com que
a juventude lhe agracia, acha-se feia, inveja a Marisa. Não gosta da cor de
seus cabelos; precisa de alguns quilos a mais.
Meneia a cabeça, lembra que o sol
está brilhando no firmamento, que os passarinhos estão voando livres, que as
borboletas, desengonçadamente, caminham resolutas para o oriente. Faz trejeitos
de riso: "as bobocas das borboletas pensam que um dia alcançarão o
sol!"
Dirige-se ao corredor. Esbarra com o
pai que chega apressado:
— E aí, velho, estou bonita?
O pai a olha: a criatura mais linda
para o seu olhar. Sensatamente responde:
— Por mais que eu tente, filha, não
consigo ver seu interior.
— Ah, pai!...
Sorri mais uma vez enquanto segue
aos pulinhos corredor afora. Olha para trás, sorri: dentes de nácar, fortes e
brancos como marfim. É o belo do despertar, da adolescência, do botão que se
abre. Dentro de seu coração, tantos sonhos, muitos planos, alegria sem fim,
gratidão e reconhecimento por ter nascido.
Volve os olhos: o céu está quase
todo azul, o vento sopra, algumas nuvens esparsas brincam pelo infinito. Como é
bonito o mundo — imagina.
E eu que a vejo agora, minha
querida estudante, com seus cabelos revoltos, tênis surrados, calça jeans
desbotada, blusa amarrada na cintura, mochila pesada nos ombros, coração cheio
de desejos e de esperanças, alma repleta de emoções, fico com medo que este
mundo mau também sorria de sua ingenuidade, quando você imagina — como as
tenras borboletas — que pode alcançar o objetivo de seus mais lindos sonhos.
O
RADIALISTA
Às vezes vivemos longo tempo ao
lado de uma pessoa e não a conhecemos inteiramente. Aquele que nunca toma um
porre, jamais se conhece plenamente — assegurou-me, certa vez, o Dr. Abrantes:
"As amarras da tradição, da religião, da formação e do interesse,
moldam-no de acordo com as exigências da sociedade em que vive".
Logo que somos gerados já recebemos
nossa sorte, nosso caráter, nossa personalidade. Depois vem o tempo e com ele a
certeza de que as inclinações com que nos agraciaram nem sempre são ajustadas
à convivência harmoniosa com nossos semelhantes. Então mudamos, fingimos,
prendemos, eliminamos por assim dizer, grande parte do código genético com o
fito de evitar problemas com a comunidade. A personalidade verdadeira,
normalmente, fica enclausurada a sete chaves e somente em ocasiões muito
especiais é apresentada à sociedade.
Há cerca de um ano, enquanto
trafegava pelas ruas da cidade de Imperatriz, liguei o rádio numa estação de
rádio AM. Acertei num programa musical. O apresentador, com voz firme e
contundente (?) falava do lindo sol daquela manhã, da beleza do verde que
emergira após as fortes chuvas e da alegria que representava estar ali vivo,
naquele momento e naquele lugar. Como estava a fim de notícias, fui, em vão,
mudando de estações, mas todas pareciam afinadas ao mesmo objetivo naquele horário.
Desliguei.
Algumas horas mais tarde, passando
pela rua onde estão instalados os estúdios da
emissora cujo apresentador eufórico demonstrava segurança e felicidade,
vi um rapaz sentado na calçada, cabisbaixo, o rosto enfiado entre os joelhos
numa posição desoladora. Chamava a atenção, um rapaz de seus vinte e poucos
anos, naquela posição, sentado numa calçada muito movimentada, em pleno dia
de sol. Estando o sinal fechado e tendo meu carro parado bem ao lado, pude
perceber que chorava. Logo que o sinal abriu, atravessei a rua, estacionei o
carro seguramente e voltei solidário:
— Amigo, problemas difíceis?
Ele ergueu lentamente a cabeça. Os
olhos estavam rasos, o desespero parecia palpável. Nunca havia, até então, me
deparado com um olhar tão suplicante e dependente. Depois de alguns segundos
ele se ergueu por inteiro:
— Foi nada não, amigo! Coisas da
vida.
Talvez mais por curiosidade do que
por qualquer outro sentimento, insisti:
— Velho, uma carga dividida,
sempre fica mais fácil de ser transportada. Vamos lá, desabafe!
— Esqueça! Certamente tem seus
problemas, tem sua carga como falou. Por que colocar nos ombros mais uma parte
da minha?
— É que nem sempre a tristeza é
fundamentada. Às vezes tornamos grandes, coisas insignificantes. Ainda há
pouco, estive ouvindo um radialista entusiasmado, falando da vida como se ela,
por si só, fosse motivo sobejo de alegria e esperanças. O mundo me parece
estranho: enquanto uns vivem cheios de otimismo e fé, outros se deixam vencer
pelos problemas e dificuldades da vida. Aquele radialista, pela manhã, melhorou
meu astral. É bonito saber que existe gente que não se entrega, que exorta,
que semeia a alegria. Foi um dó que não tenha ouvido aquele homem! Se
tivesse, como eu, tido a
sorte de sintonizá-lo, certamente não estaria tão angustiado.
O rapaz, magro e alto, olhos vermelhos,
esfregando o braço no rosto molhado por lágrimas incontidas, respirou fundo,
olhou-me demoradamente como se fosse
um sacerdote piedoso em seu ato sublime de absolvição e, num suspiro
exclamativo, arrematou:
—
Ah, amigo, eu sou o radialista que você ouviu hoje pela manhã!
A
JUSTIFICATIVA DO VELHO
Quando
se vai ficando velho, à maneira dos elefantes, vamos buscando as origens: o
lugar onde a gente nasceu, os velhos amigos, as antigas estradas...
Foi assim que há vinte dias atrás voltei ao meu Espírito Santo. Fui de
ônibus, pela Viação Açailândia de propriedade dos Irmãos Galetti: conterrâneos
e velhos amigos. Tudo em casa!...
Mesmo antes que o ônibus chegasse
à rodoviária, notei um homem (como se diz aqui no Maranhão) fogoió, que com
sua maleta surrada, andava de um lado para outro com ares de inquietação.
Pensei: é um passageiro do ônibus em que irei viajar. Sua fisionomia não me
era estranha, assim como a minha lhe fora familiar. Aproximamo-nos:
— Você é Fregona? —
inquiriu-me em riste.
Sem lá muita surpresa,
contra-ataquei:
— E você, Milhorelli, sou capaz
de jurar!
— Filho do Nilo — confirmou ele.
Moramos muitos anos no térreo do prédio de seu irmão Adalho.
Depois de se despirem
totalmente de qualquer privacidade, estavam ali, dois velhos amigos,
prontos a apagar do tempo, um intervalo de passado silencioso. Como nossas
cadeiras não coincidiam, ele foi acomodar-se lá para trás. Mal chegou ouvi
alguém que se apresentava a ele sem parcimônia, falando a todo pulmão:
— Então você é lá de
Linhares?!... Sei que fica perto de Colatina, mas nunca fui até lá. Tenho uma
filha que mora em Aracruz e minhas viagens limitam-se a esse lugar. Sou de
Xinguara, desquitado,... tenho lá um quiosque: vendo revistas, cachaça,
tira-gosto de paca, tatu, anta, veado, nambu ou qualquer outro bicho que consigo
surpreender lá pras bandas daquelas matas. Lá tudo é bicho e aquele que
pode mais, chora menos.
Foi dizendo essas coisas enquanto
pendurava, bem por cima de meu velho e, ao mesmo tempo, recente amigo, um bom
naco de carne moqueada de anta. Não demorou para que os solavancos do ônibus
fizessem com que alguma coisa da carne começasse a cair em cima da cabeça e
ombros do fogoió, meu amigo. Ainda antes de perceber que se tratava de bichos
de mosca-varejeira, ele reagiu:
—
Meu senhor, essa carne não poderá ficar aí. Está deixando cair (e aí
verificou o que caía)... droga, isso é bicho, bicho de varejeira!...
Meio sem graça, desculpando-se como
podia, o velho foi logo tratando de recolher seu naco estragado de carne de
anta. Sem perder tempo, tentou justificar-se:
— É que moro num lugar desgraçado
onde, quando o carro quebra no meio da viagem, a
gente quase morre de fome. Além do mais, na minha última
viagem, quando tentei almoçar numa pensão, quase morri de caganeira.
As pensões do interior não perdem nada. As sobras de uns são jogadas em outra
vasilha e devolvidas ao cliente seguinte: é um sarapatel danado.
Além do "jabá", não
esqueço também o papel higiênico e esta lanterna (exibiu-a a todos do ônibus)
— coisa de velho vivido nos matos. Como estava dizendo, na última vez que
comi numa pensão, não precisei mais que alguns quilômetros para suplicar ao
motorista que, incontinenti, parasse. Os carros do interior não têm privada na
traseira. Meio contragosto o motorista freou num lugar desgraçado e foi logo
avisando de que eu não poderia prejudicar os demais que estavam doidos para
chegar. Com a dor fina que me roia as tripas, achei a recomendação desnecessária.
O desabafo seria rápido. Desci às pressas.
A noite estava escura e o que se
passava comigo não me permitia que escolhesse lugar mais ou menos adequado. Saí
da margem e fui logo arreando as calças. Quanto mais saía (você entende, não
é?) mais a dorzinha infeliz amarfanhava-me as tripas. O motorista, cruelmente,
começou a buzinar. Fiquei em apuros. Ainda com cólicas terríveis comecei a
procurar alguma coisa para a higiene: em todo alcance, apenas torrões e terra
solta que um trator havia espalhado há pouco. Nem um graveto por misericórdia!
A buzina não parava; o murmúrio
desumano não cessava. Depois de correr e raspar as mãos pra tudo quanto era
lado, fui forçado a resolver meu problema com o que tinha disponível mesmo,
fazendo uma lambança maior do que se tivesse deixado a " coisa"
como estava. O barro misturado lambuzou tudo e fiquei em estado deplorável.
Barbaramente fizeram-me viajar até à próxima parada, na última cadeira,
enquanto o restante se amotinou ao redor do motorista. Nunca irei esquecer
aqueles diabos de cochichos que se fizeram intermitentes lá na frente:
"Isso
é que dá viajar com velho cagão e frouxo!..."
"Ao invés de se meter na estrada, devia estar numa rede e com a
caixa mortuária em dia!"... Naquele mesmo momento, amigo, fiz meu
juramento de que jamais viajaria sem meus próprios alimentos, sem uma lanterna
e um rolo de papel higiênico.
UMA
ONÇA DESMORALIZADA
Sempre digo que um porco e uma flor,
assim como o progresso e a natureza, jamais viverão harmoniosamente. Foi
baseando-me neste princípio que me indispus com as onças que viviam degustando
meus gordos bezerrinhos lá no Cajazeiras. É claro que elas estavam lá há
mais tempo que eu, assim como os índios aqui no Brasil, mas na luta direito
versus interesse, sempre
vencerá o segundo.
Armei espingardas e trabucos,
aratacas, contratei matilhas de onceiros... Esgotados os estúpidos,
ultrapassados e perigosos métodos, apelei para a razão, na certeza de que esse
privilégio me livraria das renitentes salteadoras.
Dalgas Frisch havia lançado no
mercado uma dúzia de fitas cassetes com piados de aves e vozes de animais amazônicos.
Na miscelânea ecológica havia vários esturros de canguçus. Segundo o
cientista, aqueles urros significavam domínio territorial e uma bela cantada às
fêmeas no cio. Qualquer concorrente intruso, portanto, seria logo rechaçado.
Concluí daí que poderia funcionar como desafio ou chama para atraí-las à
armadilha fatal.
Pedi a meu gerente que construísse,
em lugar estratégico, um mutá com cinco metros de altura e, numa noite bem
escura, acompanhado de meu irmão e sócio, fui para a grota sombria, armado até
os dentes. Meu equipamento de som e as armas de grosso calibre eram de causar
inveja a "metaleiros e Lampiões".
Curiangos pelas veredas, urutaus nos
aceiros e corujas nas moitas assombrosas, alimentavam nossa imaginação,
criando um cenário tétrico e fantasmagórico. Dois simplórios caçadores de
espera que nos acompanhavam, despediram-se sarcasticamente:
— Nois vai pra bem longe daqui
pruquê onde pintada esturra, paca e tatu não sai dos buraco e veado inté
trepa nas impuca. Falam por aí que elas quando vem pra briga derruba inté os
pau mais fraco.
O mano e eu nos entreolhamos num
misto de ceticismo e precaução. A cada insinuação dos caboclos eu verificava
minhas armas, e o mano, as munições. Enfim, nos instalamos no jirau e começamos
a reproduzir os esturros da saqueadora. Aquele som pavoroso, amplificado, feria,
não somente o silêncio sacrossanto da floresta, mas principalmente nossa
reputação de destemidos caçadores de onça.
Não havia um só fio de cabelo, por
mais anos que estivesse enroscado, que não se eriçava diante daquela escuridão
plena na qual chamávamos para perto de nós, uma ou todas as feras da floresta.
Uma coruja orelha-de-gato, sádica como bruxa de história infantil, parecia
incansável em sua onomatopéia horripilante. Era um "tu, tu, tu, tu, tu,
tuuuu" incansável e constante. Nosso estado de espírito, bem que
dispensava o sarcasmo daquela infeliz coruja!
De repente, no auge de nossa tensão,
um roçagar pelas folhas secas denunciou alguma
coisa que descia, sem muita cerimônia, a encosta da grota. Com pacas e tatus
nos buracos e veados trepados nos paus, só mesmo a onça poderia estar se
aproximando para tirar satisfação. Arrepiados, tomamos posição. Armamos
nossas escopetas, preparamos as lanternas e quando o barulho se fez sob nós,
clareamos ao mesmo tempo: um velho e, possivelmente, surdo tatu, fuçava
despreocupadamente as folhas secas do chão. O mano apagou a lanterna e lembrou:
— Bem que nosso pai sempre dizia:
"O papel aceita tudo". Referia-se ao que afirmara sobre as onças, o
ilustre cientista.
Mais um pouco e continuei a
reproduzir os esturros captados por Dalgas Frisch em pleno Inferno Verde. Nem
havia desligado o aparelho e novo ruído se fez ouvir, dessa feita, mais sutil e
sorrateiro.
— Agora é ela — cutucou-me com
mão trêmula, o mano. Não sei por que ele achou necessária aquela maldita
observação!
O sangue me subiu ao rosto, o coração
disparou. Pus a escopeta na posição, armei os dois cães e esperei o momento
oportuno. Quando embaixo, acendemos as lanternas ao mesmo tempo: agora, uma
paca, "uma paca véia", como dizem nossos caboclos, mariscava
tranqüilamente à cata das flores do pequizeiro que vigiávamos.
Defendemos o almoço do dia seguinte
e descemos do mutá decepcionados. Havíamos perdido tempo caçando a onça
mais desmoralizada da Amazônia, ou então, aquele tatu e aquela paca eram
surdos de nascença.
PESCANDO
E CAÇANDO
Falar de pesca e caça, mesmo aqui
no Portal da Amazônia, é algo que cheira a desrespeito ao decreto-lei nº 289
criado em fevereiro de 1967, objetivando proteger a nossa fauna. No entanto, se
entendermos que a contravenção tenha vindo
de italianos, haveremos de acreditar que, ao invés de o IBDF puni-los,
deveria incentivá-los a que todo ano viessem até aqui para caçar e pescar.
Estiveram
aqui há quinze dias. Primeiro foram ao Bico do Papagaio, lá no Centro dos
Mulatos. A primeira semana seria de pesca ao pirarucu — principalmente a essa
espécie. Debaixo de torós temporãos, muriçocas mil... eles passaram os sete
primeiros dias, sobrevivendo à custa de picanhas, lingüiça de porco,
muita polenta, alguns míseros
berés, oito grades de cerveja e vinte e um litros de cachaça trazidos por
eles. Depois desse tempo concluíram
que a lagoa do senhor Cícero não era diferente das poças d'água lá do sul
do Espírito Santo: "Só tinha berés".
Partiram então para a caçada.
Escolheram a Fazenda Cachoeirinha, perto de Dom Eliseu, no estado do Pará. Uma
das camionetas levava o pessoal, e a outra, a bagagem: entre ela, mais doze
grades de cerveja e mais vinte e dois litros de boa pinga, pois concluíram que
o racionamento da pescaria prejudicara bastante o bom desempenho deles.
Logo no primeiro dia, já com a
noite avançada, chega o mais velho do grupo, o senhor Ambrósio. Como todos,
nada tinha no picuá, mas vinha mancando, quase arrastando-se para chegar.
Sentou-se num tamborete de freijó, respirou fundo e desabafou:
— Mais Varda (todos eles
misturavam italiano com português, invejavelmente) dopo di tri ani questo
escarpe maladeto resolvest arrancar-me
las undchas e me tornar ei ded pien de calos.
Enquanto se preparava para retirar
os suplícios, o seu filho Edésio, muito esperto e observador, cutucou o
Tcheron e observou:
— Dê uma olhada nos pés dele!
O Tcheron olhou e encompridando os lábios
para facilitar o uivo, começou um cainhaim digno de um cão alvejado por
uma pelota certeira. Todos olharam ao mesmo tempo e não foi difícil constatar
que o segundo-tenente reformado do Exército Brasileiro, havia andado caçando o
dia todo com os sapatões trocados.
Durante os outros sete dias,
conseguiram apenas alvejar um mísero e abestalhado tatu que fuçava,
inocentemente, na beira de um igarapé. Mas mesmo a falta de peixes, e agora, de
bichos, não os preocupava. Quando vinha a noite, reuniam-se em torno da
comprida mesa feita com um pranchão de angelim-pedra e bebiam tanto que um
agregado da fazenda observou:
— Mas é água, é?!...
Retornaram ontem. Alegres, olhos
vermelhos, alguns quilinhos a mais, centenas de manchas pelo corpo levadas a
efeito pelos pernilongos e carrapatos, alguma maleita como lembrança
e célebres queimaduras ácidas de potós: nossa mais autêntica marca de
hospitalidade a ingênuos visitantes.
Levaram
daqui a melhor das impressões. Sorveram o espírito festivo dos maranhenses;
ficaram maravilhados diante do nosso forró; saíram menos revoltados com os políticos
ladrões de sua terra e prometeram voltar no próximo ano.
Caçadores
e pescadores desse quilate deveriam ser incentivados pelo IBDF a cometerem tais
contravenções, pois tanto os pirarucus como os bichos perseguidos por eles,
jamais serão mortos, ainda que por exímios pescadores e caçadores: estão
escorraçados até o ano 2.000.
TUDO
O QUE É BOM DURA POUCO
A Bahia e o Espírito Santo somam-se
aos estados em que ainda se encontram remanescentes
capões de Mata Atlântica. A Mata Atlântica, possivelmente, foi (nos tempos áureos
não tão distantes) uma das florestas brasileiras mais ricas em animais
silvestres. Isso ocasionou o aparecimento de milhares de caçadores, mormente
nos tempos em que se podia desfilar pelas cidades com uma Pipper a tiracolo, uma
respeitável matilha esganiçada e muitas pacas abatidas e dependuradas em fila
num reforçado varão. Como lembrança dessa época, ainda hoje guardo muitas
fotos de amigos, tios e pai.
Fauna rica, liberdade total, ausência
de toda e qualquer fiscalização..., eram ingredientes perfeitos para o
aparecimento de milhares de caçadores, principalmente, nas pequenas cidades
interioranas. Itamaraju, Teixeira de Freitas e Eunápolis na Bahia; Colatina,
Marilândia, Linhares e São Mateus no Espírito Santo, eram as detentoras do
maior contingente.
Quando mudei de Marilândia para
Linhares, fiquei conhecendo uns doze caçadores de paca: havia, entre nós,
certa afinidade, pois era eu na época, talvez o mais afoito
devastador de macucos da própria Reserva Biológica Sooretama do Barra
Seca, a quarenta quilômetros da cidade de Linhares. Mais tarde os tempos
mudaram: em 1970 o I.B.D.F. intensificou a vigilância. Fui pego por seus
agentes florestais, preso, processado e, felizmente, convencido (?) a desistir
de tão indigno esporte.
Os caçadores de paca de Linhares,
diante da fiscalização ostensiva, começaram a organizar expedições à
Bahia. A parte leste da Bahia é muito parecida com o nosso Pará: os órgãos
governamentais não se preocupam muito com o meio ambiente, principalmente com a
fauna e flora silvestres.
Como permaneciam sempre mais de
trinta dias por lá, logo a saudade da família se encarregou de lembrá-los que
não haviam feito nenhum voto de castidade. Já na segunda excursão, passaram
no "puteiro da cidade" ( era assim que lá denominavam a
zona do meretrício) e cada um escolheu uma parceira, rumando, sorrateiramente,
para a Bahia. Logo que chegaram à fazenda em que já haviam estado no ano
anterior, apressaram-se em avisar o capataz de que as mulheres que os
acompanhavam eram de programas.
A coisa funcionou melhor do que
esperavam. Caçavam pela manhã e depois passavam a tarde numa praia deserta em
bacanais. À noite bebiam e curtiam as "esposas", na mais completa
orgia. A experiência foi tão boa que, ao invés de uma excursão, passaram a
fazer duas por ano. O capataz que também era o mais normal dos homens, do
retraimento inicial, passou a vincular os favores: cedia a fazenda em troca de
namorada exclusiva. Não fizeram objeção: sempre levavam uma de
sobressalente.
Tanto estímulo e euforia dos cinqüentões
acabou por despertar a desconfiança das pacatas esposas que ficavam solitárias
por um mês inteiro, cuidando do lar. Afinal, não havia explicação
convincente para que, de uma hora para outra, seus maridos se tornassem tão
apaixonados por caçadas de paca. No comadre aqui, comadre ali, elas decidiram,
unanimemente, que três dias antes da próxima excursão, iriam fazer-lhes uma
memorável surpresa: oferecerem-se para acompanhá-los na estafante tarefa de
perseguir os roedores cuniculídeos.
Os caçadores (agora já mais de
quinze), depois do conluio de uma breve assembléia, decidiram a saída para o
semestre seguinte. Exatamente quando tudo estava pronto, cada mulher achegou-se
a seu marido e disse de sua pretensão. "Afinal, não é justo vocês
ficarem em jejum por quase um mês! Além do mais iremos cuidar da cozinha e das
roupas sujas."
Embora cada um argumentasse e
relutasse, as esposas foram peremptórias e acabaram por convencê-los — por
livre e espontânea pressão — a anuírem. Muito desconcertados, os intrépidos
caçadores rumaram para a Bahia. As mulheres que já andavam desconfiadas,
aumentaram suas suspeitas quando começaram a perceber os olhares
furtivos e os resmungos ininteligíveis dos maridos em dificuldades. Lado
e outro, diante do quadro irreversível, resolveram, depois de algum tempo,
demostrar calma e aguardar os acontecimentos. Fosse lá o que Deus estivesse
estabelecido... ou aprontado.
Quando chegaram à fazenda, já o
gerente acorreu solidário, abrindo a cancela. Trajava uma calça jeans
apertada, uma camisa de tergal listrada, botas e chapéu country: um
verdadeiro caubói. As mulheres se entreolharam desconfiadas: ele em nada se
parecia com o caboclo ingênuo e simplório desenhado pelos maridos; e o local
nada tinha de sertão abandonado onde as onças esturravam em toda noite de
luar.
Eufórico e ridiculamente
extrovertido, o capataz, depois de fechar novamente
a porteira, passou um olhar perscrutador de mulher em mulher e,
exatamente quando todos ainda espanejavam a roupa empoeirada, foi lacônico, enfático
e singularmente infeliz:
— "Desgraceira,
patrões, dessa veis oceis avacaiaro mermo: trouxero uma putada runha
demais!"
No outro dia estavam todos de volta
e, pelo menos enquanto morei por lá, nunca tive notícia de que os viciados caçadores
de paca tivessem voltado à Bahia. Alguns, embora esporadicamente, tentaram se
adaptar às caçadas de perdizes; outros, penduraram logo as espingardas no
fumeiro. Naquela altura do campeonato, caçar qualquer coisa com a esposa a
tiracolo, incansável no refrão "vamos lá, velho safado!", realmente não dava mais.
É!..., como diz o velho provérbio: "Tudo o que é bom, dura
pouco!"
BUNDA
DE VACA
Só mesmo convivendo com
pessoas que não tiveram possibilidade
de estudar, aquelas analfabetas e simplórias a quem nem ensinaram assinar o próprio nome é que podemos nos convencer, ainda
mais, de que as diferenças humanas são acentuadas, apenas, por causa da situação
financeira de alguns. A inteligência em si é inata, seria comum a todos os
seres humanos normais como graça
de Deus, não fosse a interferência egoísta e malévola do homem nas regras
preestabelecidas pelo Criador.
Se ligarmos a televisão num
programa humorístico apresentado por Jô Soares ou Chico Anísio, veremos o
quanto usam a cultura para estimular-nos o riso. Entretanto, embora com outro
jeito de se expressar, o matuto também consegue o mesmo efeito, ainda que
ferindo a gramática e suas regras.
Essa pureza autêntica surpreende-me.
Na semana que passou, estava eu numa
roda de peões, quando começou uma calorosa discussão em torno de quem era ou
não corno naquele exílio de quinzenas continuadas. Um dizia que punha a mão
no fogo pela esposa; o outro enumerava as qualidades da companheira como fiel e
dedicada..., enfim, todos tinham bons motivos para estar ali no trabalho, bem
despreocupados.
De repente, as atenções se
voltaram para o Valdenor, o Lindoiá do livro "OS HUMILDES",
lembram-se? O crioulo vesgo estava quieto num canto da mesa quando foi abordado
— podíamos dizer, acoado — pelos demais companheiros:
— E este excomungado deste nego aí
engurujado no canto? Nestas hora deve tá com a testa coçando! Diz que lá na
paioça dele os pé-de-pano se atropela.
Sem perder a fleuma britânica que
lhe é peculiar, o crioulo, protegido pelo estrabismo, virou o rosto para o
centro da mesa, e sem nos dar chance de a quem era dirigido o olhar, apresentou
a prova de sua imunidade:
— Eu tô tranqüilo! Minha muié tá
véia, impenada..., ninguém se interessa mais por aquele caco. Voceis é que
tem que se cuidá: muiés novas, sortas na rua, toda imperequetadas!... voceis
sim é que deve tá com a testa coçando.
O Baiano (também o mesmo de
"OS HUMILDES", aquele que certa vez entrou no quarto das cozinheiras
para enfrentar o fantasma que atirava seixos: entrou falando grosso e saiu
resmungando fino como rapariga amedrontada) tomando ares de interventor,
replicou num curto mas convincente aparte:
— É, meu cabra, muié é
como enxada: acaba a foia que capina mas fica o buraco do cabo. Tu sabe cuma é
que é.
— Tem jeito com voceis não —
desistiu o Lindoiá, voltando à sua antiga posição fleumática.
Depois, não contente com sua
primeira defesa, acrescentou:
— Explicá arguma coisa a
voceis é como chutá bunda de vaca: num dá em nada, só machuca os dedo da
gente.
"O
MIÓ DO BODE É A FUSSURA"
Lá vinha ele cansado, claudicando
do pé esquerdo (um estrepe de guaxima havia transpassado o sapatão e
ferido-lhe a sola do pé). A tarde já caíra e os demais companheiros
aguardavam o jantar sentados numa tosca mesa de angelim-pedra. Uns conversavam
sobre o trabalho, outros jogavam cartas, outros batiam dominó, enquanto um
grupinho de três agredia-se verbalmente em caloroso humor caboclo. Mal deram
pela chegada do Chico, investiram:
— Tá lá um péssimo investimento
do patrão: contratá um velho acabado, de andar chaco para trabalhá como
vaquero, só mesmo um fazendero doido. De gado este aí só entende mesmo de bebê
o leite.
— Sô Brando, trais de Imperatriz
pra mim três baxeros, uma torqueza, uma chave de bobi e uma pinhola. Tem animal
aí fora do brede e tu sabe como é, se não amançá a tempo depois não se dá
conta mais — foi logo se defendendo o trôpego caboclo.
— Corta essa, cintura de pacu, tu
é bananeira que já deu cacho, só serve pra substituí estrume nas estercage.
O Chico passou ao largo, e sem
perder a calma, assegurou laconicamente:
— Sai de meu pêlo, cambada!
Oceis sabe que o mió do bode é a fussura e que de quarqué manera, em vorta do
zóio só é bera.
— Fussura o que, mundiça, é
frissura que se fala. Nem cunversá ainda aprendeu. Fala buchada mesmo!
Eu já disse pro patrão que quando eu dissé que o jegue morreu, ele
pode vendê a cangaia. Contratá um homi como você é o mesmo que botá bracaiá
pra vigiá galinha.
— Se invez de me enchê o saco
oceis fosse trabaiá, ganhava mais. Agora
mesmo dou um tapa nas venta de um que até os neto vão nascê doido. Nesse negão,
nariz de chapoca, toda veis que lembrá do meu tapa vai cuspi sangue e ficá
tonto.
— Vigi do céu — retrucou um
outro que amolecia bacaba em banho-maria — se arguém perguntá se me viro por
aqui, diz que não; diz que eu tava descansando os macaco das pestana. Não
quero testemunhá este chafurdo.
E a discussão corriqueira, por ser
apenas mais uma entre as dezenas que ocorrem todos os dias,
não me chamou muito a atenção. "O mió do bode é a fussura",
porém, deixou-me curioso. Procurei o Chico depois do jantar e argüí-lhe a
respeito:
— É um ditado muito certo, meu
sinhô. Oceis vê aí na televisão rei casando com rainha, luxo que não deixa
nem as oreia de fora; cada carro que parece trole de Papai Noel..., mais no
fundo mesmo, eles não aproveita nada
mais que nois aqui do mato.
— E por que, não? —
perguntei-lhe.
— Ora, pru que, pru quê?!...
Pruquê o mió do bode é a fussura e de quarqué manera, em vorta do zóio, só
é bera, tanto das rainha como das sendera.
Ao lado, o jogo de pife-pafe
esquentava:
— Quá, quá, quá...fissofó
outra veis.
— Feis o fó uma ova. Vai tê que
catá a batida no monte porque cicuitô.
Fissofó, cicuitô..., que diabo de
palavras são estas? — interferi curioso.
— É que ele fez o fó, isto é,
bateu com as dez cartas. O outro reclama porque ele ameaçou apanhar o bagaço
para bater e ao notar que a carta não completava o jogo, foi e voltou com a mão.
A isto chamam de circuitar ou entrar em circuito danoso. Quando isto acontece, a
pessoa tem que buscar a batida no monte — explicou alguém mais esclarecido
que nos visitava com o fito de comprar uns tombadouros de maçarandubas e que
conhecia as tiradas do jogo.
E o crioulo que estava em dia de sorte, sem ouvidos para qualquer
interferência, continuava "fobando":
— Eta moleza! Ganhá dum pato
deste é mais mole que chupá tumô.
— Dexa de sê nojento, excumungado
dum nego!
— Óia quem tá querendo dá uma
de muricim: esse vesgo maldito! O que tu sabe mesmo, nego, é coiê arrois pros
otros.
A lembrança feriu o brio do
crioulo, proverbial por seus péssimos negócios em toda colheita de arroz.
Reagiu peremptório:
— Os braços são meu e trabaio
pra quem quero. Se tu qué sabê, nasci dentro de um quixó e nunca precisei
vendê beré seco pra matá a fome dos meus fio.
— Que nada, nego, tu é burro
mesmo! E tem mais, tu fica quieto se não vô contá pro patrão aquela do impréstimo
pra comprá o remédio da muié que tava doente e que tu usô pra...
Ao perceber que o companheiro iria
entregá-lo, o crioulo estrábico, quase centralizando os olhos, reagiu a tempo
de evitar:
— Ah!, não tá güentando pressão
não? Tá estorando o mangote, tá? Se fô pra alegá, também vô parti pro
alegamento. Pensa que não sei das suas fusacas não?
— Que diabo de alegamento é este,
que nunca ouvi falá?
— Nunca ouviu porque tu é mais
burro que eu. Mais se tu quisé sabê mesmo, fala arguma coisa do segredo que te
contei e vai aprendê rapi, rapi, mais uma pra melhorá seu falatório.
— Rapi, rapi!... É rápido que se
fala, mundiça!
Entre fusaca, rapi, alegamento e
tudo quanto constituía um linguajar paralelo ao nosso vernáculo, os caboclos
continuavam seus entretenimentos e suas saudáveis agressões verbais, que nunca
iam além das 21 horas, pois o cansaço de um dia de muito trabalho não lhes
permitia. Cada um, tão logo terminava o Jornal Nacional, ia se retirando para
sua rede e em menos de quinze minutos, as motosserras que haviam funcionado
durante um dia inteiro, pareciam acionadas outra vez, tal
a zueira dos roncados que ecoavam em cada canto do barraco de palha.
PARÁFRASE
A SEATHL
Em 1855 — conta-nos a história
— o então presidente norte americano Franklin Pierce resolveu adquirir as
terras da tribo Duwamish, no estado de Washington. Na carta, Franklin dizia de
sua amizade e benevolência para com os índios, ao que o cacique Seathl
respondeu:
Assegura-me de sua amizade e benevolência,
mas não precisa delas. Sei que, se por mal, a posse de minhas terras lhe será
assegurada por armas. Estranho apenas a pretensão de comprar coisas que nunca
irá possuir, como o céu, o calor da terra, as águas, o ar puro..., tudo
quanto existe como testemunho de gerações que se sucedem.
Para nós, a terra é uma dádiva de
Deus para todos. Ela é sagrada para o meu povo. Como pode, então, comprá-la?
Cada folha, todas as praias, a neblina nas florestas escuras, os insetos que
zumbem, os pássaros, os peixes e animais,
tudo enfim o que vive à nossa volta é, para nós, sagrado. Sem isso, estamos
certos, não viveremos também.
O homem branco não tem a terra como
irmã: vem, usa-a e depois vai embora, não se importando, sequer, com o túmulo
de seus pais e antepassados. Quer nossas terras para transformá-las em
pastarias e cidades, esquecendo-se que nós somos gente diferente, somos seres
que não vivem sem o desabrochar da primavera, sem o silêncio da noite, sem a
voz do corvo noturno ou o coaxar dos sapos no brejo.
Nossa música é o sussurro do
vento; nosso espelho, a água cristalina; nosso perfume, o aroma do pinho; nossa
ganância, a partilha; nossos anseios e pretensão, o sossego e a paz até o último
dia de nossa existência.
Como sou obrigado a aceitar sua
generosidade em pagar por uma coisa que não é minha, exijo apenas que respeite
os animais, porque são seres como nós. Não esqueça que isso é uma suprema
exigência para nosso negócio. Sem ela não precisará pagar nossas terras,
bastará apenas sepultar nossos guerreiros.
Entenda que o seu Deus é o mesmo
nosso e o de toda a humanidade. Ele ama a
terra e todos os bichos e plantas que nela pôs para viver. Desrespeitar a
natureza é desprezar o Criador.
Hoje nos destrói, mas amanhã,
possivelmente antes que nós, desaparecerá também, porque imagina viver sem os
bisões, as fontes, o ar puro, as florestas..., mas não conseguirá. Tudo o que
existe na natureza, além do homem, é necessário e fundamental à sua existência.
Gostaríamos de compreender os
planos do homem branco! Se soubéssemos quais esperanças transmitem a seus
filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem às suas
mentes, talvez pudéssemos entendê-los.
Os sonhos do homem branco são
ocultos para nós. E por serem ocultos, temos de escolher o nosso próprio
caminho. Se consentirmos, é para garantir as reservas que nos prometeu. Lá,
talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o
último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de
uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver
nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o
bater do coração de sua mãe. Se lhe vendermos a nossa terra, ama-a como nós
a amávamos. Proteja-a como nós a protegíamos.
Nunca esqueça como era a terra
quando dela tomou posse. E com toda a sua força, seu poder e coração,
conserve-a para seus filhos e ame-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa
sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus de vocês. Esta terra é querida por Ele.
Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.
Depois de traduzir com minhas palavras a
carta de Seathl, só me resta pedir a Deus tamanha sensibilidade e amor para com
as coisas da natureza.
GERAÇÃO
PRIVILEGIADA
Houve um tempo que minha ocupação
literária era apontar erros, criticar e viver angustiado por causa de tudo
quanto eu não conseguia entender. Hoje eu ainda não aceito as coisas erradas,
embora saiba-as humanas, mas pelo menos não perco horas de sono revoltado com
as injustiças sociais e com a corrupção geral do país.
Entendo que somos responsáveis pelo
nosso destino, felizes ou infelizes por nós mesmos. Se queremos Democracia; se
viver num país democrático é aceitar que a maioria escolha seu destino; se a
maioria entende que o que temos de melhor é isso que nos governa... por que
reclamar, espernear, não aceitar? Se a minoria derrotada não aceita, se
entende que foi erro crasso e engano triste as opções da maioria, porque
permite, passivamente, que tudo isso aconteça debaixo de seu nariz? Será mesmo
que a maioria está enganada, ou será que a revolta da minoria se fundamenta em
interesses particulares prejudicados?
Há dois tipos de reclamadores ou
revoltados: o primeiro é aquele que, de fato, percebe os conluios e se sente
impotente para impedi-los; o outro, mais comum, é aquele que por qualquer
motivo, ficou de fora do rateio político.
Até hoje, nunca assisti a movimento
ou eleição, cuja preocupação não fosse, única e exclusivamente, o poder.
Nenhum deles até esta data, primou pelo povo e pela nação. Os políticos que
responderam pelo governo há algumas décadas e os que atualmente respondem, têm
vida fácil e sem problemas, enquanto que as camadas pobres continuam na mesma
desgraça de mendigar emprego,
saúde, salário digno e educação.
A corrupção, as mordomias..., tudo de errado enfim, continua do mesmo jeito.
Aprendi a detestar reuniões de
planos, aquelas em que tanto se fala e nada se faz. Como sou mais um brasileiro
covarde que assiste aos desmandos e toda sorte de roubos sem ter a coragem de
empunhar um trabuco e partir para a luta, resolvi falar de flores, de pássaros,
da beleza do luar e da alegria de, apesar de tudo, estar vivendo numa geração
privilegiada.
Ontem, nossos ancestrais tinham a
natureza incólume, bela e majestosa, mas não conheciam o progresso que hoje
nos maravilha com seus efeitos e recursos quase divinos. Amanhã, nossos
sucessores poderão até ter o sol como energia de locomoção, mas não verão
mais tantas coisas bonitas que Deus criou para servir e deleitar aqueles que
foram criados à Sua imagem e semelhança.
Hoje, porém, temos ainda muito das
duas coisas. É-nos possível encontrar, algures, uma nascente cristalina, uma
sequóia ou mesmo um jacarandá, cachoeiras e canhões profundos, pássaros
livres e até gente pura, honesta e sem maldade.
No ar, aviões supersônicos cruzam
os céus; a televisão mostra um acoplamento espacial de naves; alguém diz alô
lá do outro lado do planeta e nós respondemos daqui, vendo-lhe a fisionomia
triste ou alegre. Choques de maravilhas que acontecem de um lado e de outro do
muro que encimamos, o muro da transição de mais duas importantes eras.
E nós ficamos atônitos, sem saber
se lutamos para adiar o que jamais poderá ser visto ou recuperado, ou se
mergulhamos de cabeça neste novo tempo de progresso e mistérios. De qualquer
forma, por força de circunstâncias irreversíveis, a natureza sucumbirá para
dar lugar ao progresso, pois, enquanto ela se enfraquece e se deteriora pelo
insensatez humana, ele se instala invitatório, oferecendo conforto e
maravilhas, novidades e surpresas, tão afeitas ao ser mais curioso da terra: o
homem.
O certo é que natureza e progresso
não convivem harmoniosamente: um ou outro terá de sucumbir. Há quem defenda a
possibilidade de se fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas no fundo, nem a
eles próprios se convencem. Criar um porco dentro de um jardim sem que este
seja destruído, todo mundo sabe, é algo impossível.
De minha parte, estou muito feliz
por estar aqui, vendo o sol nascer e sentindo ainda as pulsações de meu coração.
Vou vivendo enquanto puder, achando até graça pelo esforço inútil daqueles
que pensam que alguma coisa material foi feita para sempre. Tudo isso passará,
não só a natureza, mas também tudo o que nela vive e existe.
A terra passará, as galáxias
desaparecerão e outras coisas, outros mundos, outros seres surgirão, no rodízio
eterno dos mistérios. Quando todos entenderem isso, as noites serão mais bem
dormidas, os dias mais bem vividos, e até a ganância de tanta gente perderá
sua intensidade desmesurada.
Olhemos, agora, o pouco de natureza
que nos sobrou e maravilhemo-nos com o progresso estonteante que nos invade.
Afinal, somos pequenos deuses, feitos por um Deus maior e que... bem... é
melhor tentar entender: preocupa-Se com a gente e sabe até quantos fios de
cabelo tem a nossa cabeça — e que continue "sendo feita a Sua vontade,
assim na terra como nos céus". Afinal, se as coisas tivessem de ser
diferentes, certamente seriam, pois Deus, como onisciente, onipresente e
poderoso, não teria criado tudo isso se não Lhe conviesse que assim fosse.
O
UNIVERSO DE CADA UM
Diz lá um provérbio: "O que
seria do verde se todos gostassem do amarelo?" Este anexim encerra, podemos
assim dizer, o grande segredo para entendermos as pessoas e
sermos por elas compreendidos. Quem de nós ainda não se deparou com
pessoas que não aceitam, definitivamente, que outros pensem e ajam
diferentemente delas?
Deus, quando engendrou o nosso
mundo, pensou em tudo. Por incrível que pareça, em muito breve atingiremos o
patamar de seis bilhões de seres humanos e mesmo assim, ou mil vezes mais,
jamais haverá duas pessoas, física e mentalmente iguais.
Se atentássemos mais amiúde para
esse detalhe, possivelmente seríamos mais compreensivos para com aquelas
pessoas que vivem diferentemente de nós. Houve um tempo em que, como produto do
meio, também eu acreditava nas chamas do inferno para aqueles que não eram católicos;
aqueles que se suicidavam; aqueles que matavam... Nunca houve alguém que me
chamasse a atenção para o pequeno grande detalhe da "poção genética"
usada na criação de cada ser humano.
Os homens vivem tentando copiar as
coisas que Deus deixou. A partir do funcionamento de nosso organismo, engenharam
as máquinas; observando nosso cérebro, os computadores. E apesar de medíocres
aos olhos de Deus, os inventos modernos bem nos dão a idéia de perfeição com
que fomos criados, pois ainda que rudimentares e sofríveis, ficamos
maravilhados diante deles.
Vejam como os computadores são
programados e tentem realizar algum trabalho fora de seus programas. Não é por
outra razão que hoje, não só não condeno ninguém como ainda posso entendê-los
melhor. É extremamente difícil navegar em alto mar numa bacia de lavar os pés
e, simplesmente impossível, executar a mesma tarefa com um trem de
ferro. É que cada uma dessas coisas foi feita para outro tipo de utilização.
Apesar de não entender o
significado científico de genética e muito menos de suas variações, sei que
nossas inclinações, nossa vocação, nosso jeito ou não para determinadas
tarefas ou profissões, vem sem nossa escolha ou opção, embutido
misteriosamente no dia em que nos geraram. Ora, que reclamar da máquina
que foi construída para correr em cima de trilhos, se insistirmos que
voe?
Sei que há também algo mais em
nosso âmago (a força de vontade, por exemplo)
capaz de, ao menos, refrear as más opções genéticas de nossa criação,
mas que, também, em muito desobriga o portador de uma prestação de conta mais
rigorosa. O bom senso, a sensatez, a paciência..., funcionam como freio a um
carro criado para alta velocidade e que, nem sempre, trafega por rodovias compatíveis.
Já tantas vezes afirmei minha crença
nos sobressaltos do além, onde certamente nos surpreenderemos com capetas no céu
e santos no inferno. Por mais que tentemos, jamais será possível um julgamento
justo a nossos semelhantes. As razões que levam determinadas pessoas a cometer
crimes ou atos de bravura, só Deus as conhece e pode julgar.
Somos um universo singular, mais
complexo e inexplicável que as longínquas galáxias do infinito. Ninguém,
aqui neste mundo, tem condição de julgar seu semelhante. Se o fizer,
certamente será réu de mau juízo. Temos por obrigação reconhecer
isto, aceitando o nosso irmão como ele é, na certeza de que, também nós,
somos vistos por ele sob o mesmo prisma com que o enxergamos.
Saber
ou descobrir o autor de um crime ou de qualquer outro malfeito, é
bastante possível; difícil mesmo é absorver e aceitar as razões que o
levaram a tal desvario.
PARA
SER O MELHOR
Quando lemos a vida de Rui Barbosa,
Machado de Assis... Quando vemos pela televisão as jogadas criativas e incríveis
levadas a efeito por Pelé, Garrincha... Quando nos falam da vida de Chico Xavier,
da irmã Dulce, de Antônio F. Lisboa... Quando, depois de tanto tempo ainda se
derramam lágrimas pela morte do maior piloto de Fórmula 1 que o mundo já
conheceu... Quando ficamos orgulhosos por nossas celebridades maiores,
imaginamos que foi a graça de Deus que os fez sobrepujar outros tantos
competidores.
Também acredito que sem a anuência
de Deus, sem Seu veredicto proclamado nos céus no dia da geração da vida,
nenhuma criatura chegaria a se destacar entre os milhões de concorrentes que
existem em cada ramificação dos esportes, da cultura, da música, dos
inventos, das artes e de tudo quanto o homem se digne realizar.
No entanto, jamais (e se apontarem
um, é falso) houve um maior, um melhor, pela simples graça de Deus. Não é
que Deus seja incapaz de fazer de um preguiçoso, um campeão. A verdade é que,
embutida no contrato, vem a cláusula que exige a nossa força de vontade, a
nossa coragem e a nossa determinação, tão necessárias quanto a graça de
Deus. Como testemunhas temos grandes homens que desempenharam missões que
embasbacaram o mundo, e que foram escolhidos entre
pessoas simples, humildes e até deficientes.
Ninguém nasce sabendo tudo. É
muito abrangente o provérbio que diz que o espinho nasce com a ponta. Deus dá
a inteligência, mas não o conhecimento; dá a ginga, mas não os passos; dá
os músculos sadios, mas não a velocidade e a força; dá o raciocínio rápido,
mas não resolve os problemas; dá o caniço, mas não o peixe; dá a vocação,
o tino, o dom, a perspicácia: dá o diamante bruto, mas não o burila para que
brilhe por si.
É indispensável nosso
consentimento e participação a cada minuto de nossas vidas, para que o dom de
Deus atinja sua plenitude e o homem venha a ser o melhor em sua atividade. Isto
custa muito esforço, horas de sono, anos de dedicação, abstinências,
mortificações, estudos, disciplina, enfim, uma série completa de virtudes, tão
custosas quanto a glória a que equivale: a de ser o melhor naquilo que faz,
entre mil, milhões ou até bilhões de concorrentes — se enquadrarmos o homem
no contexto mundial.
Durante os meus "muitos poucos
anos", conheci milhares de pessoas, tanto nos esportes como nas artes e no
trabalho. Vi, no futebol, muitos Pelés serem Zés Pretinho; muitos Ruis Barbosa
gritando pelas ruas: "Olha o jornal!"...; muitos Robertos Carlos,
fazendo serestas, embriagados pelas ruelas escuras de minha vila; muitos grandes
homens relegados ao anonimato por causa da pusilanimidade.
Eu notava neles a grande facilidade
de tocar na bola, de dar o drible; de escreverem um lauda inteira e bem escrita,
sem erguer a caneta do papel; de cantarem músicas de improviso, quase sem tropeço
algum. Era fácil perceber que haviam nascido (cada um, respectivamente) com o
dom para jogar futebol, ser escritor ou um exímio cantor. A graça de Deus era
quase palpável, mas o desleixo, a preguiça, a falta de coragem e de força de
vontade, transformaram-nos em mortais comuns.
Em rodas de amigos, hoje, depois de
tantos anos, lembramos deles com pesar, pois seriam grandes e imortais homens,
orgulho da terra, não fosse a cachaça, as drogas, a vida airada e o pouco caso
para com a graça de Deus.
Quem tem algum conhecimento da história,
percebe que, quando está escrito nos fastos do Eterno, só nossa preguiça pode
impedir que a graça de Deus realize em nós, maravilhas. Por isso a Irmã
Dulce, talvez a mais pobre e debilitada das baianas, propiciou mais bem-estar e
conforto aos pobres e necessitados de Salvador, do que muitos milionários do
mundo inteiro. Ela recebeu a semente, plantou-a, irrigou-a, cuidou dela e colheu
seus frutos.
Qualquer um, quando tem vocação,
pode se destacar. Não é preciso ser rico, ter patrocinadores..., é necessário
apenas querer e lutar. Não é por menos que temos grandes pintores sem os braços;
grandes altruístas, extremamente doentes e pobres; grandes campeões vindos dos
guetos e das favelas; grandes alpinistas, totalmente cegos; grandes homens em
todo o mundo, passado e presente, que nos estontearam e estonteiam pela
capacidade incrível de superar todas as dificuldades. O homem pode falhar
com Deus mas Ele jamais com os
homens.
Gostaria muito que os adolescentes lessem e
acreditassem nisso. Há entre eles, certamente, muitos Shakespeares, Einsteins,
Freuds, Moisés, Spencers, Cíceros, Platões, Demóstenes, Da Vincis, Zicos,
Ayrtons Senna, em suma, grandes cientistas, atletas, inventores, sábios,
cirurgiões, artistas, atores..., anônimos portadores de dons presenteados por
Deus e que vivem despercebidos entre nós por causa do medo de enfrentar as
adversidades.
Não
duvidem: quem quer uma coisa possível e honesta, e luta por ela, consegue.
Quando se almeja algo assim, temos o aval de Deus, e com Ele, sem restrições,
se fizermos a nossa parte, as coisas acontecem.
AS
RENEGADAS
Ali na rua Pernambuco, entre o
aparecimento temeroso do sol e a lama de março provocada
pelas chuvas de nosso inverno, uma senhora famélica, tendo nos braços
uma criança de seus dois anos, pedia um prato de comida. A dona da casa
entreabriu a porta, conversou com a maltrapilha, voltando em seguida para a
cozinha. Pela fresta deixada via-se um aparelho de televisão ligado num dos
noticiários do meio-dia:
"Pelo oitavo dia consecutivo não
há quorum no Congresso. Milhões são pagos a parlamentares que não
comparecem..."
A mãe, cansada, põe a criança no
chão. A menina logo começa a esfregar o naco de pão seco na calçada para em
seguida levá-lo à boca.
"Novo escândalo na Previdência:
milhões de dólares são desviados enquanto os doentes morrem por falta de
assistência..."
A mãe, recostada no muro quente e
úmido, estende a mão a um transeunte. O noticiário continua:
"Deputados legislam em causa própria
e aprovam salários exorbitantes, enquanto se nega ao trabalhador a recuperação
das perdas salariais..."
Um vendedor de frutas passa, olha a
miséria que cerca aquela mulher e aquela criança, compadece-se, despenca duas
bananas e as oferece. A mulher, olhar sem brilho, olhar de filha abandonada por
sua própria mãe, apanha as frutas. Descasca uma e divide com a filha que
continua a esfregar o pão no chão imundo e a metê-lo na boca.
"A Justiça, última instância
de esperança para coibir a corrupção desenfreada, alia-se ao poder deixando o
povo humilde totalmente órfão..."
Mãe e filha continuam ali na calçada,
esperando que a mulher caridosa retorne com o prato de comida.
"A comissão parlamentar impede
o andamento do processo porque há filhos dos mesmos envolvidos na acusação..."
A mulher caridosa não vem. Ela
descasca a outra banana, torna a dividir com a filha e permanece paciente. Não
há pressa além da fome, não tem onde chegar. O noticiário continua, agora,
com os últimos acontecimentos locais, notícias da cidade que a viu nascer, que
já lhe deu emprego, que já a fez feliz um dia.
"Um delegado da Polícia
Federal apresenta provas de corrupção e desvios de verba na Prefeitura. Milhões
foram roubados e usados em causa própria enquanto a população morre de fome e
a cidade se acaba..."
Mesmo em sua santa ingenuidade, a
maltrapilha imagina estarem falando dela. Mas o que falavam? Era coisa boa ou
ruim?
"Embora seja inacreditável,
aqueles que sempre acusaram o ex-prefeito de pistoleiro e ladrão, agora, em
busca de votos, aliam-se a ele e sufocam os movimentos em prol da moralização
e da ética. Misteriosa ordem judicial impede que as contas dele sejam
verificadas..."
Passa um velhinho bem arrumado,
olhar bondoso. Ela arrisca pedir. Ele pára, mete a mão no bolso e lhe passa
algumas moedas. Ela toma coragem:
— Que horas são?
— Duas da tarde — respondeu o
homem.
Ela olhou para dentro da casa: ninguém,
nenhum movimento. Agachou-se, tomou a filha nos braços mirrados, olhou para um
lado, para outro, atravessou a rua e foi seguindo para qualquer lugar.
Às quinze horas, a mulher bondosa
lembrou-se das maltrapilhas e veio com o prato de comida. No lugar, apenas, duas
cascas de banana.
Aquela mulher e aquela criança
nunca irão entender porque a PÁTRIA MÃE faz tanta diferença entre seus próprios
filhos. Não entenderão nunca porque há gente que precisa se vestir de seda e
outros andarem nus; porque uns precisam de bons colégios e outros não têm o
direito de estudar; porque uns moram em palácios e outros são enxotados das
marquises; porque alguns se estabelecem o salário e as imunidades e outros não
têm o direito, sequer, de reclamar: NÃO SABERÃO JAMAIS QUE NASCERAM NUM
PAÍS CUJAS LEIS NÃO PASSAM, PARA ELAS, DE LIXO DA PIOR ESPÉCIE.
O
SONHO DE UMA CRIANÇA
Quando abri a porta não poderia
imaginar, senão, que mais uma vítima do descaso social estivesse ali, pedindo
a caridade de trapos ou comida. Não era.
Uma criatura de seus quatorze anos,
uma criança, mocinha talvez, pobre e esquálida, queria falar-me. Do lado de
fora do muro, mais três coleguinhas esperavam. Pedi que as chamasse. Um tanto
envergonhadas elas se negaram, alegando que a que estava comigo diria tudo.
— Sente-se — disse-lhe com a
maior afabilidade possível.
Ela obedeceu. Apesar de pobre e
humilde, era bonita, era criança. Há, como nos botões das roseiras, uma
beleza indefinível nas crianças. Para mim, todas as crianças do mundo são
bonitas. A falta de maldade premeditada, a força da vida e o brilho dos olhos não
me permitem vê-las de outra maneira.
— O que deseja, ou o que desejam,
afinal?
— Elas só vieram me fazer
companhia. Não se lembra mais de nós? Já estivemos aqui antes.
Lembrei-me, então, que certa vez as
havia flagrado revolvendo lixo e recolhendo pedaços de velhos brinquedos, atrás
do muro de minha casa.
— Lembro-me agora — respondi com
um aperto no peito, como se meu coração tivesse recebido a contragosto, aquele
estímulo de curto passado. Nós não
gostamos quando somos chamados à atenção pelos descasos que praticamos:
preferimos, antes, tentar esquecer o mais rápido possível. Deus, porém, é
incansável em nos alertar, mostrando em cada dia, em cada esquina, em cada
favela, o quanto há de sofrimento e o quanto poderíamos diminuí-lo.
— Estou precisando de sua ajuda.
— E acha que posso ajudá-la?
— Acho sim. O senhor só pode.
— Então, diga.
— Estou com vergonha. Mal conheço
o senhor e já venho pedir favor.
— Eu vou entender — respondi,
com a intenção de forçá-la a dizer logo o que pretendia.
Percebendo que, possivelmente, eu
estivesse procurando me esquivar, ela gaguejou logo:
— Sabe..., bem..., eu estou
precisando de dinheiro. É pouco, não é muito não. Comprei um objeto a prestação...,
bem, na época eu estava empregada e achei que podia pagar.
— Agora está, pelo que me parece,
desempregada.
— É isso. O patrão me mandou
embora.
Sentindo que estava mentindo, mas
vendo nela uma criança com sonhos do tamanho de sua ingenuidade, tentei ajudar:
— De quanto precisa?
— Trinta reais.
— E ganhava isto por mês?
— Não. Fui para lá sem combinar
nada. No fim do mês ele só me pagou dez reais. Quando disse que era pouco, ele
insinuou que só havia um jeito de aumentar meu salário.
— Entendo, entendo — entrecortei
a conversa, percebendo que, mesmo sendo ainda uma criança, o germe da malícia
já a havia infectado. Por isto, fui conciso mais uma vez:
— E você aceitou?
— Não, mas agora estou
arrependida. Meu pai irá esfolar-me se o cobrador for lá em casa.
Conversamos ainda um bom bocado de
tempo, quando já não sabendo como continuar com a mentira, ela abriu o jogo:
— Nunca trabalhei e nem devo nada
a ninguém. É que vai haver uma festa lá no meu bairro e fui escolhida para
rainha. Só que a melhor roupa que tenho é esta e mesmo assim, não serve. Oh,
meu Deus, eu queria tanto participar! É um sonho! O senhor
já teve sonhos?
— Muitos!...
— Pois é, é um sonho.
Olhei-a bem: uma criança, uma
adolescente, sonhando com um vestido rendado e sendo a rainha de seu bairro.
Sonho de criança pobre — o sonho, talvez, mais importante de sua vida. Eu
ainda estava absorvido por esses pensamentos, quando ela, talvez imaginando-me
indeciso, tentou encorajar-me:
— Eu faço qualquer coisa para lhe
pagar. Pode pedir que eu faço, juro.
— Por favor, não diga mais nada.
Reze apenas para que Deus, sempre que lhe permitir sonhar, a enderece bem.
— Não entendi.
— Eu sei, mas Deus, com certeza,
fará você entender um dia.
Quando fecharam o portão,
curiosamente, olhei por cima do muro. Vi pequenas saias esvoaçando. A
felicidade parecia ser tocável naquela menina. E então, voltei pensativo para
debaixo das mangueiras, imaginando que, até mesmo o dinheiro, essa coisa suja
que faz matar, roubar, espezinhar, empedernir corações, que é a causa
principal de toda desgraça que assola o mundo, pode, também, fazer a
felicidade de uma criança.
DUPLO
ASSASSINATO
Paráfrase
ao diário de uma criança.
Na rústica sala de aula, quarenta
pares de olhinhos me fitavam curiosos. Eu devia participar de um debate sobre um
dos meus livros. Embora raramente, alguns colégios solicitam isto quando lanço
alguma obra.
Entre as estudantes, chamou-me a
atenção uma adolescente gorduchinha, quieta e triste em seu canto. A angústia
que emanava de seu olhar perdido e distante, parecia palpável. Ela era alguém
que olhava sem enxergar; alguém que retinha para si, o mistério de estar morta
em vida. Quando o debate terminou, esgueirando-se assustada, ela veio correndo
até meu carro que já saía.
— O senhor se importaria de ler
meu diário?
Embora surpreso, tentei ser o mais
natural possível:
— Posso fazê-lo com muito prazer,
se é o que deseja.
Era um velho caderno sem capa,
iniciado em agosto de 1988. Em cada página havia uma confissão de angústia,
de dor e de tristeza.
"Resolvi escrever este caderno
porque não tenho amigos... Meus momentos são uma eternidade escura... A solidão
de nove meses no ventre de minha mãe ainda continua comigo... Ah, se eu pudesse
ser sempre uma criança!... Pai, por que deixou que lhe matassem? Um dia, estou
certa, encontrarei o senhor outra vez e juntos riremos de minha solidão... A
tristeza invade-me de repente... É complicado, eu não consigo entender... Meus
olhos ainda têm brilho, mas é um brilho medroso, reflexo de minha angústia...
Sou, nesse circo da vida, um palhaço sem graça: sou a tristeza mais triste que
existe... Minha solidão, nem um mundo de gente afasta... Meu Deus!, minha única
esperança!..."
E por fim:
"Um dia conheci uma criança.
Era linda, gorducha, cheia de vida. Tinha pai e mãe e os amava. Tudo era lindo.
Um simples gesto, um simples toque a encantava e fazia sorrir. Não conhecia a
dor, nem a tristeza, nem a amargura. Tudo era uma linda e real fantasia. A criança
tinha nove anos e só conhecia a pureza, o amor e a amizade verdadeira.
Dois
anos depois seu mundo de sonhos se desmoronou: uma tragédia se abateu sobre sua
cabecinha infantil e sonhadora, incapaz de entender a crueldade humana. Alguém
sem alma, de maneira brutal, matou o homem que ela mais amava: seu pai. Aquele
homem era seu mundo de fantasias, sua felicidade, seu herói. Ele a havia gerado
e durante onze anos lhe dado carinho, proteção e amor. Como foram curtos
aqueles anos! Quanta coisa para dizer, quantos abraços
a serem trocados, quantos beijinhos nas bochechas ainda poderia ter
recebido!...
Se alguém selvagem e desumano não
tivesse apertado o gatilho, ela hoje não conheceria a dor, a fome, a tristeza
de uma lágrima, o sofrimento da solidão. E aquela criança que fora doce e
meiga, cheia de sonhos e de felicidade, naquele exato momento do disparo, embora
longe, fora atingida em cheio, morrendo também.
O tempo passou, a vida continuou pra
muitos. Aquela criança, de um momento para outro se viu obrigada a trocar a
pureza de seus sonhos, pela malícia da sobrevivência. Sua infância ficou no
passado. A fome, o frio e a angústia tornaram-se seus companheiros de infortúnio.
Depois que lhe destruíram os sonhos ela se fechou em seu próprio mundo de dor.
Tenho muita pena dessa criança que assassinaram tão cedo, mesmo porque esta
criança sou eu."
Sinceramente, fosse eu um
assassino, pensaria muito, antes de apertar o gatilho contra
o pai de uma criança!
ÁGUAS
PASSADAS
Hoje estou com saudade, muita
saudade de meus idos de criança. Agora percebo, como cantou Ataulfo Alves, que
eu era feliz e não sabia. Tempo que nunca mais terei de volta!
Quantos adultos hoje não passam
horas perscrutando o céu — olhando sem ver nada — só revivendo uma
retrospectiva em que foi feliz! Não há — hoje entendo — felicidade
completa sem pureza e simplicidade. Acho que é por isso que só a encontramos
em Deus, no sossego de nossa consciência.
A gente passava seis dias da semana
sonhando com o domingo. Nele sempre estava previsto algum lazer sem maldade. É
exatamente aquela pureza que havia que hoje me dá saudades. Toda preocupação
era com a bola de borracha, varas de pescar, câmaras infláveis e,
principalmente, com a comida, que generalizávamos de farofão.
Lotávamos um velho Chevrolet e saíamos
para um canto qualquer do município, ora para o futebol, ora para um convescote
à beira de um rio ou riacho, ora para uma pescaria ou caçada, e todos — hoje
posso afirmar — só pensavam em se divertir. Agora, o mundo em que vivo
evoluiu muito, mas temo que para pior. A maioria anda apressada, parece afoita
na idéia fixa de posses sem limites. Daí aos descaminhos que geram todo tipo
de injustiça social e de impudicícia, é um pulo.
Ah, aqueles tempos!... Que saudade
deles! Saudade do Capirda, do Neno, da Zenaide, do Nego... O Nego!... Foi a
amizade mais pura e duradoura de meus tempos de criança. Dócil, servil,
amigo... Onde estará neste momento? Cresceu, casou-se, venceu na vida, ainda
vive? Para ser sincero, enquanto os cientistas perdem o tempo organizando teses
para explicar o aparecimento do universo, eu o perco imaginando por aonde andam
os meus amiguinhos de infância.
E o Pão-tatu? É..., desse não
guardo boas recordações! Era o pesadelo de nossa terceira-série. Quantas
vezes ouriçou meus cabelos empastados de gomex, uma brilhantina que depois
apelidaram, acredito, de laquê. O
diabo é que uma vez encrespados, ninguém ajeitava mais. Eu ficava parecendo um
autêntico anu-branco. Com o Pão-tatu aprendi que ódio não mata ninguém.
O certo é que naquele tempo a gente
era feliz e encontrava prazer mesmo fora do sexo. Em cima de uma carroceria de
um velho caminhão a moçada cantava, ria, brincava... A vila era pequena mas
dava para ser feliz. Ah, como dava!...
O meu torrãozinho natal não
passava de dezoito alqueires de terra, mas se felicidade possuísse fórmula, eu
diria que era feita de um galo carijó de nome Sabuco; de um gato pedrês
chamado Romeu; de uma gaiola de imbaúba com um gaturamo-da-serra dentro; de um
cavalo-de-pau feito com haste de assa-peixe; de uma "seta"
(estilingue) com gancho de jataí; de bolinhas-de-gude coloridas e de uma bola
de tênis, presenteada como de borracha: na época nem sabíamos o que era tênis.
Para sentir esta graça é preciso não saber
o que é vaidade, ter o nariz pelado de muito sol, usar calças com suspensórios,
levar a tiracolo um embornal de pelotas de "batinga", rezar
ave-marias apressadas e xingar, xingar muito quando o dedo sem unha esbarrar num
calhau ressequido. É,
para ser feliz, de fato, é preciso ser criança. Que saudade!...
O
ESPELHO E A FLOR
Quando o dia amanheceu, a flor havia
desabrochado. Um dia antes era um botão enroscado em si mesmo, sem
expressividade alguma. Um chuvisco intermitente acumulara
pequenas gotas cristalinas em suas pétalas. As gotículas, como se
fossem crianças travessas, agarravam-se em suas bordas, e ao receberem a incidência
amena do sol da manhã, refratavam estrelas miúdas que caíam como lágrimas de
fogos de artifício.
Aproximei-me maravilhado: jamais me
acostumarei com a beleza das flores! Em cada uma que admiro vejo algo diferente,
como se os céus, fazendo das roseiras seu correio, estivessem nos enviando
sortidos e policromáticos cartões de felicidade.
Agachei-me. Puxa!, era bonita e
perfeita demais! Teriam: Da Vinci, Botticelli, Michelangelo, Portinari...,
absorvido a técnica de reproduzir, fielmente, uma flor? Teriam conseguido, na
química daquele tempo, um jogo de cores que a elas se assemelhasse?
Uma abelha que passava não se
furtou à tentação: pousou sobre ela desfilando como se fosse uma rainha; a
borboleta amarela sobrevoou, esperando pacientemente por sua vez. Depois, também
pousou, tateou-a apaixonadamente, abanando-a com suas asas singelas. Quantas
flores estariam desabrochando naquela manhã sem que a sensibilidade humana
percebesse! E Deus, por meio de sua obra prima, a natureza, continua utilizando
desses subterfúgios sutis para dizer que nos ama acima de todas as outras
coisas que criou.
Ao sair daquele êxtase quase místico,
já sentia as pernas dormentes por causa da posição de cócoras em que me
encontrava. Afastei-me cautelosamente a fim de não atrapalhar o prazer da
borboleta amarela que passeava com suas minúsculas antenas clavadas por sobre
as folhas modificadas e coloridas.
Quando voltei do trabalho, já era
noite. No outro dia saí cedo pela porta da sala e também não fui ver a flor
que parecia ter vindo para dizer-me alguma coisa. Ao meio-dia quando retornei
para almoçar, lembrei-me dela. Já não era manhã, já não havia aquela garoa
de boas-vindas para ela que nascera. O sol queimava, ardia, fazia ondas de calor
em tudo que se olhasse. Mesmo assim fui visitá-la, sempre com aquela imagem
bonita que me ficara do dia anterior: imagem alegre e fresca de tudo logo que
nasce.
Que decepção!... Pétalas caídas,
folhas sem frescor, murchas, envelhecidas... envelhecidas sim, porque até os
segundos podem, às vezes, ser eternos. Olhei-a penalizado. Nem a abelha, nem a
borboleta..., nem um besouro desastrado assistia à sua desdita. Gostaria de
refazê-la, torná-la bela e perfumada outra vez, mas fui obrigado a afastar-me
frustrado por causa de minha impotência diante do irreversível.
Ao chegar em casa, o almoço estava
sendo servido. Fui ao banheiro lavar as mãos. Na frente, um grande espelho.
Ali, durante tantos anos, aquele espelho estivera em minha frente, mostrando meu
declínio, avisando-me que o calor abrasante dos infortúnios estavam me
destruindo e que eu devia atentar para o fato. No entanto, eu insistia em não
querer observar.
Aproximei
bem meu rosto e percebi que a manhã orvalhada havia passado e que o sol do
tempo jogara por terra grande parte do frescor de minha existência. Percebi que
também nós somos como os cartões de felicidade que os anjos nos enviam através
das roseiras: enroscamo-nos como os botões,
no feto; desabrochamos no parto; murchamos com os sofrimentos e
desaparecemos queimados pelo sol impiedoso do tempo.
VENDO
ESTRELAS
Era uma vez um homem que gostava da
natureza. Embora morasse numa cidade do Maranhão,
sempre quando tinha oportunidade, deslocava-se para sua modesta fazenda
no estado do Pará. Todas as noites ele saía para o terreiro e ficava escutando
os sons noturnos e olhando o infinito estrelejado. Lá, como costumava dizer,
era possível ouvir o barulho do próprio silêncio. Miríades de estrelas
pontilhavam sua galáxia: planetas, estrelas, satélites, meteoros errantes...
O céu, por causa das chuvas
rigorosas do inverno que apenas se
fora, parecia-lhe lavado e enxaguado, tal a nitidez cintilante do firmamento. Até
o Caminho de Santiago mostrava, a olho nu, suas sinuosidades luminosas.
Por hora inteira aquela imensidão e
aquele silêncio entranhavam nele, questionando a razão de sua estada ali,
naquele lugar e naquele momento. Quando estes pensamentos lhe assediavam, ele
recostava a cabeça no tronco da ingazeira e ficava cismando. As perguntas
avassalavam-lhe, atropelavam-lhe, todas afoitas à cata de respostas que ele
jamais encontrara.
Milhões de pontinhos pisca-piscavam
no infinito. Ele sabia que todos eram estrelas maiores que a terra. Imaginava
também que cada uma, como nosso sol, bem podia possuir planetas, e neles,
outros tipos de vida. Mas tudo se tornava parecido quando os imaginava
pendurados no nada, perdidos na imensidão, sem rumo, sem garantias,
inteiramente ao bel prazer de uma rota sem destino.
Dentro de cada mundo —
imaginariamente com vida — seres sem certeza do futuro, viveriam também um
presente de egoísmo, de ganância e de violência?
Seus pensamentos retornavam à
Terra, seu lar. Naquela liberdade de raciocínio,
lembrava os pensadores, as religiões..., os tantos que pregaram suas idéias
imaginando-as verdadeiras: os materialistas afirmando que tudo se deu por acaso;
os espiritualistas asseverando que um Ser Superior foi o autor de tudo quanto
existe. Quem está com a razão, se ambas as partes que afirmam são formadas de
seres humanos? Balançava a cabeça numa vã tentativa de espantar tais
pensamentos. Eles sempre o atenazaram, como
sádicos promotores.
No mundo das milhões de
probabilidades, não achava impossível a vida ter surgido por acaso, mas daí a
acreditar que tenha se evoluído a ponto de criar machos e fêmeas, não
conseguia entender nem admitir. Concluía, então, que a existência de Deus era
fato consumado. Rememorava Sua
exortação lembrando que Seu reino
não era desta terra: afirmação das mais
importantes do Evangelho e, também, das mais consideradas pela maior parte dos
políticos e homens ambiciosos da terra: se não é de Deus, bem pode ser deles.
Olhava para dentro de si: mais de a
metade da vida vivida, com quase nada realizado. Dia após dia pensando na
sobrevivência, preocupando-se com o amanhã... bem..., sendo mais um idiota
entre os tantos que se imaginam fisicamente eternos.
Sentia inveja dos tauístas quando
lembravam que é melhor parar um pouco antes de atingir o limite; de que não se
deve afiar demais a lâmina, pois se cegará mais rapidamente; de que quem
ajunta muito não se livrará dos ladrões; de que também aos colecionadores de
riquezas e títulos, a morte é uma realidade.
Cabisbaixo, "tão certo como
aqueles que duvidam", ele voltava à sua rede. Na roça ainda se pode
dormir com as janelas abertas sem o perigo de ser assaltado ou roubado por ladrões.
Por elas ele via o firmamento límpido e estrelado.
Assim dormia. Dormia e sonhava com um povo fraterno, cada um estendendo a
mão para o seu próximo, na expectativa de que, no vôo perdido de seu mundo
pelo infinito, cada um pudesse ser a esperança
e o amparo do outro.
Parecia-lhe que cada um absorvia a
consciência dos perdidos no deserto, nas florestas, nos altos-mares... e que só
restava, como esperança, a
solidariedade e a incerteza do dia seguinte, como um imprevisível salto no
escuro.
Quando acordava pela manhã, era-lhe
estranho ver gente afobada, apressada, cada um se dirigindo às pressas para o
trabalho. Só então percebia
que havia dormido muito e sonhado demais.
"OLHAI
OS LÍRIOS DO CAMPO..."
Caminhávamos por uma vereda da
floresta, quando percebi um cipó qualquer que estendia um verdadeiro ramalhete
de flores na margem do nosso caminho. Foi como se eu visse na orla de nossa
passagem, um anjo de Deus cheio de orgulho a nos saudar: "Este presente de
Deus é para vocês!"
— Olha — disse para meu
companheiro, apontando com o indicador — vê que maravilha da natureza!
— Maravilha? — limitou-se a
perguntar como se não tivesse visto aquele buquê multicolorido que se estendia
em cachos até nossos pés.
— Não significa nada para você?
— insisti surpreso.
— As flores? Ora, isso é tão
comum! E dizendo isto foi passando
por cima, esmagando com as botas, muitas delas.
Se Deus fosse passível de erros, eu
diria que tinha falhado quanto a sensibilidade de muita gente, pois a mim me
parece impossível passar desapercebido por uma flor, um bosque ou regato
cristalino, sem ater-me extasiado diante da beleza que cada um encerra.
As borboletas amarelas, brancas e
azuis que se agrupam em torno de uma poça d'água como se fossem átomos
gigantes em constantes circunvoluções; os tangarás que dançam e gorjeiam à
sombra de um bosque; o firmamento que nos cobre com seu lençol de estrelas;
..., os vaga-lumes que cruzam a escuridão da noite com suas lanterninhas
acesas; os oceanos, os mares, lagos e rios, com seus peixes e seus mistérios,
suas florestas submarinas; as montanhas geladas; as dunas ambulantes; as nuvens,
o azul do infinito, o pôr-do-sol, o sol que nasce, a lua que desponta; a
águia que plana; a mais bela mulher que desfila; a criança que reza de mãos-postas
na cabeceira da cama... Meu Deus, quanta beleza, quanta cor, quanta
maravilha!...
Tanta coisa para ser admirada e
agradecida e nós, como filhos desajuizados que recebem dos pais como presentes,
finos e quebradiços cristais, quase tudo degradamos. Caminhamos, pisamos,
destruímos tudo o que, apesar de belo e sagrado, não nos torna
rico e poderoso.
Sabe, eu gosto de pássaros! Crio
centenas deles numa área aberta de dez alqueires. Sairinhas coloridas,
bombeirinhos, curiós, bigodinhos, pipiras, pintassilgos, corrupiões, inhapins,
curicas, pombinhas..., e mais para o lado da mata, araras, ararajubas, gaviões-vigia,
pararis, tucanos, jacus, enfim, centenas de aves de pequeno e de grande porte
que se apresentam todas as manhãs como se fossem um coral de anjos alados a
receber o nosso Astro Rei.
Quando eu os criava em cativeiro,
sempre tinha a visita de ratos. Pela manhã era comum eu encontrar meus
passarinhos coloridos (cores que Picasso morreu invejando) estirados e
amarfanhados pelo chão. Os belos trinados que Beethoven invejou e a
graciosidade que as mais célebres modelos ainda tentam imitar, eram silenciados
e desfeitos, brutalmente, pela avidez dos roedores.
Somos — imagino — ratos
invasores do viveiro de Deus. Maus inquilinos que sujam e degradam a casa
alugada. Os ratos, no entanto, não estariam devorando meus pássaros se eu não
tivesse antes ocupado seus nichos; meus pássaros não estariam à mercê de
tais vândalos, se estivessem em liberdade, com todo espaço para voar e se
proteger.
Por isso, somos piores que os ratos,
pois construímos nossos próprios males, sujamos e destruímos nossa própria
casa. Ah, como devia ser lindo este planeta! Como ainda tem coisas lindas este
nosso mundo! Para alguns olhos,
ainda existem regatos cristalinos, flores e pássaros policromáticos e avisos
constantes de que nossa ganância e
nosso afã de tudo querer, não passa de insensata teimosia.
Este mundo é grande, bonito, e dá,
sobejamente, para todos os viventes. Pela manhã, ao despertar, que cada um de
onde estiver, olhe pela fresta da janela e contemple a beleza deslumbrante de
nosso planeta: as borboletas, os passarinhos, as flores, o sol que desponta, a
baleia que esguicha, a lua cheia em seu esplendor, o grilo que saltita, a
azulona que chororoca na encosta, o colibri que suga o néctar num beijo de
adolescente apaixonado,...
Escute com atenção e ouça uma vez
por todas, a voz que ainda ressoa: "Olhai as aves do céu que não semeiam
nem segam, nem fazem provimentos nos celeiros, e contudo nosso pai celestial as
sustenta; olhai os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, no entanto
nem Salomão em toda sua glória se cobriu jamais como um desses."
Para que tanto corre-corre, tanta
preocupação, se somos apenas uma diminuta parte desta conjuntura? Neste
viveiro de Deus, sejamos como os passarinhos: corramos e cantemos a alegria de
termos nascidos, dia-a-dia, como se cada minuto fosse o último — e esqueçamos
o preconceito e o escrúpulo de que ser feliz é pecado.
Você que só pensa em acumular, pare um pouco, pense: ainda é tempo.
Entenda a vida de uma vez, volte para ela e "deixe que os mortos enterrem
seus mortos".
A
ROSA VERMELHA
Seis
de Outubro de 1994
Um funcionário amigo e eu vínhamos
conversando sobre a vida e seus mistérios quando percebemos um aglomerado de
gente no meio do asfalto.
— Ali aconteceu alguma coisa
anormal — logo lembrou o amigo.
— Certamente, um acidente grave
— arrisquei.
Encostamos o carro e fomos
averiguar. Do lado esquerdo, um amontoado de latas corrugadas do que tinha sido,
até bem pouco tempo atrás, um Santana cinza-metálico. Não posso afirmar se
era novo ou de luxo: fora reduzido a sucata inqualificável, qualquer coisa com
dois palmos de altura.
A cinqüenta metros dali, do lado
direito, um Mercedes Benz, sem as rodas e eixo dianteiros, colado ao barranco,
atestava a violência do impacto. Gente acotovelava-se, perguntava, imaginava,
criava hipóteses. Esgueirando-me, encostei no monte de latas amassadas. No
asfalto, manchas de sangue, pedaços de gente, restos de tudo. Nada parecia
inteiro, nem os mais compactos blocos de ferro maciço.
Eu que já vinha cismando sobre a
vida e seus mistérios, entreguei-me ainda mais às conjecturas. Olhando bem
aqueles destroços, vi, entre as ferragens, uma fita cassete quebrada e uma rosa
vermelha que, apesar de tênue, ainda permanecia no meio das ruínas, com suas pétalas
no lugar. Estava tão perfeita e saudável no meio do sangue coagulado que
parecia estar vivendo sua primeira manhã orvalhada.
Quem estaria dentro daquele Santana?
Pensando o quê? Quais eram seus planos? Por que foi tentar a ultrapassagem
exatamente numa lombada? Por que tanta pressa? Onde teria, impreterivelmente,
que chegar? Que compromissos seriam tão inadiáveis a ponto de justificar
tamanha imprudência? Era homem, mulher, adolescente...? De quem ganhara ou para
quem levava aquela linda rosa vermelha? Parecendo inconformada, a rosa resistira
misteriosamente. Afigurava-se mensageira de uma enigmática e inadiável
mensagem.
E enquanto as suposições
revoluteavam em minha cabeça, eu continuava pensando na vida, confirmando cada
vez mais a filosofia de que a coisa mais importante é viver dignamente sem se
preocupar tanto com os negócios, com a riqueza e com o futuro. A pressa que
ceifa a vida de quem dirige transforma-se, um dia, em sossego e paciência
eternos de quem a usa indefinidamente.
É prudente trabalhar durante os
dias úteis e descansar, se possível, todas as noites. Usar os dias
santificados para pedir novas graças e agradecer a Deus as recebidas. É bom e
justo usar os feriados para se divertir e aliviar as tensões. É sensato juntar
apenas o necessário, para que Deus não nos cobre, mais tarde, a parte tirada
dos outros irmãos. É de justiça
dividir o que nos sobra, mesmo porque jamais iremos conseguir dormir em duas
camas ao mesmo tempo. Os seres humanos são uma grande família; somos todos irmãos
e o mundo é a nossa casa. Direta ou indiretamente, tudo o que nos sobra, falta
a alguém.
Estou certo que concordam com isso,
mas praticam? A maioria tem uma coisa na boca e outra no coração, porque o que
vemos a cada dia é o fortalecimento do império da
ganância.
Ali, naquele acidente, a coisa mais
sensível e singela, mais frágil e delicada — a rosa vermelha — apesar da
brutalidade do impacto, continuava inteira e formosa entre os destroços. Não
tivera pressa, não se desesperara com o tempo. Dependente, desamparada, como se
fosse uma criança perdida, ela aguardava os acontecimentos.
Quantos sonhos encerrava! Agora
estava sozinha, sem as fantasias, sem as ilusões ou lembranças de quem a
levava.
A um velhote taciturno, que também
bisbilhotava de braços cruzados, perguntei:
— Quantos havia no carro?
— Me dissero que era uma tal de
dona Helena, proprietária de uma serraria lá do Zero . Estava sozinha. Ela
sempre andava com pressa. Parecia que...
Hoje, quando escrevo estas coisas,
fico sabendo pelos noticiários, que acabam de assassinar o prefeito Renato
Cortez Moreira. As balas cruéis do revólver assassino, eliminaram também,
milhares de sonhos. Certamente, muitas rosas vermelhas o acompanharão na
misteriosa caminhada. Durarão mais que o homem em si, porque a roseira de onde
foram extraídas, representará em cada novo botão que fizer desabrochar, a
doce saudade de seus amigos e familiares. Haverá um século em que ele será
esquecido, porém, nunca, as flores vermelhas. Em cada dor, elas estarão
presentes, até os últimos dias do mundo.
Por tudo isso, por essa passagem
curta e da qual não levaremos nada é que defendo a filosofia do apenas necessário,
sem egoísmo ou ganância. Somos mortais e amanhã, talvez, o sol não nos nasça
outra vez. É estupidez imaginarmo-nos imortais aqui na terra. Somos,
certamente, mais frágeis que uma simples rosa vermelha.
FORO
ÍNTIMO
Quem é você, tristeza inexplicável,
que nesta manhã tão bonita me invade o coração? Quem é você que não
consigo entender nem explicar? Ontem, quando o dia terminou, fui deitar-me
alegre e feliz. Lembro que dormi bem só acordando às sete horas. Ao fazê-lo,
senti uma angústia profunda em minh'alma, um aflição que vinha não sei de
onde nem porque tomava conta de mim.
Tudo o que ontem era sonho, planos,
vontade de viver e empreender, hoje é desilusão, apatia e desânimo. Venha cá,
meu coração, conte-me o que aconteceu enquanto eu dormia. Que lutas
empreendeu, que recordações o avassalaram, que entraves lhe puseram no
caminho? Vamos lá, não fique aí amuado e triste, conte-me, desabafe.
— Está bem, vou lhe contar. Nós,
os corações, não temos tranca. As portas estão sempre abertas. Nosso
interior é hospitaleiro à todas as emoções que nos chegam. De fato, ontem,
quando se deitou, pernoitaram aqui arautos da alegria. No entanto, antes que o
dia amanhecesse, eles se foram, dando lugar a outros caminheiros carregados de
problemas e transtornos, viajantes estes criados por você no passado e que só
agora chegaram e arriaram os alforjes aqui dentro de mim.
Todas
as coisas que faz no seu dia a dia, logo
ou em algum tempo qualquer, acabam por aninhar-se aqui em meu âmago. Por causa
dessas vicissitudes você se deitou
feliz e acordou triste. As emoções que sente são meu alimento. É delas que
vivo. Se me alimentar de coisas boas, nunca terei coisas ruins para refletir,
porque sou apenas um hospitaleiro, um espelho, um escravo de sua índole. O que
me der, eu guardarei. Jamais gasto à toa. Sempre irei devolver o que me confiar
a guardar, embora não possa precisar-lhe a hora.
— Não me lembro de ter querido,
em tempo algum, minha infelicidade!...
— Ah, como se esquece logo!
Quantas vezes foi egoísta, preguiçoso, interesseiro, injusto, agressivo,
ignorante? E todas as vezes que assim o foi, sem que percebesse, enviou-me esses
infortúnios e eu os armazenei. Se não quiser, mais adiante, voltar a ter estas
desagradáveis surpresas, cultive sempre as virtudes.
— Ser perfeito é impossível a um
ser humano. Não me peça tanto!
— Não disse para ser perfeito,
mas sim para cultivar as virtudes. Fazer coisas louváveis ou não, é sempre
uma questão de persistência. Em tudo o que insistimos, acabamos nos viciando.
Há coisa pior do que o primeiro cigarro ou a primeira dose de cachaça? No
entanto, são milhões seus dependentes neste momento em que falamos.
— Ah, coração, bom conselheiro e
amigo! Na verdade criamos nosso destino, agora estou convencido. Colhemos sempre
o que plantamos. Você, agora sei, é um produto de meus pensamentos. Sua saúde
depende de meu relacionamento e de minhas emoções. Entendo assim que posso ser
feliz em qualquer situação, mesmo diante da pobreza extrema ou de qualquer
conflito pessoal que possa me afligir.
— Percebo que está entendendo meu
comportamento.
— Hoje me devolve os frutos da árvore
que plantei há tempos atrás. Entendo você: não poderá devolver-me
jaboticabas se plantei carrapicho. De agora em diante, plantarei apenas sementes
de paz e concórdia, de humildade e de tudo o que possa deixar você feliz e em
paz.
—
Se assim o fizer, garanto que jamais deitará feliz e acordará triste, porque
sou, apenas, um reservatório de suas emoções.
A
ABELHA E EU
O carro deslizava pelo asfalto,
mergulhando nas ondas daquele mar de mormaço que o sol a pino criara naquele
dia ensolarado de outubro. Apesar do vento quente que estapeava meu rosto por
causa do impacto que a velocidade do carro criava, eu percebia
não haver qualquer tipo de aragem a arrefecer as plantas que se expunham
ao alcance de minha visão limitada: a responsabilidade não me permitia admirar
os panoramas que se descortinavam em cada curva, em cada lombada.
Sempre quando viajo sozinho burlo a
lei de que não se faz duas coisas ao mesmo tempo, pois tanto não me distraio
do volante como divago pelo mundo de minhas ilusões e de minhas dúvidas. Há
muito em mim da angustiante preocupação que acompanhava Graciliano Ramos
quando me apanho desprotegido da companhia de alguém. Também eu, quando solitário,
não preciso mais que uma folha seca rolando pelo chão para passar algumas
horas fazendo conjecturas, às vezes, imbecis.
Foi por causa dessa inexplicável
preocupação que me prendi à luta vã de uma abelha que, ao tentar atravessar
a pista, entrou na boléia da camioneta que eu dirigia. Embora os vidros
laterais estivessem escancarados, a pobre abelha logo se pôs a procurar a
liberdade pelo lugar, não apenas mais difícil, mas simplesmente impossível: o
pára-brisas dianteiro.
Sem me distrair fiquei a observá-la:
incansavelmente ela batia no vidro e caía no painel quente. Sem um segundo de
descanso novamente se atirava em rasantes para, inutilmente, procurar o vasto
mundo de onde viera. Por mais de meia-hora ela lutou sofregamente, a fim de não
desmerecer a misteriosa graça de
Deus de haver nascido para sua minúscula, mas importante, missão aqui neste
mundo.
Como me pareceu tolo aquele pobre
inseto! Tão perto da liberdade e ali prisioneiro! Seria tão simples pousar no
painel, olhar a abertura de uma das portas e voar pelos prados e campinas.
Contrariamente, ele não olhava (imagino os olhos dos irracionais como elementar
resquício de nosso raciocínio), tombava e se reerguia para esbarrar no vidro e
novamente cair.
Com o tempo as forças foram lhe
faltando, até que, não mais resistindo, começou a debater-se em estertores de
morte. Cuidadosamente o tomei pelas asas e o lancei fora. Não sei se
sobreviveu, mas fez-me bem não assistir ao fim daquele ingênuo inseto. Fiquei
com meus pensamentos, divagando pelo mundo de minha mania.
Seria tão fácil para aquela
abelha, parar um pouquinho e olhar melhor o próximo passo! Mas ela, como tantos
seres humanos, agia inconseqüentemente e, inadvertida, lutava, desgastava-se e,
possivelmente, se destruiria. Depois de filosofar bastante, sinceramente,
senti-me como aquela abelha.
Quantas vezes me desgasto,
perco noites de sono, crio problemas, acuso e reajo, cometo injustiças,
torno-me miserável e egoísta..., bato num pára-brisas de teimosia, insensatez
e orgulho, sem imaginar que as portas da alegria, da paz e da felicidade estão
em Deus, aqui bem juntinho de mim, dentro de meu coração, por meio da
compreensão, da paciência e da humildade.
EU
NÃO TINHA TEMPO
Houve um período em minha vida em
que eu tinha tempo pra me divertir. Acordava cedo como os passarinhos, apanhava
meu embornal de pelotas, meu
estilingue e corria para a casa do Nego, meu companheiro de infância.
Impreterivelmente saíamos juntos todos os dias pelos cafezais a fim de caçar
os mansos e indefesos cambacicas que saltitavam pelas vergônteas dos mata-paus
que infestavam as lavouras novas.
Depois fui crescendo e me mandaram
para um colégio interno. Ali me levantavam antes que os passarinhos acordassem
e era quase impossível separar uns minutos para dedilhar um velho violão que
me haviam presenteado. Naquele lugar me deixaram alguns bons anos, até que um
dia, achando que podia ser dono de meu próprio nariz, proclamei minha independência
e deixei o internato.
A idéia de liberdade me perseguia.
Quando interno, surpreendia-me ao notar as pessoas na rua caminharem
sofregamente, como se cada uma estivesse com o pai ou a mãe em seus últimos
instantes de vida. Agora que me
encontrava na rua, percebia claramente, o motivo que levava tanta gente a toda
aquela correria. Eram pessoas necessitadas ou mesmo gananciosas. Umas lutavam
para sobreviver, para manter a família; outras, injustificavelmente, para serem
cada vez mais ricas, para obterem, sempre mais, bens e poder. Senti que havia
chegado o momento de escolher ou decidir de que lado ficar.
Sem deixar o colégio, consegui um
emprego. Trabalhando de dia e estudando à noite, toda a liberdade que pensava
existir, escapou-me pelos dedos. Mais um pouco e a juventude também foi
desaparecendo. Trabalhando e estudando como louco, consegui me formar... e um
pouco mais tarde, casei-me. Sem me dar conta, havia escolhido minha própria
sorte: a de lutar incansavelmente pelo desnecessário ou, quando nada, pelo
inexplicável.
Nesse estágio, pessoas sensatas
convidavam-me para uma pescaria, um aniversário, um retiro..., mas eu não
tinha tempo. Mesmo à noite eu trabalhava, juntava e juntava e nunca me pareceu
bastante. Um dia, porém, deitei-me para descansar, e sem entender a razão, não
mais acordei. Como se fosse um pesadelo, fiquei a observar pessoas que, como eu,
iam e vinham numa sofreguidão estúpida, todas se movimentando como se não
pudessem perder um único minuto da vida.
Ali
postado, quieto e pensativo, tive tempo suficiente para aquilatar a estupidez de
toda aquela gente. Como me pareceram imbecis! Ao invés de tomarem os bens
materiais por empréstimo, queriam-nos para si, como se isso fosse possível.
Ali parado, todo dois de novembro, eu tentava falar, mas ninguém me ouvia, nem
se dava conta de que eu estava, agora, com todo o tempo do mundo para papear.
Em minha madorra angustiante, embora
achasse a correria uma insensatez a toda prova, eu nada mais podia fazer. Que
esperavam levar, as pessoas que trabalhavam apenas para somar mais e mais, de
toda aquela correria? Por que não paravam um pouquinho para descansar? Por que
até aos domingos não sossegavam um pouco? Por que não percebiam que haviam
nascido, também, para se divertir e ser felizes?
Os sensatos, porém, amigos e
parentes de outrora, se aproximavam de mim e carinhosamente insistiam no convite
para um convescote ou uma pescaria. Agora, não mais com a desculpa de que não
tinha tempo, eu respondia que estava descansando e que meu corpo extenuado de
uma longa luta, sentia-se velho e indisposto.
Às vezes pensava: "Que está
acontecendo comigo? Antes eu não descansava porque precisava trabalhar, juntar
sempre mais, ser um homem rico e bem sucedido; agora que sou rico, que tenho
todo tempo do mundo, também não me divirto. Droga, que está acontecendo
comigo?"
Foi então que, ao olhar para dentro de mim,
percebi que estava deitado na lápide fria de um cemitério: eu estava morto.
TREZE
ANOS DEPOIS
Depois de treze anos voltei à minha
terra natal. Percebi que tudo havia mudado, ficado diferente, se transformado em
gente e coisas que pareciam não mais se lembrar de um menino simples e feliz.
Sinceramente, haverem destruído meu mundo de criança, achei uma afronta, um
desrespeito. Fizeram de meu vale, um mundo puramente de adultos interesseiros.
As encostas dos remanescente jaós,
agora são cafezais bem cuidados; as várzeas de capim-pernambuco viraram
mamoeiros, laranjeiras, limoeiros... O homem, mais uma vez demonstra não estar
satisfeito com aquilo que Deus fez e que eu, ainda hoje, acho o máximo. Mesmo o
mais belo edifício, para mim, não supera, em beleza, uma frondosa jarana.
A antiga vereda de dois quilômetros
que dava acesso à Escola Singular Professor Ananias Neto e que me parecia uma
grande distância, agora se comprime num rastro preto de asfalto, desfeito em
apenas duas ou três aceleradas de carro. As fazendas do tio Luís, dos Sangálias,
dos Ceolins, dos Falquetos e dos Nogueiras, neste momento se resumem a um tapete
verde centralizado por uma única sede. Nem a boleira pouparam — aquela
boleira que me dava sombra, que encimava um verdadeiro coro alígero, que me
escondia dos olhos de Deus todas as vezes que eu rogava pragas naqueles que me
esquentavam o traseiro.
Depois fui rever meus velhos amigos.
Companheiros de futebol, de pescarias e de caçadas. Estavam grisalhos, alguns
muito enrugados, dentes caídos... Meu Deus, como me pareceram envelhecidos!
À noite, em frente a um relógio de
parede, fiquei observando o ponteiro das horas. Parecia parado, mas estava certo
que caminhava, que progredia lentamente abreviando meus dias. Em cada segundo
— cismava eu — uma célula de minha juventude se perde. Ergui-me e fui ao
espelho: não me vi tão velho quanto meus companheiros. Não há dúvidas, no
entanto, que pensaram o mesmo de mim, que não encontraram, por mais que
buscassem, aquele "alemão" de nariz pelado, indômito, quase
incansável de treze anos atrás.
Restou-me, então, baixar a cabeça
e meditar um pouco. Pensar nos meus pais que já se foram; naqueles veteranos
vinte anos mais velhos que eu e que agora se apóiam em cajados para se manter
de pé; em mim que, querendo ou não, estou morrendo sem perceber, corroído a
cada segundo pela ação nefasta do tempo.
Logo mais estarei calvo ou mais
grisalho; mais um pouco me apoiarei também num bordão; terei meus olhos
esmaecidos e sem brilho; minhas pernas estarão trôpegas e cansadas; meu cérebro
confuso... Um pouco mais ainda e, como meus pais, viverei de curtas lembranças,
vivenciadas em todo dois de novembro numa lápide quieta e fria.
Quando esse tempo chegar, apesar do
medo, saltarei no escuro com o frenesi de um excitado, pois estou certo que as dúvidas
que me corroeram a paz a vida inteira, serão então elucidadas.
Estas coisas são verdades duras que
muitos não gostam de lembrar, mas que servem para não nos deixar esquecer do
grande estúpido que nos tornamos todas as vezes que perdemos noites de sono e
dias de sossego, em busca de um tesouro que nunca será nosso: as coisas
materiais desta terra.
É bom que olhemos nossos
velhos amigos e que vejamos neles o nosso retrato. É conveniente volver folhas
de velhos álbuns à cata de registros passados, velhas fotografias de dez ou
vinte anos atrás. É oportuno que saibamos que amanhã, todo orgulho, espírito
de vingança, traição, egoísmo..., estarão depondo contra nós em algum
lugar. É aconselhável sermos sensatos, vivendo a vida sem tanta correria e
buscando apenas o necessário. Nisto reside a fraternidade e a justiça, pois,
sem dúvida alguma, o que nos sobra, falta a alguém.
O
MILAGRE DA CHUVA
Há um mês atrás, depois de mais
de cinco meses de sol causticante, poeira nas estradas e ruas, muito calor e
suor, a natureza estava desbotada, triste e sofrida. Para aumentar o infortúnio,
o fogo inconseqüente das queimadas
deixava no ar um lençol sufocante de fumaça. Nada de flores. Verde sem viço.
Sinais angustiantes de coisas que definham ou perecem à míngua.
Um dia, porém, ao passar por um
amontoado de sarrafos de um canto do quintal, ouvi o coaxar de uma perereca: há
muito não sabia, sequer, de sua existência. Meu pai
sempre dizia que os animais pressentem quando a natureza se modifica,
quando o ar se torna mais úmido ou mais seco. Ele mesmo nunca tivera motivos
para duvidar de um calo seco que, quando se revoltava, era sinal inconfundível
de chuva. Os potros fazem estripulias pelas mangas; os bezerros torcem o rabo e
correm desordenadamente; as pererecas e sapos coaxam; os cupins deixam seus
claustros; os pássaros ficam excitados... Todo ar fica diferente, revestindo-se
de um mormaço sufocante e de uma expectativa contagiante que nos surpreende.
Aqui onde moro não há poldros nem
bezerros, mas pássaros e batráquios encontramo-los
em qualquer parte. Por isso, ao adentrar em casa arrisquei um palpite:
— Até que enfim vai chover!
Minha filha chacoteou, atacando-me,
carinhosamente, de falso profeta, velho caduco e outros adjetivos que nunca são
escassos quando a gente passa da fase de herói para aquela de quadrado
ranzinza.
À tarde, porém, o calor abafado
aumentou. Um pouco mais e lá longe, fortes
trovões ribombaram. Aquele vento, amigo das donas de casa que sempre avisa
que está na hora de recolher as roupas dos varais, veio expulsando o ar
mais leve e seco, arrefecendo o mormaço sufocante de até então. Um pouco mais
e chispas desconexas de fogo riscaram o firmamento, numa pujança que nos diminuía
ao nada: Prenúncio de tempestade medonha.
Debrucei-me, mesmo assim, no
peitoril da janela. Não acredito que a chuva possa exercer maior fascínio em
alguém do que aquele que exerce em
mim. Alguns pingos vanguardeiros, esparsos e grossos, foram se misturando à
poeira das folhas, fazendo escorrer um líquido cor de café com leite. As
folhas, as árvores, a natureza toda, a cada minuto, dava a impressão de que se
transformava milagrosamente. Parecia-me, no devaneio de um poeta bucólico, que
tudo o que se definhava pela sede, sorvia a goles deseducados, aquele maná
descido dos céus.
A noite caiu chuvosa, mas terminou
com o mais lindos dos sóis nascendo lá longe, num horizonte que há muito não
se percebia tão límpido. Quando abri a janela tive a impressão de ter viajado
a noite toda e por fim chegado a uma nova terra prometida. Puxa!, não sei se em
russo, com suas milhares de regras e exceções, eu encontraria as palavras
adequadas para exprimir o sentimento e a emoção que me invadiu naquele
momento!
Até as pessoas pareceram-me
diferentes: mais alegres e bonitas. Os pássaros chilreavam; os sapos saltitavam
à cata de cupins e besouros; as andorinhas, em acrobacias olímpicas,
disputavam toda sorte de insetos que também se desentocaram. O comportamento
dos seres transformou-se tão repentinamente, que a mim me pareceu milagre dos céus.
Então imaginei: que bom seria se
todas as semanas chovesse, oferecendo-nos uma terra molhada, fertilizada, cheia
de flores e de verde; que aqui não houvesse essas duas prolongadas estações,
ora de muita chuva, ora de muito sol; que fosse, enfim, uma eterna primavera,
cheia de flores e de passarinhos.
Por tudo isso, é bom que não nos
esqueçamos do lugar que Deus nos deu para morar, lembrando sempre que podemos
favorecer um pouco mais o milagre das chuvas, desde que não degrademos tanto a
natureza. Se insistirmos em não respeitá-la, as nuvens, numa vingança
tácita, porém inflexível, poderão cada vez mais se afastar de nosso céu.
O
PREÇO DA FELICIDADE
Lembro ainda sua mãe misturando lágrimas
de alegria e dor: o cordão umbilical não havia ainda sido cortado. Lembro-me a
água morna que lavou seu corpinho, as noites que perdemos cuidando de você, o
prazer de seu primeiro sorriso.
Jamais irei esquecer o dia em que
leu a primeira palavra e aquele aniversário em que usava um fitilho de seda
vermelha a enfeitar seus cabelos castanho-claros. O primeiro ato de rebeldia
maliciosa: desejo ou necessidade de auto-afirmação.
Quinze anos!... Seios aprumados,
flor que desabrocha. O bem e o mal num tabuleiro: a bandeja da vida. Festa.
Dezenas de adolescentes cortejavam-na e eu, de um canto do sofá, cismava o
futuro e revivia o passado numa retrospectiva de saudade. Termina a festa.
Portas trancadas. Silêncio acusatório: depressão.
O colchão, como espinhos pungentes,
incomodava-me o descanso: incertezas. Rodou a terra, amanheceu um
novo dia. Vieram as semanas, os meses..., dezenove anos! Formatura, última
festa de quimeras. Vão-se os sonhos, empossa-se a realidade. A correria, a
crise, a vida num país mal governado: chacais no poder.
Nem eu percebia em minha filha a força
dos desejos, nem ela, as rugas de meu rosto: conhecidos desconhecidos.
Eu em busca da sobrevivência; ela, do ideal. Que ideal?
Passa o tempo devagar e determinado,
surpreendente e inflexível. De herói, passei a ser um velho imprestável; de sábio,
um ranzinza quadrado: alternância dos racionais. As mesmas mãos
que me acariciaram, agora me ferem. Senhora de si, dona de seus projetos e
caminhos. Entrava e saía sem me dizer aonde ia ou de quem se faria acompanhar.
Venceu o prazo: dezenove de
dezembro, vinte e três horas. Passou por mim na sala. Eu estava acordado,
esperando que chegasse: pai. Ela, ventando do quarto, tornou a
sair: dona de si.
— Aonde vai a esta ho...
Não me disse nada, simplesmente
bateu a porta. Voltei ao sofá. Eu já não era seu herói, seu protetor, seu
conselheiro, seu pai. Doeu fundo. Meu olhar prendeu-se, então, num canto
inexpressivo da cadeira em frente. Os pensamentos enredavam-no como uma aranha
à sua presa. De repente, meus olhos começaram a ficar turvos e uma nuvem
pardacenta envolveu-os pelas lágrimas. Chorei... como chorei diante de minha
impotência!... Era mesmo — agora entendia — um velho imprestável.
Ajoelhei-me, mas nem Deus podia penetrar na balbúrdia e desencontros de minha
alma angustiada.
— Que devemos fazer? — perguntei
à minha velhinha.
Ela enxugou os olhos em silêncio.
Vesti a camisa e saí. Saí pela cidade, sem rumo, instintivamente. Era
madrugada fria, chovia fino. Andei, sofri, chorei. Qual arauto do mal, rumo à
desgraça. Lá longe, no fim de uma rua, um aglomerado de pessoas e alguns
carros. Era minha direção e não desviei: morte. Um rapaz estava
estirado, mas ela, minha filha, ali já não se encontrava. Seguira com os
assassinos. Como algo que de tão veloz ultrapassa a barreira do som, minha dor
venceu as lágrimas: choque.
O dia amanheceu. Novamente o canto
do sofá, o rosto maltratado de minha velha companheira em cima de minhas coxas
trêmulas. Às oito horas, entregaram minha filha estuprada, violentada,
exangue: trapo humano.
Claudicando, olhos amortecidos pela
dor, fui recebê-la. Exânime, ela entreabriu os olhos mortiços e balbuciou,
dependente outra vez:
— Pai, ô pai!...
Apertei-a entre meus braços
mirrados e meu coração parecia sair do peito. Há dez anos eu não ouvia
aquelas palavras! Há muito tempo, quando
ainda criança, quando ainda eu era seu herói, foi que ela me disse que
precisava de mim e que eu nunca a abandonasse. Ali eu estava, com ela nos braços,
muito mais herói agora por ter resistido a dez anos de desprezo e atendido,
como se fosse um deus, à sua súplica:
"Não me abandone".
Misturamos lágrimas. O preço foi
alto, porém, justo. Paguei dez anos de sofrimento, mas readquiri a felicidade
perdida.
Hoje, estou no meu canto de sofá
outra vez, pensando tudo isso, escrevendo essas coisas. Minha velha já dorme;
minha filha prepara o enxoval de seu primeiro filho. Olho o canto da cadeira:
está claro e limpo. Perco-me — como um velho teimoso que sou — em novos
sonhos. Vejo outra criança correndo pela casa e, se apertada, gritar
dependente: "Vô, não me deixe apanhar, não me abandone nunca".
Não preciso mais que isso
para agora, aos sessenta e cinco anos de idade, ser o velho mais feliz deste
mundo.
MEIO
SÉCULO DEPOIS
Escrito
em novembro de 1994.
Mais ou menos há cinqüenta anos,
era eu uma criança abacinada, nariz sempre em feridas por causa dos raios
solares. Do nascer ao pôr-do-sol metia-me nos campinhos de pelada ou nos
cafezais perseguindo calangos e passarinhos. Lembro-me como se fosse agora: o
mano chamou-me de lado e convenceu-me a torcer pelo Botafogo do Rio de Janeiro.
Fez-me crer que eu era o protótipo do Pirilo, o maior goleador da época,
aquele que atemorizava as defesas adversárias. Os argumentos foram tão
contundentes que, ainda hoje, posso declinar a escalação: Osvaldo, Gérson e
Santos; Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Otávio, Pirilo e
Braguinha. Com esse time o Botafogo foi campeão e registrou em cartório, minha
sina de sofredor. O diabo é que me é impossível desgostar de alguma coisa
quando aprendo a amar verdadeiramente. Ao Botafogo, quando muito, dou o desprezo
de não acompanhar-lhe as desditas.
Estas duas inclinações (caçar e
jogar futebol) nortearam minha vida por longos e longos anos, transformando-me
em seu verdadeiro escravo. Da primeira só fui me livrar vinte e cinco anos
depois, quando, pela grande prática adquirida, já fazia um verdadeiro estrago
à nossa fauna. Um dia, meu pai, vendo a quantidade de macucos abatida, ameaçou
denunciar-me ao IBDF, caso eu não parasse com aquela matança desordenada e
cruel. A segunda, deixo-a agora, meio-século depois.
Não que tenha desgostado, mas
simplesmente por respeito aos meus companheiros de equipe. Reconheci que há um
tempo pra tudo e que não justifica o apenas gostar. Para ser sincero, ainda
ontem eu contava nos dedos os dias dos jogos de minha Laminadora. Neste time
ingressei há quatorze anos quando aqui cheguei; dele me despeço com toda
gratidão de alguém que, mesmo aos cinqüenta e seis anos de idade, ainda era
colocado em campo.
Gostar eu gosto: na verdade foi uma
das mais duras decisões que tomei na vida. Meus irmãos sempre brincam comigo,
dizendo que se ao invés de futebol eu tivesse me declinado para o lado das
drogas, Escobar seria meu discípulo.
Quem conhece o velho adágio
popular: "Deus, quando tira os dentes, abre a goela?!..." Quando
percebi que matava a bola para o adversário, que precisava de tempo excessivo
para os lançamentos, que meus companheiros me cortavam no caminho para
pressionar o adversário que entrava na área..., senti claramente que era o
momento de trocar a bola por um computador. Não era justo sacrificar meus
companheiros, exigindo deles que suprissem minhas deficiências.
E agora,
quando o Natal se aproxima, quero aproveitar a data para não só desejar
o dezembro mais feliz entre todos os que já aconteceram na vida de meus
companheiros, mas também, agradecer, do fundo
de meu coração, a todos os desportistas que sempre me deram apoio e me
respeitaram, apesar de minhas fraquezas.
Jamais irei esquecer o silêncio de
meus colegas quando, prejudicado pelo peso dos anos, eu não alcançava a bola
ou fazia um lançamento desastroso. Há muito eu percebia a paciência, a
amizade e compreensão deles, mas devo confessar que, mesmo assim, não me foi fácil
compreender e abandonar.
Aos companheiros que me aturaram;
aos adversários que me respeitaram; a todos quanto conheci pelo meu longo tempo
de futebol aqui em Imperatriz, quero deixar, do fundo de minha alma, a minha
gratidão e o meu muito obrigado. Foram maravilhosos esses quatorze anos!
Conheci gente amiga que pensei em extinção. Para representar a todos, quero
entregar, num gesto de apreço e consideração, a simbólica taça de gratidão
ao companheiro "Toinho", esse incansável amigo que, nos últimos
anos, correu por ele e por mim no meio-de-campo. É em consideração ao seu
supremo esforço, caro "Toinho", que agora me despeço do meu maior vício:
o futebol.
Que vocês continuem honrando o nome
de nosso time, jogando com determinação e disciplina, respeitando os
companheiros, a arbitragem e os adversários. Nunca se esqueçam que futebol é
apenas um esporte, inventado para entretenimento e que, como tal, na maioria das
vezes, sempre vence o melhor. Se possuírem um bom time, certamente serão campeões;
se o adversário for melhor, contentem-se em valorizar-lhe a vitória. Não
esqueçam nunca que futebol é jogado com os pés e que a língua apenas
atrapalha. Não deixem que a falta de futebol excite a ignorância, fazendo com
que agridam os adversários mais bem preparados. Para se ser o melhor é
preciso muita força de vontade, treinar excessivamente,
respeitar e, acima de tudo, ter nascido com o dom de jogar futebol. É
ingenuidade pueril acreditar que se pode perder noite, ingerir bebida alcoólica,
jogar pela manhã e ser o melhor no jogo da tarde.
É exatamente por causa dessas máximas
que hoje penduro as chuteiras. Houve tempo que também eu chegava na frente,
protegia bem a bola, lançava bem..., é, houve um tempo. Agora é hora de
deixar meu lugar para outro, pois na verdade, há um tempo para tudo, inclusive
para parar.
APENAS
MÁSCARAS
Dar asas à imaginação, sonhar...,
são coisas comuns a todo ser humano. Sonha-se com a riqueza, com mulheres
atraentes e bonitas, com a justiça, com a paz, a felicidade..., depende apenas
das fantasias e da formação de cada sonhador. Eu sou um devaneador, um homem
consciente de que jamais conseguirei transformar o mundo, mas que sonho com isso
como se fosse um miserável obcecado pelas loterias. "Imagine um mundo
cheio de paz, um mundo onde todos se tratem como irmãos, um mundo sem egoísmo,
pleno de fraternidade..."
Sonho com um mundo que só pode
existir em minha cabeça, um mundo que deve acontecer em algum lugar, mas que
minha fé combalida hesita aceitar, mesmo com a afirmação de Jesus Cristo: "Passará
o céu e a terra, mas minhas palavras não passarão".
Hoje, durante a sesta, veio-me, em
sonho, esses pensamentos embaraçosos e frustrantes. Pareceu-me estar caminhando
por uma estrada de chão, ladeada de árvores e flores: uma paisagem bonita e,
na realidade, muito difícil de ser encontrada. Dizem que enquanto dormimos,
nossas almas passeiam pelo quarto, pela casa... e até por lugares mais
distantes. Há coisas que qualquer um pode dizer e até afirmar, já que se
torna impossível prová-las.
Em determinado ponto desviei os
olhos para uma das margens e percebi, à
sombra de uma árvore frondosa, quatro homens, inteiramente despidos, que
pareciam demandar o direito sobre a roupa mais luxuosa que ali se encontrava
pendurada. Vendo-me ao largo chamaram-me para resolver o impasse: cada um dos
quatro afirmava que a melhor roupa que estava dependurada num dos galhos,
era dele.
Mesmo em sonho não pude esconder
minha apreensão, porque achei extremamente difícil olhar para quatro pessoas
inteiramente nuas, e descobrir a quem pertencia a melhor e mais luxuosa roupa,
simplesmente baseado na riqueza apregoada por cada um dos contendores.
— Eu tenho quatro fazendas —
disse o primeiro — e somente eu poderia adquirir
um roupa tão cara.
— Sou dono da maior agência de
automóveis da cidade e posso
comprar roupas até melhores que essa aí em questão — argumentou o segundo.
— Ambos estão mentindo — acusou
o terceiro — a melhor roupa é minha.Sou dono de fábricas diversas em todo
estado.
— É minha — assegurou o quarto.
Nenhum deles possui a minha riqueza.
Eu que
simplesmente passava por ali e fora
chamado para dirimir aquela divergência, fiquei atônito, muito confuso,
porque não podia, por mais que me esforçasse, distinguir a qual deles
pertencia a melhor roupa.
Todos os quatro eram bem parecidos
em suas compleições. A roupa mais luxuosa cairia bem em qualquer um dos
quatro. Todos eles eram muito ricos. Essa particularidade dificultava ainda mais
minha dedução.
Enquanto imaginava pensar, crianças
barulhentas acordaram-me, mas a lembrança do sonho continuou em mim.
Impressionado, fiquei a meditar. A primeira lembrança foi aquela de que "a
batina não faz o monge".
Aqueles quatro homens de meu sonho,
por mais luxuosas e diferentes roupas que pudessem usar, nus, eram exatamente
iguais: estavam despidos da falsa importância que o luxo atribui.
SUBLIME
RESGATE
Tochas de fogo se movimentam por
entre as oliveiras. O Filho do Homem estremece como se a um Deus fosse possível
a surpresa, o medo e o esmorecimento. Nem Ele — insinua a história —
parecia ter plena consciência da capacidade inventiva do homem em praticar a
crueldade.
Isso começou há quase dois mil
anos, e não estamos certos por quanto tempo ainda continuaremos crucificando
nosso próprio Salvador. A única coisa certa é que todo pecado de nossos
ancestrais, os desta geração e aqueles que, infelizmente advirão, estavam
sobre Seus ombros, naquele dia fatídico da caminhada para o Calvário.
A cruz foi o resgate exigido para
sanar a dívida da humanidade. Sem ele — afirma-se — ninguém se salvaria.
Que Jesus continue tendo paciência com a gente e que cada dia que nasça
seja-nos motivo de arrependimento e mais uma oração contrita por essa lição
divina de amor.
Em algum dia desta semana,
certamente você irá passar por uma igreja; certamente irá ter um minuto de
solidão e silêncio; certamente Jesus tocará com mais carinho o seu coração.
Pare um minuto, companheiro, e pense. Apalpe-se: você existe; respire: você
está vivo; lembre-se: amanhã não estará mais aqui. Há motivo maior para não
se preocupar tanto com as coisas materiais? Se tem dúvidas a respeito de Deus,
não se preocupe, pois todos os homens da terra as tem.
Você é um dos maiores milagres do
Criador, porque veio do nada e, se justo, será eterno. O firmamento, as
estrelas, os planetas, as galáxias, tudo enfim, um dia voltará ao nada. O
homem justo, não.
Não se preocupe tanto com seus
erros e fraquezas, mas sim pelas vezes que não se esforçou para diminuí-los;
não inveje os que lhe parecem superiores, nem os santos, pois pode ser que
tenham recebido muito mais graças que você. Se recebeu pouco, Deus não lhe
cobrará tanto.
Respeite sua verdade honesta e
sincera como se fosse um mandamento de salvação. Não se acovarde diante
daqueles que querem lhe impor cega submissão ao que imaginam certo, como se você
não pudesse raciocinar e escolher seu próprio caminho.
Siga antes sua convicção e fé. Só há uma verdade: aquela que
acredita com sinceridade; só um pecado: aquele que fere sua consciência. Nas
coisas do espírito o mais importante é a intenção, porque ela é o espelho
fiel do relacionamento mais íntimo do homem com Deus.
Nesta semana, converse com Jesus.
Chame-O a um cantinho qualquer e, na surdina, bata um papo com Ele. Não importa
sua crença, mas sim, sua intenção. E depois desta conversinha reservada,
procure melhorar o quanto for possível, dia a dia, sem tréguas, com determinação.
Erga os olhos e as mãos e se tiver
coragem, balbucie com humildade e emoção, a mais linda oração que
foi ensinada: "Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o
vosso nome, venha a nós o vosso reino..."
ALÉM
DO INFINITO
No jornal da TV Globo mostram, antes
de cada bloco noticioso, um globo que vai se afastando da tela rumo ao infinito
até desaparecer. Não sei a razão, mas sempre que isso acontece, invade-me uma
angústia desgastante. Fico imaginando os seres humanos em cima daquele corpo
esférico, como se fossem micróbios agarrados a uma bola de futebol fortemente
chutada sem direção. Essa bolinha, no conceito de outros possíveis seres do
universo, certamente, nem é classificada no rol dos planetas. Em cima dela, porém,
os homens se perseguem e se matam
estupidamente no afã de possuí-la.
É, minha gente, se
refletíssimos um pouquinho só, perceberíamos o quanto nos tornamos
irracionais quando insistimos na idéia fixa de nos considerarmos eternos aqui
nesta terra!
Um dia, conversei com uma pessoa
muito simplória e ingênua
(falamos a respeito da existência de Deus e de seus mistérios).
Ele deu o parecer dele a respeito do assunto:
— Eu não penso nestas coisa.
Querendo ou não, pensando ou não, eu não vô mudá nada. Se Ele for bom e me
dé um bom lugá quando eu morrê, melhó pra mim; se Ele for mais justo que bom
e me condená, eu também não posso fazê nada. Por isso vou vivendo minha vida
como todo mundo vive. Não é possive que se todo mundo é assim eu tenho que sê
diferente. Sabe, quando estes pensamento me vem eu até balanço a cabeça e
jogo eles fora. Não quero nem perdê tempo!
Sábia dedução! Para mim foi de
grande ajuda. Mudou muito minha vida. Parei de passar horas e horas matutando,
imaginando como Deus apareceu; onde termina o infinito; o que há depois
dele;...
Estas perguntas, se muito repetidas,
podem se transformar em ingredientes bastantes para enlouquecer o mais
equilibrado dos mortais. Se formos fundo
na questão, usando apenas a cota de raciocínio que temos, chegaremos à
conclusão de que, realmente, as coisas se fizeram por acaso, pelo menos até o
aparecimento de Deus.
Isto fere profundamente a Teologia e
é aconselhável que ninguém ouse invejar Galileu, no que tange a verdades fora
de tempo: seria uma pretensão, no mínimo, insensata. É óbvio que a maior
prova de que há um Criador por trás de tudo isso é a existência das coisas,
já que sempre baseamos nossas deduções na premissa de que não pode haver
efeito sem causa que o produza.
Por esta razão, qualquer ser sem princípio, não é reconhecido pelo
nosso cérebro.
Apesar de ser explicável, o cálculo
preciso que torna possível as viagens espaciais, é simplesmente ininteligível
a um matuto. Para as incógnitas do universo, assim como diante dos mistérios
de Deus, os maiores sábios não passam de matutos. A distância que
separa um iletrado de cálculos matemáticos sofisticados é milhões de vezes
menor do que aquela que separa o maior dos sábios do intrincado mistério do
aparecimento da vida e de Deus.
Nossa inteligência é limitada: só
vai até determinado ponto. Daí para frente, tudo fica obscuro e misterioso.
Isto não significa que não tenha explicação, mas sim que nossa inteligência
não foi programada para traduzi-la.
Se não podemos explicar, por que
ficar cismando em vão, perdendo horas e noites com algo impossível? Como
aquela pessoa pobre e humilde, deixemos o barco singrar pelas águas tranqüilas
de nossa limitação. Será perigoso metermos nosso caíque de compreensão
pelos mares revoltos dos mistérios. Vivamos nossas vidas com tudo quanto temos
direito, porque querendo ou não, o que tiver que ser, será.
É importante que saiamos da cama
como as aves de seus poleiros: alegres por um novo dia. Sem prejudicar ninguém,
vamos à luta, sempre com a simplicidade dos passarinhos que cantam alegres em
cada dia que amanhece.
Estamos aqui: Deus existe. A máquina
jamais explicará o engenheiro, mas o engenheiro gosta e cuida do que faz.
Quando uma de suas máquinas dá problema, ele procura arrumar e só desiste
mesmo quando percebe que não tem jeito. Acho que isto é uma conclusão que
deve nos tranqüilizar... um pouquinho... ao menos.
MÃOS
ESTENDIDAS
VÉSPERA
DE NATAL
Há muitos anos, ali no Calçadão
da Getúlio Vargas, vejo uma velhinha maltrapilha e cega, sempre com os braços
estendidos à cata de algum centavo para sua sobrevivência. Se alguém se der
à curiosidade de vigiar, verá que é muito raro alguém parar para depositar
qualquer moeda em suas mãos enrugadas.
Mais uma vez se aproxima o Natal, o
dia do nascimento do Filho de Deus, o surgimento da esperança dos desvalidos,
fracos e oprimidos. Mesmo assim, sem nada mudar, lá está a velhinha, olhos
infeccionados e cegos, de mãos estendidas, implorando aos transeuntes, a
caridade de um prato de comida. Há quantos natais aquelas mãos estão ali
estendidas?!...
Pelas ruas, as pessoas passam,
aglomeram-se: aproxima-se o mais lindo dia da Terra. Mãos abarrotadas de presentes,
gente se acotovelando, quase pisando na pobre velhinha de mãos estendidas. Ela
nada mais representa que estorvo àqueles que estão pensando nos filhos, no
pai, nos parentes... e, por incrível e paradoxal que pareça, talvez em Jesus
Cristo.
— Uma esmola pelo amor de Deus!
— brada ela incansavelmente, mas as pessoas
parecem não notar a sua presença. Como formigas-correição que se
desorientam se mexermos em sua trilha, as pessoas andam de um lado para outro à
procura do CAMINHO, sem imaginar que o cruzam a todo instante. Ela não passa de
um instrumento de Deus, uma oportunidade constante de praticarmos a caridade.
Entretém-se escutando o falatório e o roçagar das saias de seda.
Não sabe ela o motivo de toda
aquela correria, daquela euforia, daquela algaravia que se forma a seu redor.
Ah, pudesse ela entender que tudo aquilo era porque se aproximava o dia em que
Jesus, que tanto demonstrou sua opção pelos desvalidos, fracos e oprimidos,
iria aniversariar! Soubesse ela e se ergueria às cambalhotas para gritar
como Bartimeu: "Filho de Davi, tem misericórdia de mim"!
Mas ela também é uma de nós: anda
cega, sem fé, tendo a felicidade, a paz e tudo quanto deseja em suas mãos, mas
preferindo a cegueira e as lástimas de uma pedinte sofrida: "uma esmola
pelo amor de Deus!"
Os sinos repicam, o planeta todo está
em festa, bilhões de lâmpadas coloridas piscam pelas cidades e catedrais,
corais entoam hinos de alegria... Até parece que todos os miseráveis do mundo
já não existem e que a felicidade se trancou dentro de nossas casas, na troca
de presentes, na comida farta, na bebida que alegra. Ninguém percebe, porém,
que o nosso presépio está vazio, que o berço está frio e que Jesus,
certamente, está tremelicando debaixo de uma marquise ou nos calçadões das
cidades, com as mãos estendidas, implorando a caridade de um prato de comida.
Quem quiser ver, com certeza, o
Menino Jesus renascido, não vá às igrejas e catedrais, mas sim aos ínfimos e
imundos guetos das cercanias, naqueles lugares onde nosso egoísmo empurrou os
verdadeiros filhos de Deus e irmãos de Jesus. É de lá que estará ecoando a
cada segundo, o grito comovente do cego de Jericó: "Jesus, Filho de Davi,
tem misericórdia de mim"!
Escolha um presentinho qualquer e dê
a uma criança abandonada. Se assim o fizer poderá vangloriar-se de ter visto
no dia 25 de dezembro, o Menino Deus recém-nascido. Nos presépios das igrejas,
nas comemorações pomposas onde refulgem luzes e extravasam cores, certamente,
o Menino pobre de Belém não estará. A quem duvidar é bom que leia o Sermão
da Montanha. Ele foi proferido pelo Homem mais importante da humanidade, cujo
aniversário iremos comemorar em breve.
DEUS
E OS HOMENS
Deus existe. A verdade mais fácil
de se admitir na vida é a existência de um Ser Superior. É infantil demais
admitir-se que tudo quanto há sobre nosso planeta e acima dele se fez por mero
acaso. Só mesmo quem nunca observou a natureza ou olhou para os céus com espírito
perscrutador, poderá afirmar tamanha tolice.
A tão apregoada evolução de
Charles Darwin, embora tenha papel
relevante na elucidação de muitos aparentes mistérios, não chega, sequer, a
estremecer a certeza da interferência divina na construção do mundo em que
vivemos.
Há sempre por detrás do que se diz
incrédulo, uma tentativa vã de justificar seus deslizes, fraquezas e
interesses. A probabilidade de a vida
ter surgido e chegado ao ponto em que se encontra, por casualidade, é
semelhante à admissão de que, em se jogando todas as letras do Dicionário Aurélio
ao vento, elas possam, ao cair, reconstituí-lo novamente por inteiro, sem uma
única falha.
É bem verdade que as tentativas que
se registram pelo infinito e pela eternidade são incontáveis, mas mesmo assim
não conseguem ultrapassar a barreira do impossível.
Apesar de em minha adolescência eu
haver contestado a onisciência de Deus ao demonstrar o não entendimento pelas
coisas que imaginava injustas, jamais duvidei, ao olhar em torno de mim, que
ALGUÉM, muito inteligente, tivesse engendrado tudo isso.
Foge-me, hoje ainda, ao
conhecimento, as razões que levaram o Senhor do universo a extirpar de nosso
raciocínio toda e qualquer fórmula científica plausível que pudesse,
se não dirimir, ao menos arrefecer as afirmações de: um Deus sem princípio
e sem fim; uma seqüência de galáxias sem limites e, principalmente,
seu amor inexplicável a nós, ínfimos seres. O amor de Deus para com os
homens é, a meu ver, o maior de todos os mistérios. Não consigo entender que
Ele tenha descido de sua morada, submetendo-Se à morte mais humilhante da época
— a crucificação — simplesmente para nos dar a chance de sermos
eternamente felizes. Sinceramente, isso não cabe em meu entendimento!
Hoje, vivendo a era da eletrônica
com seus computadores sofisticados, sinto os seres humanos como se fossem essas
máquinas, porém, com um programa limitado de informações
que impossibilita o entendimento dos mistérios.
Somos, então, obrigados a ver e a
concluir apenas, sem jamais provar nada. Deixou-nos Ele a fé, esta característica
singular dos seres privilegiados. Sem esta graça duvidaremos sempre dos mistérios
e passaremos a crer, apenas, naquelas coisas que a ciência pode provar.
Não duvido da existência de Deus,
mas não consigo entender "que tenha tempo a perder" com
esse nada que somos nós. Que seremos
diante de um ser poderoso que criou trilhões de galáxias, cada uma
longe da outra bilhões de anos luz, com a luz, no vácuo do infinito,
caminhando a trezentos mil quilômetros por segundo?
Se os americanos, para enviarem Neil
Armstrong em julho de 1969 à lua, já consideraram uma proeza ímpar, como
alcançar os demais planetas dos
sistemas planetários de outros sóis? Isto deve representar bem nossa
capacidade ou a nossa diferença com Deus e também justificar o porquê de eu
considerar a Sua morte por nós, o maior de todos os mistérios.
Entendo, pois, que Deus existe, mas
fico confuso ao me deparar com a grande fé dos que acreditam piamente que Ele
se preocupa ou "tem tempo" para se inquietar com cada um de nós.
Parece-me mais lógico termos sido criados e avisados das leis que devem nos
reger para conseguirmos um outro mundo melhor. Neste caso, vigoraria,
plenamente, a lei da liberdade total, com cada um escolhendo a própria sorte.
DEUS:
UM SALTO NO ESCURO
Relata-nos Heródoto, histórias
milagrosas dos mais diversos povos, das mais variadas crenças e religiões.
Entre elas, a de Creso, rei dos Lídios, considerado um dos homens mais ricos de
sua época. Quando os oráculos o aconselharam a investir contra Ciro, rei dos
Persas, ele acreditou. Foi derrotado, preso e posto por Ciro sobre uma enorme
fogueira para ser queimado vivo.
Apesar de rico, Creso era um homem
muito sensível e amante das verdades morais e filosóficas. Amigo e admirador
de Sólon, dizia não trocar os ensinamentos do sábio grego por riqueza alguma
deste mundo.
Quando o fogo foi ateado, ele
homenageou o mais sábio legislador ateniense, bradando que, mesmo os reis ricos
e poderosos, eram passíveis de castigos; que tudo era passageiro e que somente
as virtudes enalteciam o homem e eram imperecíveis.
Estas palavras comoveram
profundamente o rei persa que ordenou que apagassem a fogueira. O fogo, porém,
se tornara incontrolável. Diante da emoção geral dos que assistiam ao ato, e da fé pessoal, o rei mais rico
da antiguidade implorou a Apolo que o livrasse daquela morte horrível. O céu
que estava claro, conturbou-se em minutos, trazendo trovões e fortes chuvas que
apagaram as labaredas. Diante do acontecido, Creso passou da condição de
vencido condenado à morte ao importante cargo de principal conselheiro do
vencedor.
No livro de Jonas, a Bíblia nos
relata que ele, Jonas, foi engolido por um enorme peixe, ficando em seu ventre
durante três dias e três noites, sendo depois vomitado numa das praias da Assíria
a fim de que promovesse a conversão de Nínive. O próprio Jesus confirma isso.
Percebemos assim, desde os primórdios,
a ansiedade dos seres humanos quanto ao transcendental. Centenas de seitas e religiões foram
sendo criadas, cada uma dizendo-se dona da verdade e apresentando em sua propagação,
milagres estonteantes, ações que só são concebíveis a Deus. Afinal, Apolo
também tinha poder para ordenar que do céu caísse
chuva e que as nuvens obedecessem?
Nós,
católicos, acreditamos que, por ordem de Deus, Jonas passou vivo, três dias e
três noites no ventre de um peixe; acreditamos que Lázaro, morto
há quatro dias, já em estado de putrefação, por ordem de Jesus,
ergueu-se do túmulo para espanto de todos quantos estavam lá; acreditamos,
enfim, em todos os milagres relatados pela Bíblia e por nossa Igreja.
Tornamo-nos cépticos ou mesmo não
acreditamos quando homens, de crenças pouco ortodoxas, relatam que foram
contemplados com os benefícios do deus deles. Hoje, com raríssimas exceções,
todo ser humano acredita que há um só Deus, criador de todas as coisas. Como
explicar, então, para não citar outros, o milagre relatado por Heródoto?
Houve tempos (e talvez ainda os há)
em que a preocupação maior dos chefes religiosos era impor sua doutrina,
buscando a hegemonia de seu Deus. Em nome, então, de um Criador Bom e Justo,
foram cometidas as maiores maldades e injustiças que podemos imaginar. Nem as
coisas de Deus foram poupadas do interesse político dos homens.
Por essa razão só nos resta apelar
para quem criou tudo isso, independentemente de denominação, e pedir a Ele que tenha pena de nós —
humanidade desorientada. Não importa que seja chamado de Jeová, Alá, Lua,
Apolo..., importa sim, que no coração do homem que pede, resida a fé num Ser
Superior Único.
Entendo
que quando Creso implorou a Apolo; quando os índios pediam socorro ao sol ou a
lua; quando qualquer ser humano, antes da vinda de Jesus Cristo, contritamente
pedia socorro aos céus, Deus Pai, considerando os tempos, não levava em conta
os apelidos com que era chamado.
Agora, em pleno século XX, diante
de um presente religiosamente ainda indefinido, olhamos aturdidos para o passado
e não encontramos o fio da meada para o futuro. Sentimo-nos num pináculo em
noite escura,
esperando a hora de saltar sem estarmos certos do lugar onde iremos cair.