NUVENS PASSAGEIRAS

CONTOS, CRÔNICAS E OPINIÃO

10º LIVRO - PRIMEIRA PARTE

Cada IDÉIA que alimento

Cada personagem que crio

Cada frase é uma nascente

Cada livro, um caudaloso rio.

 

O canoeiro que por ele navega

É o leitor que atento lê

É aquele que nota as pedras

E fica de sobreaviso

Esquiva-se das correntezas

Evita as cachoeiras

e ancora pensativo.

 

Cada palavra é uma célula

Do autor que a escreve

Cada personagem é o escritor

que nos momentos de dor

camuflado aparece

Para dizer o que padece

Em tom de revolta ou de amor.

 

E o canoeiro navegante

Que um dia por ali passou

Só lançará novamente a canoa

Se a lembrança lhe ascender

A  fome de esperança

Ou o  desejo  de aprender.

 

APRESENTAÇÃO

            Passo a passo, devagarinho, às vezes claudicando, às vezes me arrastando ferido, caminhei literariamente até aqui. Já me deparei com grandes obstáculos e ferrenhos críticos: hostes que me imaginavam ameaçador e orgulhoso, mas que tão logo perceberam o equívoco, afrouxaram a resistência. Nada de ressentimentos: não houvesse eu passado sob a marquise, não teria o caibro caído sobre minha cabeça.

            Aos humildes, a investida dos que criticam, ainda que maldosamente, sempre se transforma num grande benefício. O inimigo sincero ajuda mais o humilde, do que o amigo fingido. Como há quinze anos, aqui estou, mais determinado que nunca em alcançar o objetivo de um dia, se for a vontade de Deus, tornar-me um modesto escritor.

            Nossos anseios e desejos são como sementes de relva: de milhões, apenas algumas acontecem. Por isso, como criança que tem tudo a aprender, vou estudando, atropelando a sintaxe, examinando as críticas e seguindo os conselhos, — vou semeando — na esperança de que algumas sementes brotem, cresçam, sejam boas e frutifiquem. Se alguma nascer, se se tornar uma árvore, se der frutos, que sejam frutos de fé e de esperança. Se não, que o sol do amor de Deus a queime antes de germinar.

            NUVENS PASSAGEIRAS, não passa de mais um round de minha luta difícil e infrene para errar menos. Embora cheio de hematomas e escoriações, mantive-me de pé por nove assaltos. O adversário é forte, quase imbatível, mas com minha tática de humildade ensinada pelo Técnico Divino, pretendo vencer. Se não posso voar, caminho: também andando espero chegar.

         Este livro contém artigos diversos nos quais exponho minha maneira de ver o mundo e as pessoas. Explorei cada emoção de minha alma: revolta, felicidade, fé, planos, tristeza, utopias, devaneios, imaginação, dúvida, alegria, humor, saudade, esperança, desabafos, desilusões, fraquezas..., tudo transcrito honestamente. A fé é, para mim, a prioridade, o ponto marcante, a presença e o poder quase total de Deus em nós. A convicção sincera, o caminho certo para consegui-la. Por causa disto a persigo ferrenhamente. Afinal, seria insensatez desistir ou voltar agora.

         Paulatinamente vou progredindo nessa longa estrada. Durante quarenta anos li e pensei bastante a respeito de como tudo começou e, também, de como tudo irá terminar. Queria saber tudo e logo. Perto da loucura desisti da pressa, respirei fundo, afrouxei os passos e, ainda hoje, sigo com sensatez e determinação.

         Retornar será extremamente arriscado: não chegarei a tempo. O prazo urge. Depois de concordar e discordar intermitentemente de muitas verdades, depois de me assentar cheio de dúvidas na encruzilhada dos tantos caminhos, acabei por erguer-me e tomar um deles. NUVENS PASSAGEIRAS, ainda que nas entrelinhas, mostra como estou vendo, agora, as pessoas, a natureza, as religiões, as crenças, a fé, enfim, como me sinto nesta inter-relação.

         A cada mês que passa, mais burilo minhas convicções. O dia em que eu encontrar a verdade suprema e absoluta, ou me convencer honestamente de alguma mentira, estarei certo de haver posto termo em minha caminhada. Avalizo o Talmude quando diz que, aos olhos de Deus, a boa intenção vale tanto quanto as ações. Não tenho mais a pretensão de entender os desígnios de Deus, mas de apenas aceitá-los.

         Há situações em que não há como desistir, como retornar. Sentimo-nos como alguém que se mete por um buraco estreito e que vê no prosseguimento, sua única esperança de sair. Foi assim que me senti ao tentar entender os mistérios de Deus. Sei que não devia ter entrado, que não havia necessidade de tamanha incúria, mas me enfiei por ele no afã da liberdade. Entrei e, sem poder retornar, ainda hoje continuo me arrastando na esperança de encontrar a saída.

            Cada livro que lanço faço de meus personagens, solidários cirineus, confidentes de minhas dúvidas. É através deles que pretendo encontrar a saída. Nela, um dia, com certeza, dar-se-á O ENCONTRO: tema preestabelecido do livro que, com a graça de Deus, pretendo escrever um dia com a pena de minha alma..., apresentando-o como testemunho de minha vitória e de minha própria salvação.

 

DEDICATÓRIA:

À Corina

         Vinte e cinco anos juntos! Não foram vividos no amor épico imaginado por Shakespeare, nem nos fracassos, traições e desafetos das novelas modernas. Foram simples e heroicamente vividos. Juntos lutamos, sorrimos e choramos. Juntos vimos os anos passarem, os filhos crescerem, as rugas sulcarem nossa pele. Hoje, com os corpos cansados, mais velhos e dependentes, precisamos um do outro. Este livro representa duras horas de sono e de trabalho: é coisa simples — podemos dizer: não é nada — mas é tudo que pude fazer dentro de minhas limitações. Ofereço-o, carinhosamente, a você.

 

POR QUE NÃO DESISTIR

O caçador que se perde não pode descansar enquanto não reencontrar a picada. O fraco que, desesperado entregar-se, covardemente perecerá no lugar.                   

O autor.

 

A MENINA, O SORRISO E A LÁGRIMA

         Quando a conheci, era simplesmente uma criança. Viera, com os pais, de algum lugarejo de Goiás: não me recordo o nome agora.   Pele rosada, extrovertida de nascença, saudável como uma corsa das campinas. Tomava-a nos braços e, meneando o corpo, corria com ela acavalada no cogote, saltando como um potro arredio o faz ao sair espicaçado de um curral de rodeio. Ela ria, dava gargalhadas diante do perigo de domar um cavalo —  devia imaginar — louco. Se eu parasse, ela estalava a língua contra o céu da boca e depois instigava-me atropelando as palavras:

         — Mazi, mazi, pula mazi, meu cabal!...

         Ah, o tempo!, esse remédio para a dor e veneno para a felicidade! Devagarinho ele foi passando, corroendo, destruindo sonhos e fantasias, fazendo daquela menina pura e feliz, uma jovem pobre e desiludida. Depois disso, muitos anos se passaram sem que a visse, e por causa dos malefícios causados pelas agruras da vida, quase não  reconheci mais a filhinha de olhos vivos de meu vizinho de outrora. Empreguei-a como cozinheira numa frente de serviço que mantínhamos a quatrocentos quilômetros daqui. Ela ficou mais dois anos trabalhando com a gente. Quando encerramos o serviço, foi embora.

         Durante mais de cinco anos, em qualquer bate-papo, se as recordações daquele tempo sobreviessem, comentávamos sobre o desaparecimento da Maria, a cozinheira, então, de olhar tristonho, que passava o dia cantando a versão de HEY JUDE, de Lennon e McCartney. Ainda pareço ouvi-la enquanto mexia nas panelas: "Ei, tu, não fique assim! Sabe, a vida ainda é bela. Esqueça de tudo que aconteceu, amanhã será um novo dia..." Ela gostava tanto desta música que, certa vez, toda acanhada, pediu-me para que lhe comprasse uma fita e gravasse, toda ela, com "EI TU". (Era assim que ela a conhecia).

         Dissera-me que havia casado, amado como ninguém e sido vilmente traída pelo companheiro. Por isso, renovava a esperança quando, quase chorando, entoava: "Ei, tu, pra que chorar por alguém que não te ama? Se o mundo agora te faz sofrer, tudo vai passar, você vai ver. Muita coisa vai fazer você mudar; não tem mais razão de ser, esta tristeza. Se alguém te faz sofrer, pra que lembrar? Mais vale tentar viver de esperanças..."

         Hoje, enquanto dirigia pelas ruas de Imperatriz, tendo ao lado dois colegas de trabalho daquela época, por estranha coincidência, liguei o rádio no exato momento em que começava a música de que tanto a Maria gostava. No mesmo instante lembramos dela e comentamos o chá-de-sumiço que tomara, desde que os trabalhos da CIAMA  foram concluídos.

         Ainda antes que um de meus companheiros completasse o comentário de que, a última vez que a havia visto fora há um ano e oito meses, e que na  época ficara penalizado com o estado em que a mesma se encontrava, eis que, surpreendentemente, a vimos caminhando pela calçada da Avenida Getúlio Vargas.

            Estacionamos o carro e fomos falar com ela. Fitou-nos num misto de surpresa, alegria e dor: dor por reminiscências cravadas no coração, agora vivenciadas por nossa presença. Aquela criança bonita, cheia de vida, alegre e que nunca imaginara a crueldade das pessoas, agora estava pálida, sorriso tristonho, olhar sem destino, vadio. Percebi que seus olhos umedeciam na desesperança de refazer a vida, de ver um novo sol nascer, de recomeçar tudo pela garupa de seu "cabal", e então, para sufocar a emoção angustiante que se formava, corri para o carro, abri a porta, aumentei o volume do rádio, alcançando ainda as últimas estrofes:

         "...olha pra mim, veja o dia como está lindo, esqueça de tudo o que já passou, amanhã será um novo dia. Muita coisa vai fazer você mudar, não tem mais razão de ser, esta tristeza. Se alguém te faz sofrer, pra que lembrar? Mais vale tentar viver de esperanças."         Aí, então, ela baixou a cabeça e começou a chorar, de fato.

 

AVE-MARIA

          Somos treze irmãos, todos nascidos na roça, no interior norte do Espírito Santo, hoje, Governador Lindenberg. Todas as tardes, minha mãe reunia a família em torno de um velho rádio, sintonizava a Tamoio do Rio de Janeiro e nos fazia ajoelhar para ouvir a Ave-maria. O apresentador Júlio Lousada, com seu timbre grave de voz, emocionava: "Seis horas da tarde, ouvinte amigo; que a paz da Virgem Maria encha de graça seus lares e que as bênçãos de Deus invadam seus corações, hoje e sempre."

         Ainda quando pequeno minha mãe  amamentava-me ouvindo a Ave-maria. Fui crescendo, crescendo e enquanto vivi sob a expensas da família, nunca deixei de me ajoelhar às 18 horas, juntamente com todos meus irmãos, bem juntinho do velho rádio.

         O tempo foi passando e quando mais tarde me casei, resolvi tentar a vida sozinho. Saí de casa e fui aprender o ofício de dirigir caminhões pesados — sonho que sempre fez parte de minha juventude. Achava lindo e emocionante ver alguns rapazes, meus amigos, chegarem à vila buzinando seus carros enfeitados com faixas e penduricalhos em cores berrantes. As meninas suspiravam por eles como se fossem verdadeiros gênios ou heróis.

         Mesmo longe de minha mãe e do restante de minha família — se viajava — nunca deixava de ligar o rádio do caminhão na Tamoio, todas as tardes, às 18 horas. Se estava fora, achegava-me perto de um rádio qualquer e pedia ao proprietário a que me deixasse ouvir as palavras de Júlio Lousada. Era uma fé condicionada, um santo e bom costume, e também, um grande respeito pelos ensinamentos de minha santa mãe.

         Tirei carteira profissional, consegui um caminhão e comecei a trabalhar. Meus irmãos e meu pai deram o jeito de comprar-me um Mercedes 1113 e com ele saí pelo mundo. Trabalhava dia e noite, o tanto que minhas forças suportavam, a fim de não atrasar o pagamento das malditas prestações.

         Na véspera do Natal do ano de 1959, vinha eu pisando fundo para chegar em casa e passar o dia em que se comemorava o nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus, juntamente com minha mulher e, então, meu filho recém-nascido.

         Muitos quilômetros separavam-me de Governador Lindenberg e apesar de todo  esforço, a tarde vinha caindo, vagarosa, mas implacável. Eu queria chegar, eu precisava chegar! Levava comigo presentes para minha esposa e estava certo que ela, sofregamente, vigiava a curva  onde eu devia aparecer, acionando fortemente a buzina a ar.  Aqueles pensamentos enchiam meu coração de saudades e apreensão.

         Comecei a subir a Serra do Pinga-fogo. Ela é íngreme e comprida, famosíssima por sua altitude e curvas perigosas. Aproximava-me da atual cidade de Venda Nova do Imigrante. O caminhão, em primeira marcha, subia lentamente. O barulho estridente, e ao mesmo tempo monótono do motor,  associado ao extremo cansaço em que me encontrava, fez de mim uma presa fácil do sono: o sono da morte.

    Hoje, quando relato isso, ainda sinto um arrepio me  varrer a espinha e não posso impedir que meus olhos se molhem de lágrimas. O certo é que em determinado momento, o sono fez-me deixar o caminhão à deriva de seus caprichos, em plenos mil metros de altitude, com despenhadeiros ao lado capazes de tornar em poeira a mais bruta máquina que por eles despencasse.

         Estando a dormir, sobreveio-me um rápido sonho. Nele eu vi minha mãe se achegar à varanda e gritar desesperada para mim que pescava num riacho, distraidamente: "Marinho, Marinho, venha logo, venha correndo! Já vai começar a oração da Ave-maria."

         No mesmo instante eu acordei e vi que meu caminhão saía da estrada para se precipitar num dos tantos despenhadeiros sem fim. Pisei automaticamente no freio e ele parou de chofre, ficando a balançar entre a estrada e o precipício. Olhei no relógio e eram, exatamente, 18 horas. Percebi que havia acontecido um milagre e que não foram em vão a persistência e a fé de minha mãe durante aqueles tantos anos. Liguei o rádio imediatamente e ouvi  as primeiras palavras de Júlio Lousada: "... porque se estás com Nossa Senhora, nada de mal poderá acontecer-te."

 

A ÁGUA MILAGROSA

Conta-se que numa paróquia do interior vivia um sacerdote humilde e pobre que se tornara milagroso por causa de sua "Água de São Geraldo". Nunca se soubera, até então, a fonte onde o velho sacerdote apanhava a tal água que possuía a força intrínseca de resolver contendas e acabar com velhas e constantes discórdias entre as pessoas.

         Naquele tempo, segundo a história, casou-se um jovem intempestivo que, embora muito religioso, não  conseguia dominar seu gênio terrível. Sua maneira impulsiva de reagir a qualquer contratempo estava prestes a dissolver seu matrimônio. O escândalo parecia iminente, já que, por aquelas bandas "o casamento continuava a ser um sacramento indissolúvel".

         Todas as noites ao regressar de seus afazeres, o homem o fazia com os nervos à flor da pele. Se não encontrasse a toalha ou qualquer objeto no lugar desejado, começava logo a reclamação. Já cansada de toda aquela impertinência, a esposa reagia, advindo daí um discussão sem precedentes. E de tal forma o problema foi se agravando que, certo dia, após o jantar, a mulher, tomando a palavra cheia de aflição, disse ao marido que iria para a casa da mãe dela,  pois não suportava mais tanta incompreensão e nervosismo.

         Um vizinho amigo, ouvindo o bate-boca acirrado, acorreu solidário:

         — Caros amigos: estou sabendo que a coisa não anda nada fácil por aqui e o zunzum que corre é que os prezados pretendem a separação por incompatibilidade de gênio.

         — É verdade! — suspirou o homem — ninguém consegue viver com uma pessoa relaxada como minha....

         — Relaxada, vírgula! — retrucou a esposa ofendida. Você, com esta sua petulância...

         — Por favor, tenham calma, escutem-me um minuto apenas. Conheço um velho e santo sacerdote que possui uma água milagrosa, capaz de acabar com qualquer desentendimento, principalmente entre marido e mulher.

         Os dois quietaram um pouco e depois de ouvir o vizinho, concordaram em procurar o velho ministro de Deus a fim de conseguirem, em última instância, a tão propalada "Água de São Geraldo", capaz de acalmar os ânimos mais acirrados e promover a compreensão e a concórdia. Dias depois foram falar com o velho sacerdote.

         Quando chegaram ele estava ajoelhado num tosco genuflexório, passando vagarosamente as vistas cansadas sobre as orações matutinas de seu missal, ainda em latim. Ouviu-os atentamente e observou:

         — Apenas um dos dois precisa usar da água e vou optar pela esposa. Por favor, acompanhe-me — falou designando-a com o olhar.

         Lá dentro da sacristia, o velho sacerdote explicou:

         — A Água de São Geraldo é de fato milagrosa, desde que se observe rigorosamente sua maneira de ser usada. Todas as vezes que seu marido chegar em casa nervoso e começar  arreliar, você deve colocar um pouco da água na boca e segurá-la sem que  vaze uma só gota. Não poderá engoli-la também . Tão logo seu marido se acalme e cesse de acusá-la, você deverá ir até seu quintal e jogar a água que estiver na boca numa plantinha de sua estimação. Verá que quando o litro secar, ou mesmo antes disso, seu esposo chegará em casa calmo e compreensivo. O milagre terá acontecido.

         Embora duvidando, a mulher assentiu. O velho sacerdote foi sozinho ao fundo do quintal e encheu o litro com água comum da torneira que utilizava para molhar as parcas flores do jardim. Voltou e, cerimoniosamente, entregou-o à mulher que incriminava o marido como único culpado.

         — Muito cuidado    recomendou — se a água derramar, coisas piores poderão advir.

         Dois meses depois os dois voltaram cheios de gratidão e felicidade:

         — O senhor é, de fato, um padre santo. Deus lhe pague o que fez por nós. Agora, por favor, mostre-nos a fonte dessa água milagrosa. É injusto privar tantas pessoas que dela precisam.

         O sacerdote, sorrindo, levou-os ao fundo do quintal, mostrou a torneira comum que utilizava para molhar as plantas do jardim, e explicou:

         — Filhos, a água nem sequer foi benzida. Na verdade, quando uma pessoa está nervosa, ninguém deve tentar convencê-la de coisa alguma, pois toda razão estará prejudicada. Por outro lado, ninguém, por mais nervoso que se encontre, ficará falando sozinho. Você, com a boca cheia d'água não podia revidar as acusações, e ele, sem o revide, acabava percebendo a estupidez de estar falando ao vento. Por isso a Água de São Geraldo funcionou mais uma vez — e irá funcionar sempre que um dos exaltados se calar dando chance ao outro de reconhecer a ignorância que toda violência acarreta. Agora podem ir em paz e que Deus os acompanhe.

 

 OS CRISÂNTEMOS

          Conta-nos a lenda que no sertão de um país bastante frio, morava uma família de camponeses. Como vivessem do amanho da terra, era comum o chefe da casa preocupar-se mais amiúde com as plantações, mormente nos tempos de neve e de tormentas. Numa tarde cinzenta de inverno, a temperatura caiu bruscamente e começou a nevar forte. O camponês, ao sentir que sua roça poderia ser dizimada pela intempérie, vestiu o sobretudo e foi verificar suas tenras plantinhas. O vento gélido soprava forte, criando uma verdadeira rajada de flóculos através dos campos.

         Ao retornar cansado, numa curva ainda mais fria, ouviu um gemido de criança que parecia agonizar. Achegou-se mais e deslumbrou no meio da neve, um menino pobre, seminu, que mal conseguia mover os bracinhos arroxeados. Surpreso e comovido, o camponês, num ato impulsivo, retirou a criança da neve, enrolando-a em seu sobretudo e partindo à pressa para sua casa.

         Lá chegando, colocou-a ao lado da lareira, enquanto sua mulher preparava qualquer coisa para saciar a fome daquele menino desamparado. Quando o mingau chegou, já a criança dormia profundamente e acharam por bem não acordá-la. Colocaram-na num berço e também foram descansar.

         Pela manhã, ainda antes de o sol nascer, acorreram curiosos, mas não o encontraram na caminha. Vasculharam, procuraram vestígios: nada.   Era como se o menino tivesse evaporado por encanto.

         No outro dia, domingo, por ocasião da missa, o camponês viu, pregada numa das paredes da capelinha, uma gravura do Menino Jesus. A semelhança daquela gravura com o menino que salvara deixou-o incrivelmente surpreso. Chamou a mulher e segredou-lhe o que estava imaginando. Ela, também, ao olhar para a gravura, ficou estupefata, mantendo-se boquiaberta como se estivesse vendo uma miragem do além.

         Na segunda-feira, ao voltar para o serviço, o pobre camponês não resistiu à tentação de examinar o lugar onde havia encontrado o menino. No mesmo lugar, por entre flocos de neve, dezenas de lindas flores coloridas e perfumadas, cresciam cheias de vida. O camponês, já não tendo mais dúvida alguma de que aquela criança que socorrera se tratava do Menino Jesus, colocou nos renovos o nome de CRISÂNTEMOS, que quer dizer, flores-de-cristo.

         Pois é, caros leitores, as lendas estão por aí, sempre avivando nossa sede de fé. De fato, o ser humano é o único animal que crê em Deus ou, ao menos, em alguma entidade superior e criadora de tudo. É um dó que existam seitas e crenças falsas misturadas à verdadeira religião. Elas são como o dinheiro e outras coisas falsas de estrita semelhança com as verdadeiras e que a tantos confundem e prejudicam. De qualquer forma Deus nos julgará pelas intenções e não pela religião que seguimos.

         Hoje o que me importa é lembrar que muitos "meninos jesus" são colocados em nossa porta, no nosso lugar de trabalho, na nossa cidade..., todos esperando nossa solidariedade e ajuda. Esses pobres, miseráveis, injustiçados, doentes... são verdadeiras graças de Deus àqueles que desejam se salvar. É por meio deles que na neve, nos cortiços, nos hospitais, certamente em todo recanto do mundo, surge-nos a oportunidade de fazer florescer milhares de crisântemos.

         Notemos quantos, em vão, batem à porta, imploram nosso socorro, solicitam emprego,  um prato de comida...

         Não é por outro motivo que em nossos dias seguintes, ao cruzarmos os locais onde nos solicitaram em vão, os encontramos áridos, inóspitos e vazios. Na verdade, quando fazemos a caridade, quando socorremos nossos semelhantes necessitados, em algum ponto do universo nascem crisântemos — ainda que nos recônditos de nossos corações, eles certamente nascem.

 

VOCÊ PODE SER DEUS

         Um dia ele se olhou no espelho e percebeu que se deixasse a barba e os cabelos crescerem, ficaria se parecendo, fisicamente, com Jesus Cristo. Puxa!, Jesus Cristo sempre fora seu herói, seu ídolo, seu Deus. Se toda sua admiração por Ele se convertesse em fé, certamente ele seria também Deus.

         Começou a não mais rapar a barba, nem tão pouco cortar os cabelos. À medida que eles cresciam, não só ele, mas qualquer um notava certa semelhança com os traços fisionômicos que os pintores deixaram de Jesus.

         Iniciou-se, a partir dali, um processo de transformação doentia: a cada dia ele ia se convencendo mais de que era a reencarnação do Filho de Deus. Deixou seus vícios, lia e relia a Bíblia e tudo o mais que podia sobre esse Homem que deu a própria vida para remir os pecados da humanidade.

         Aquele ser frágil que vivia nele, cheio de defeitos, de desejos escusos, de malícia, inveja e egoísmo, paulatinamente foi cedendo lugar a outro, cheio de compreensão e desprendimento. Mais um pouco e ele completaria os trinta anos. Seria a hora das pregações, de reapresentar ao mundo adormecido e ingrato, as belas e esquecidas leis do perdão, da justiça, da mansidão e da fraternidade. A idade chegou.

         Deixou sua casa onde já ouvia rumores de que estava mal da cabeça, e foi para as regiões semidesérticas do Nordeste. Na própria terra, pouco se consegue — lembrou-se disto como se estivesse em Nazaré, diante de conterrâneos descrentes: "Não é este o filho do carpinteiro?"

         Depois de quarenta dias comendo o que encontrava nos cerrados, apareceu numa vila do sertão nordestino. Sentiu muitas tentações, porque mesmo nos tresloucados, os desejos são fortes. Houve dias em que teve medo do que estava fazendo. Quis desistir, mas todas as vezes que se olhava no espelho, a semelhança divina incitava-o a prosseguir.

         Em busca de uma tábua de salvação que flutuasse no mar de corrupção, fome e miséria em que se encontrava o País, as pessoas sofridas da região, acorreram a ele cheias de esperanças. A notícia espalhou-se rapidamente por todos os recantos.

         O bispado reagiu, delegando uma comissão com o fito de demovê-lo daquele alucinado comportamento. Ninguém é mais incompreendido do que os idealistas, os predestinados, aqueles que chegam a este mundo antes da hora. Por causa destes pensamentos, não desistiu. Ele mesmo nunca soubera se era normal ou louco.

         Meses depois a Igreja Católica tomou posição definida e drástica: ou ele parava com suas pregações, ou seria, sumariamente, excomungado. Ora — pensava — quem poderá fazer isso a mim se toda autoridade de mim emana? Rogava mais uma vez ao Pai para que lhes perdoasse, porque apesar dos quase dois mil anos, "os rabinos" ainda não sabiam o que estavam fazendo.

         Numa tarde, enquanto pregava a uma multidão, subiu até aonde se encontrava, trazendo consigo um surdo de nascença, um sacerdote muito esperto. Interrompeu o sermão, desafiante:

         — Caros fiéis, o próprio Jesus afirmou que aqui só voltaria com sua presença física para julgar os vivos e os mortos, no Juízo Final. Este homem vive fora da realidade. É um autista que, por causa de problemas mentais, criou um mundo irreal e autônomo, e isto pode ser muito perigoso para suas almas. Trouxe aqui comigo o Joel, surdo de nascença que todos vocês conhecem. Vejamos se este jesus lhe devolverá a audição.

         Sem temer, o pregador retrucou em riste:

         — E se o Joel passar a ouvir, acreditará em mim?

         O sacerdote inquietou-se  sobremaneira, mas apesar da ameaça cheirar-lhe a "tentar Deus", não recuou. Estava mais que certo que o Joel continuaria surdo e que aquele homem seria desmascarado. Por isto, desafiou prepotente:

         — Não só eu, mas todos os que estão aqui, certamente, acreditarão que você é Jesus Cristo. Faz com que ele ouça os trinados destes galos-de-campina e acreditaremos.

         Tomando ares de intensa compenetração, o "tresloucado" foi  ao surdo e apoiando as mãos nos ombros dele,  fitou-o nos olhos, repreendendo o sacerdote:

         — Por que duvida? Acha isso impossível a meu Pai que está nos céus?

         Fez-se silêncio sepulcral. Sem saber ao certo o que estava se passando, e vendo diante de si uma figura que tanto já vira em folhinhas e igrejas, o surdo de nascença foi entrando numa espécie de transe, em seu mundo de ilusões e sonhos. Seu coração encheu-se de fé; sua alma transbordou de esperanças. Já não tomava sentido ao que se passava ao redor. Cada célula de seu corpo foi sendo invadida por uma força capaz de remover montanhas: a fé. Ele sim, entre todos, era o único que não tinha dúvidas de estar diante daquele que poderia livrá-lo da surdez: Jesus Cristo.

         E o lindo véu escarlate que naquela tarde encobria o horizonte árido, testemunhou, pelo milagre daqueles ouvidos que se abriram, os belos trinados dos galos-de-campina. De joelhos, rosto banhado em lágrimas agradecidas, o até então surdo, ascendeu aos céus um olhar comovente.

            O homem que se dizia Jesus Cristo não havia dito, pedido nem ordenado nada. O surdo havia se curado pela própria confiança. Então ele,  voltando à realidade, desceu a colina certo de que era o mais comum dos mortais, mas que poderia ser Deus sim, se conseguisse ter fé.

 

O FANÁTICO

         Apareceu um dia em minha casa um homem alto e magro, descalço e de roupas esgarçadas, barba e bigode crescidos, alguns dentes na boca. Era moreno, aparentava uns cinqüenta anos e refletia nos olhos castanho-escuros, um brilho estranho: desses que a gente só percebe nas pessoas desajustadas ou carismáticas. Uma grande cicatriz que se estendia da cabeça até à ponta do queixo, chamava a atenção.

         Muitas vezes já havia visto pessoas assim: todas apresentavam desvios psíquicos. Por isso, quando ele se aproximou, com toda sutileza possível, convidei-o a entrar e a sentar-se. Ele esfregou os pés casquentos e empoeirados na calçada, pediu licença e entrou. Percebi, então, que era quase careca, e que os cabelos remanescentes há muito não eram aparados. Perguntei:

         — O senhor deseja falar comigo?

         — Não sei — limitou-se a responder enquanto se entretinha com qualquer coisa que esfregava contra o chão com a planta do pé direito. Supus aí que aquele homem poderia mesmo ser um desajustado mental. Insisti:

         — Se veio aqui, certamente é porque tem alguma coisa a me dizer.

         — É que ando pelas ruas gritando pros home se lembrá de Deus e por isso me chamam de louco. Você acha que sô doido mesmo?

         — Não penso assim — arrefeci. Muitos dos que foram tachados de loucos no passado, hoje se afirmam como gênios nascidos antes do tempo. Quando alguém apresenta uma idéia diferente, um pensamento que não condiz com o conhecimento da época, logo é considerado anormal. Mas, entre loucura e genialidade, até hoje, poucos sabem da diferença.

         Sem dizer mais nada ele se ergueu e, cabisbaixo, contou uma rápida e triste história:

         — Eu morava no Centro do Toim, tinha muié e um fio. Uma noite, quando abri os zóios, vi um home de facão na mão, no pé de minha cama. Assustado, eu quis levantá, mas ele meteu o gume na minha cabeça. Só vi o facão que vinha e nada mais. Quando vortei do desmaio, vi minha muié e meu fio, tudo morto, picotados. Logo que vi o que tinha acontecido, panhei de uma faca de cozinha e quis metê ela na minha goela. Não consegui: tinha arguma coisa segurando minha mão. Eu oiei dos lado e não vi ninguém. Então eu entendi que era Deus que segurava, e que se não deixava eu me esgoelá era porque esperava arguma coisa de mim. Ai eu comecei a senti vontade de gritá pros home se lembrá de Deus. Acho que é isso que Ele qué de mim.

         Dizendo isto, rodou nos pés e foi embora. Apenas a silhueta fantasmagórica,  eclipsando-se na curva da estrada, ficou-me como lembrança.

         Alguns dias depois, voltando eu de uma viagem ao Pará, subi meu carro na balsa de travessia do Araguaia. Muitos passageiros se misturavam aos veículos. Era noite e chovia muito. Não havia luar, ventava forte e as águas estavam turbulentas. De repente, os solavancos das ondas arremessaram um caminhão para frente. Na confusão que se seguiu, uma senhora tropeçou e, na ânsia de agarrar-se ao corrimão, deixou que o filho de dois anos caísse nas águas tempestuosas.

         No meio do tumulto e do desespero, ela gritava para que acudissem. Seus gritos, porém, confundiam-se com a melopéia fúnebre de ventos uivantes e ondas agitadas. Foi então que ouvi uma voz um tanto familiar, a voz do lunático (?) que me visitara dias atrás. E sua voz sufocou a balbúrdia num grito épico de fé:

         — Carma, tenha fé, fios de Deus! Nada vai acontecê se Deus não quisé.

         A mulher desesperada, revidou:

         — Deus, Deus!... Meu filho caiu na água e tou certa que Deus não vai salvá ele.

         — Se Ele quisé Ele salva sim — respondeu o fanático, ou o homem de fé, não saberia precisar.

         Não fosse a feição ardente de um desvairado, dir-se-ia que a fé transmitida por sua confiança era palpável. A luz sem presteza vinda dos faroletes e de algumas lanternas alumiava o rosto transfigurado do homem que diziam louco ou fanático. Braços erguidos, olhos fixos para o alto, ele orou:

         — Deus do céu e da terra, nunca pedi pra mim nem pro meu fio o que vô pedi agora pro Sinhô: salva a vida do menino desta muié. Tire ele da água pra prová que aqui na terra as coisa só acontece se o Sinhô quisé.

         Fez-se silêncio tumular. Parecia que o homem ouvia uma voz desafiante. Depois de alguns segundos ele replicou anuente:

         — Eu vô no lugá do menino. É preciso prová, agora, que o Sinhô existe. Este povo todo pensa que sô doido porque sei que se o Sinhô quisé, esta criança vai saí viva do rio.

         E dizendo isto atirou-se nas águas escuras do Araguaia, deixando no ar apenas o marulhar das ondas agitadas e a escuridão das incertezas. Ninguém esboçou o menor gesto para salvá-lo: todos acreditavam que era louco.  Vivia pelas ruas das cidades gritando o nome de Deus e alertando aqueles que o ouviam para que não se esquecessem do Criador.

         A embarcação continuou singrando até encostar, enfim, na margem oposta. A mãe já não gritava: soluçava apenas. Um senhor comovido tomou-a pelos braços ajudando-a a descer. Quando ainda não tinha pisado o solo, ouviu-se um grito que vinha de um canoeiro que subia, misteriosamente, o rio:

         — Gente, nois pegô uma criança trepada num gaio de pau lá embaixo. Ela caiu daí?

 

O CHORÃO

         Todo pai de grande prole sabe que, apesar da mesma origem, os filhos não são todos iguais. Uns estão sempre irritados; outros morrem de preguiça; uns são destemidos; outros, covardes... Só mesmo quem tem uma grande família compreende essas vicissitudes incompreensíveis ainda ao nosso entendimento.

         Na comunidade, que é o agrupamento logo acima da família, também encontramos gente das mais diferentes índoles. Dizem que é por isso que o mundo é bonito. Vale aqui o velho provérbio: "Que seria do verde se todos gostassem do amarelo?"

         Dia a dia nos encontramos com gente de todo tipo. O mais interessante mesmo é o chorão, aquele que é sempre um incansável na arte de reclamar. É, tem pessoas que pensam sempre que estão levando a pior, que o vizinho, o pai, o sócio, o amigo, enfim, todos os que com ele vivem, o extorquem, exploram e sugam. 

         Era comum, nos meus tempos de criança, a visita de missionários católicos em nosso vilarejo, hoje, cidade de Marilândia. Esse acontecimento significava, na época, o que hoje talvez representasse a visita do próprio papa João Paulo II.  Mal o Jeep despontava lá no começo da vila, na fazenda do Luís Catelan, os foguetes espocavam, os vivas ecoavam pelo vale como se fossem as trombetas do Juízo Final, ou as cítaras, timbales, liras, e saltérios na locomoção do Tabernáculo Sagrado nos tempos do rei Davi.

         No almoço, muitas galinhas caipiras regadas a vinho de laranja, davam o toque típico da hospitalidade genovesa: particularidade preservada da saudosa península. Com a exceção da de Corpus Cristi, não havia naquela comunidade italiana, festa maior.

         Esses missionários não passavam mais que uma semana nas localidades que visitavam, mas era o bastante para não serem esquecidos até a próxima "inspeção", quase sempre, um ano depois. As penitências eram tão rigorosas e excêntricas que, às vezes, tínhamos a impressão de havermos sido condenados ainda em vida. Para se ter uma idéia, um coleguinha meu, por haver paquerado as cabritas do Eurides Canal, teve que rezar cinco terços com a estuprada nas costas. A turminha ficou tão assustada e cheia de escrúpulos que, até por lembrar das cabras, já interrompia a comunhão dominical. Não havia pecado mais horrendo.

         Numa dessas visitas, o padre Ponciano, missionário holandês aloirado, alto e de voz estridente, mandou que fizessem cruzes, tantas quantos eram os pecadores dispostos a sanar as dívidas para com o Todo Poderoso. Embora do mesmo tamanho, as cruzes tinham pesos diversos, já que eram feitas com as mais diferentes essências da região: bicuíba, paraju, baraúna, pau-sangue, jequitibá, caxeta... O paraju, por exemplo, só perdia pelo ébano africano, chegando a pesar mais de uma tonelada e meia por metro cúbico. As cruzes feitas  de  cedro e  vinhático, eram as mais leves, mesmo assim passavam de quarenta quilos cada uma.

         Chegada a hora, entusiasmados, os fiéis meteram as pesadas cruzes às costas e partiram. No começo, tudo pareceu fácil. Algumas horas depois, porém, já poucos não arrastavam seus pesados lenhos. A euforia não diminuía, pois com seu sotaque engrolado, o padre Ponciano não se cansava de lembrar a cada um que Jesus Cristo havia sofrido horrores por causa dos pecados que haviam cometido durante o ano.

         No meio da multidão havia um fiel, o Altino, proverbial em sua mania de possuir todos os sintomas de qualquer doença que se tivesse notícia. Era desses eternos reclamadores que todos nós conhecemos. Não foi preciso mais que alguns minutos de caminhada para que começasse a proclamar-se injustiçado por terem lhe dado a cruz mais pesada. Os demais, porém, seguiam quietos e resignados.

         Caiu a noite. A primeira etapa estava cumprida. Cada um arrancou do embornal um bom naco de polenta, puína e queijo e foi saciando a fome que parecia digerir o próprio estômago. Em seguida, cada um  foi se estirando pela pastaria. Fazia parte do sacrifício, a noite ao relento. O cansaço, no entanto, desvalorizou o sacrifício, pois em poucos segundos tudo o que se ouvia eram roncos e bufadas. Nenhum outro colchão de penas ou taboas seria, naquela noite, mais macio que o capim-pernambuco do chão. Extenuados fisicamente e aliviados espiritualmente, os camponeses dormiam e sonhavam, novamente, com as paragens celestiais.

         O Altino, porém, não conseguia dormir. Revoltado com a desdita de haver tocado a ele o lenho mais pesado, saiu de fininho e, apesar da escuridão, foi até aonde se encontravam as cruzes amontoadas. Com sua resistência debilitada funcionando como sensor  de qualquer grama, separou uma cruz que lhe pareceu de cedro seco, a mais leve de todas.

         Às cinco horas, embora um tanto escuro ainda, o missionário, com sua voz estridente e inconfundível, deu o toque tempestuoso de alvorada: "Vamus, pecatores, que las chamas do inferno estã acessas e..." O Altino levantou-se à pressa e, sorrateiramente, foi apossar-se do lenho que havia separado. Afinal, ninguém mais que ele sofrera tanto no dia anterior e não era justo pagar, sozinho, a conta daquele batalhão de pecadores.

         Imaginem a decepção dele quando, ao clarear plenamente, reconheceu na cruz que havia separado, a mesma que transportara durante todo o dia anterior.

 

OITO ANOS SEM ÁGUA

         Há quatorze anos, mudamo-nos de Linhares, no Espírito Santo, para Imperatriz, no estado do Maranhão. Entre familiares e funcionários, contávamos vinte e duas pessoas. Homens, mulheres, crianças..., toda a patota foi condensada dentro de uma única casa que não possuía mais que cento e vinte metros quadrados. Para diminuir o espaço, tínhamos ainda a companhia de gatos, cachorros, centenas de pássaros que eu trouxera do meu estado, um caticoco e mais o papagaio de estimação de minha saudosa mãe.

         O caxinguelê, tenso pelo celibato forçado de longos anos, mais a balbúrdia avessa a seus princípios naturais, passou a se tornar agressivo. No mesmo instante em que saltitava de um galho para outro — pois vivia solto — ele quietava, eriçava o rabo, emitia um tchac tchac característico e depois investia contra quem estivesse mais perto. A esposa de um de meus funcionários, depois do curativo na canela, assinou-lhe o atestado de óbito: numa trágica manhã ele apareceu com as tripas de fora.

         Os gatos logo debandaram para as bandas da Vila Lobão e entre cacetadas e pragas, somadas às perseguições ferrenhas de seus inimigos eternos, os cachorros, desapareceram.

         Os cachorros, por sua vez, um tanto desacostumados com o tráfego intenso de uma BR, terminaram seus dias sob as pesadas rodas de jamantas açodadas. Somente o "Cruck", papagaio de minha mãe, assistiu-nos a até pouco tempo, quando a crise forçou  um magote de pivetes a entender que não seria mau negócio, um velho "curupaco" que conseguia, com versatilidade impressionante, interpretar várias músicas de nosso folclore.

         Pois bem, todo esse preâmbulo serve apenas para traduzir nosso agradecimento a esta terra que nos deu a oportunidade de crescer e fazer sólidas amizades, pois foi aqui que, pouco ou muito, conseguimos aumentar nosso patrimônio a nível de classe média.

         Depois de uns tempos, construímos nossas casas. Em todas observamos o princípio de justiça, usando o mesmo tipo de material e a mesma metragem construída. Apenas o formato diferia. Por azar ou coisa parecida, as torneiras da cozinha e da área de serviço de minha casa pareciam entupidas: nelas a água era minguada, quase pingava.

         Nas de meus irmãos e também nas demais torneiras de minha casa, ela jorrava aos borbotões. Aquilo me dava uma inveja danada... e entreveros também, pois não é fácil ter que suportar em cada toque de torneira, o sermão de uma esposa afoita, sempre afobada e irritada com o almoço atrasado.

         Muitas vezes pensei em arrebentar tudo e examinar a causa, mas sempre concluía não valer a pena, já que os azulejos e cerâmicas que seriam danificados, não tinham similares no mercado. A casa ficaria remendada e feia. Oito anos passamos assim: a água pingando e a mulher com os nervos à flor da pele.

         Um dia, a bomba d'água deu problema. (Nosso sistema de água era particular). Trocamos por outra que também durou pouco. As torneiras que antes pingavam, secaram definitivamente. Neste comenos, chega minha mulher, indo diretamente lavar um copo ou um pires, não me lembro bem. Nada.

         Intempestiva de nascença, investiu furiosa:

         — Antes tivesse me casado com um bombeiro; pelo menos não teria que passar oito anos nesse sofrimento. Que diabo de homem é você que não dá jeito nesta droga de torneira?

         — Ao invés de desejar um bombeiro, deveria maldizê-los, pois foram eles que fizeram esta droga emperrada — defendi-me num repente.

         E no jogo pouco amistoso de palavras, acabamos por nos emburrar, cada qual realizando sua catarse em resmungos imbecis. Não satisfeita, minha mulher, depois de esgotados os recursos verbais, apelou para a desforra física, agarrando torneiras e canos e forçando-os pra todo lado. Não sei a razão, mas em cada torção de torneira, sentia meu pescoço doer. Estava certo que eles, altruisticamente, substituíam o meu lugar. Tudo que via e que imaginava ter ligação com água, não escapou. E foi assim que ela descobriu um objeto que há oito anos estava silencioso e abandonado num canto, ao lado do exaustor do fogão.

         Aquilo, amigos, estava ali há oito anos, fosco e empoeirado, untado mesmo pela gordura que escapava da aspiração, bem em frente ao nosso nariz, diríamos, rindo de nossa falta de raciocínio e observação. Aquela pecinha empoeirada, ali há oito anos, por cima do fogão, num lugar em que quase se batia com a cara ao se mexer nas panelas, aquilo..., bem, aquilo era um REGISTRO, e estava quase fechado desde a construção da casa.

         Quando o abrimos e a entrada de ar foi eliminada dos canos, o jato que se seguiu parecia querer descontar o atraso. Minha mulher e eu nos entreolhamos penalizados: não havia dizer.

 

 ATÉ NO CÉU HÁ FARSANTES

         No último fim de semana estive viajando por aí. Quase sempre minhas andanças restringem-se à fazenda ou similares. Nesses lugares, muito caboclo, muita gente simples e humilde. Durante o dia quase não os vejo, mas à noite, num banco tosco de madeira sob cajueiros e à luz do luar, ouço casos e histórias, as mais engraçadas e filosóficas possíveis:

         "Lá pras bandas de Machacalis, em Minas, tinha um home que morava perto do rio Grumará e esse home ganhava o sustento da famia plantando mio. As roça dele era sempre as maió da região. Cumo onde tem comida sempre aparece os bicho pra comê ela, logo os pássaro-preto invadiro a prantação.

         Vendo que seu mio era arrancado inté antes de nascê, o fazendero resolveu mandá o fio, que tinha dom, fazê um espantaio de vinhático, madeira mole, leve, faci de escupi. O menino era bom fazedô de boneco de pau e o espantaio ficô pronto em duas semana. Eles foro lá na beira do Grumará que cortava toda a prantação e enfiaro o tal boneco pra mode  espantá os passarinho.

         Numa noite quando as chuva do tempo apertaro, o rio subiu muito e carregô o espantaio que tava na bera. No amanhecê do dia o boneco tinha sumido e ninguém mais achô aquela coisa por bom bocado de tempo.

         Deixa que as água levô o troço mais de quinze quilômetro pra baixo e lá, num remanço que feis praia, por coincidença, o boneco ficô de pé, enterrado na areia até a cintura. Um matuto que primeiro viu aquela geringonça saiu espaiando a notiça dizendo que um santo havia descido do céu pra ajudá eles.

         Não foi preciso mais que meis pra que o santo desandasse a fazê milagre, livrando todo mundo das infermidade. Gente vinha de todo canto de Minas e inté de outros lugá mais distante e todo mundo voltava falando maravias.

         Deixa que o fabricante do santo caiu doente tombém. Embora a notiça do santo milagroso já tivesse passado por lá, eles nunca tinha ido vê. Já havia sido inté construído uma capelinha em vorta e pela marge do Grumará uma vila começava, com quiosque e tudo.

         Sem jeito do fio  miorá, o pai resorveu, um dia, arriá os animal e levá ele inté o santo milagroso. A viage foi difici, mas num domingo à tarde eles chegaro lá. A beira do Grumará estava parecia festa, todo mundo apinhado esperando a veis pra entrá na tenda dos milagre.

Manco arribava as perna, nego que não trabaiava de dor nas costa saía dando cabaiota pela areia, muié de corrimento saía do oratoro oiando o marido de lado. A fé aumentava cada veis mais  em cada milagre que acontecia. Foi inté que chegô a veis do menino entrá na igrejinha. Ele foi de cabeça baixa, cheio de confiança, pedindo, primero perdão dos pecados da mocidade sem muié pruque entendia que o santo não ia passá em caminho intupido, e sua foia corrida não era das mió.

         Ele se aproximô do altar com lágrima escorrendo na cara. Quando levantô os zóio e enxergô aquela coisa que ele mesmo tinha feito, pulou em pé como se tivesse sido curado. O pai que tava fora, socorreu agoniado cumu leitão de porca de muito fiote:

         — E aí, fio, ocê tá curado?

         — Pai!, — disse ele — a image que tá lá dentro é o espantaio que o sinhô mandô eu fazê pra mode  espantá os grumará do mio. Isto nunca foi santo não, pai!

         Daquele dia em diante nunca mais aconteceu lá um milagrinho siqué. Acho que aqueles que diz que  Deus somo nóis mesmo pro meio da fé estão com a razão pruquê enquanto o povo acreditava que aquilo era santo, mesmo sendo um espantaio de espantá grumará, os milagre acontecia. Depois que descobriro que era só um pedaço de pau véio,  a cabocada cacetô ele como se fosse o Juda da Semana Santa."

         — É — concluí — "para quem acredita, cabeça de peixe faz milagres"!

 

É DANDO QUE SE RECEBE

         Se os seres humanos fossem mais observadores, certamente  não  precisariam freqüentar  escolas para viver mais dignamente e em paz neste mundo. A própria vida, com suas nuanças e surpresas, é um professor constante a nos ensinar os segredos da boa convivência. É lamentável que apanhemos todos os dias por causa das mesmas incidências e jamais nos libertemos  das falhas, dos vícios, dos maus costumes e de toda prática  invirtuosa.

         É erro crasso imaginar que os ricos não precisam dos pobres; que o culto não aprende com o ignorante e que — como diz o matuto — o aviador não possa, um dia, precisar de um velho jegue. Sempre, enquanto existir vida humana no planeta, os seres humanos, sem distinção de raça ou cor, de riqueza ou pobreza, precisarão uns dos outros. A idéia de que não dependemos de nossos irmãos é a mais falsa que existe.

         Quando jovem, cheio de sonhos e ilusões, comprei um Rural Willis (embora isso deponha contra minha idade, devo dizer que esse tipo de carro não é mais fabricado). Aquele veículo, erroneamente, era uma das coisas mais importantes que eu possuía. Cuidava dele como, talvez, não cuidasse de mim.

         Naqueles idos comecei a namorar uma estudante do interior. Ela morava a uns sessenta quilômetros de mim e quando o fim de semana se aproximava, eu começava a dura tarefa de dar limpeza e brilho no meu Rural    a intenção era impressionar o quanto possível.

         Aquele sábado — apesar de distante — parece-me hoje. Lá ia eu devagarinho (nem a poeira queria que entrasse) quando percebi um senhor de cor negra que, de cacaio às costas, caminhava tropegamente pela estrada, acompanhado da mulher e mais três famélicas crianças. Entre a formação que me pedia para dar carona e a vaidade de chegar com o carro perfumado e limpo, venceu a formação. Eles entraram. Estavam sujos, fedorentos: sinceramente, não pareciam humanos. Meu impecável Rural ficou em situação deplorável. Na fazenda do então senador Lindenberg eles desceram e, com mil agradecimentos, entraram na capoeira. Adiante ficava a tapera em que moravam. A vida de muitos brasileiros — se desconhecem — é subumana.

            Quando olhei a sujeira interior de meu estimado carrinho e aspirei o ar fétido que entranhou em tudo, arrependi-me. Que iria pensar minha namorada?

            O que ela pensou, nunca me disse. De qualquer forma, aquilo não foi motivo para que me deixasse. Muitas outras viagens fiz para o interior, mais precisamente de Linhares para a, então, vila de Governador Lindenberg. A estrada, em boa parte, margeia o Rio Doce e quando chove transforma-se em verdadeira tortura para os motoristas.

            Numa de minhas viagens, voltava eu da visita. Eram vinte e três horas. A chuva surpreendeu-me no caminho. A estrada ficou lisa e perigosa. Num determinado trecho, o carro atolou. Eu estava só, e em volta, apenas capoeira, som intermitente de chuva, algum cricrilar apaixonado e um cenário de pirilampos que riscavam a escuridão como se fossem fagulhas de fogos de artifício. Acelerei o carro o quanto possível, na tentativa de sair daquele lugar ermo e fantasmagórico. Mais de trinta minutos vivi aquela agonia.

            De repente, como por encanto, vi que a luz de uma lamparina movimentava-se pela capoeira e vinha em minha direção. Fiquei apreensivo e, confesso, com muito medo. Como não tinha para aonde correr, aguardei os acontecimentos. Era um negro e sua mulher que, ouvindo o roncar do motor, vinha em socorro de quem ali estivesse. Rasparam o chão, empurraram, lutaram e lutaram em plena noite de chuva, até que meu carro saiu do atoleiro.

            Em estrada firme desliguei o motor e saí para agradecer. Qual não foi minha surpresa quando, depois de conversarmos um pouco e com a ajuda da claridade da lamparina, reconheci naquele "cirineu", o mesmo homem que há um ano atrás, com sua família, emporcalhara e empestara o meu carro numa simples carona.

            Entendi que, diretamente pela mãos de nossos semelhantes aqui nesta terra, ou indiretamente pelas mãos de Deus na outra vida, tudo que fizermos aos outros, um dia tornará a nós.

 

A TEIMOSIA DE UM CURURU

         Tudo começou quando resolvi criar inhambus no quintal. As inhambus fazem parte da família Tinamidae. São pássaros que vivem no chão pelas florestas, capoeiras e campos e que somam menos de cinqüenta espécies, sendo mais de quarenta, brasileiras. Para quem é caçador ou mero curioso, devo esclarecer que o pé-de-serra, a tona, a perdiz, a codorna, a sururina, a chorona, o chororó, o chintã..., são membros dessa família.

         Pois bem, tentando criá-las em cativeiro (porém com um pouco mais de espaço), operei-lhes uma das asas e deixei-as pelo quintal. Num canto adequado coloquei uma vasilha de barro com água. Não demorou para que eu encontrasse, todas as manhãs, dentro dela, um "recado" promíscuo e fedorento.

         Só na segunda semana preocupei-me com o fato e resolvi vigiar a fim de descobrir o autor daquela brincadeira de mau gosto. Ainda antes das vinte e duas horas fui dar a primeira verificada: lá estava, todo escarranchado, no sossego dos justos ou folgados, um velho sapo cururu. Para ser sincero só fui acreditar ser ele o autor daqueles "recados" depois de constatações oculares. Com certeza eu não sabia, até então, que os cururus... bem, "vá lá": cagavam tanto e tão grosso.

         Com a calma de toda primeira vez, delicadamente, tirei-o da água, fustigando-o carinhosamente com a ponta do pé. Com boas maneiras — logo percebi — não iria convencer aquele velho sapo a escolher outro lugar para suas necessidades fisiológicas. No dia seguinte, o "recado" estava lá outra vez. Apanhei um saco plástico, protegi a mão da sensação desagradável de tocar um animal frio e, tradicionalmente asqueroso, e levei-o para a outra extremidade do quintal.

         No outro dia, outra vez estava ele lá, só com o "nariz" do lado de fora. Um pouco mais atrás... bem, eu só queria saber por que tinha que ser dentro de minha tigela! Já ciente da pouca simpatia que lhe devotava, ao perceber-me, ele pulou da vasilha e tentou escapar. Peguei-o no segundo pulo e já sem a mesma paciência  de dias atrás, lancei-o por sobre o muro.

         Uma semana depois, talvez se metendo pelo buraco do esgoto de águas pluviais, o velho e teimoso cururu voltou. Numa onomatopéia tácita trocamos alguns insultos. Demonstrando sensatez ele tentou dar no pé, mas agarrei-o na terceira tentativa, apertando-o com raiva. Enfiei-o dentro de um saco plástico e levei-o a uma poça d'água a mais de cem metros de minha casa, atrás da Tocauto.

         No mês seguinte, chegando o inverno, depois de uma noite de chuvas e trovoadas, quando eu já nem mais me lembrava dele, a surpresa: de pernas abertas como se estivesse cansado de uma longa caminhada, dentro de minha tigela com a água que servia às inhambus, estava o cururu. Um pouco mais magro e, pareceu-me, mais realizado, ele chegara. Atrás dele, nenhum "recado". Quem sabe, teria ele aprendido bons modos? Apesar da raiva não contive o riso e chamei meus familiares:

         — É outro, seu bobo! — pilheriaram eles tentando convencer-me.

         A falta daquela inconfundível, fedorenta e enorme cagada dentro da tigela era um álibi que deixaria confuso o mais veemente acusador. No entanto, aqueles olhos semicerrados e cínicos não se cansavam de lembrar-me de um velho e renitente sapo cururu que me causara certo transtorno.

         No outro dia, a prova incontestável e definitiva: dentro da vasilha, mais grossa, preta e fedorenta que nunca, o palpável sinal da desforra. Sapo nenhum do mundo conseguiria tal façanha. Era ele.

         Agarrei-o, enfiei-o dentro de uma caixa, coloquei-o em cima da camioneta e dei ordens para deixá-lo na sede da fazenda, lá no Pará, a duzentos quilômetros daqui. Segundo meus cálculos ele só deverá retornar ali pelo ano dois mil, caso não lhe ocorra algum acidente ao longo do penoso percurso. Diante de tanta teimosia e determinação, sinceramente, não direi que foi trazido por alguém se o ver depois do ano dois mil, dentro de minha tigela.

 

UM PAVAROTI APAIXONADO

         Começamos a nos incomodar com o cricrilar persistente que  vinha da varanda. Era tão estridente e ininterrupto que já não se podia usar o silêncio como forma de concentração para qualquer exercício mental. As crianças se trancavam dentro do quarto para estudar, pois qualquer compartimento da casa que apresentasse ligação com o corredor estava impregnado com aquele som alto, enjoativo e irritante. Poderíamos compará-lo a um cantor de óperas executando uma destas chatas canções bregas.

         Estava metido sob caixas, mudas de abacaxi, pneus carecas, sacos velhos..., debaixo daqueles célebres amontoados de sucata sempre presentes em toda residência que se preza, principalmente, de italianos. Várias vezes tentei expulsá-lo de lá, revirando-lhe o esconderijo, mas tudo o que consegui foi espirrar seguidamente diante daqueles terríveis alérgenos revolvidos.

         Ele quietava, escondia-se, aguardava. Mal eu virava as costas e ele, a princípio educadamente e em seguida à toda capacidade das cristas, mostrava sua dor  clamando por sua amada temperamental.

         Nunca vi ortóptero com tégminas mais estridulantes do que o grilo de minha varanda! Não foi à toa que Deus premiou a espécie com os ouvidos na  "canela"! Seu canto parece agulha afiada a espetar nossos nervos,  sem pausa para recuperação. Ah, se os homens possuíssem a determinação dos grilos!

         O pesadelo durou duas semanas. As idéias macabras, regadas a uma aplicação letal de inseticida já não cediam mais aos princípios ecológicos de que se deve respeitar os rituais de amor de cada espécie, ainda que seja de grilos. Debaixo dessa tensão, estacionei o carro na garagem contígua ao esconderijo dele.

         Ao dar a volta para entrar em casa, vi, esgueirando-se  pelo portão, a rogada fêmea que há duas semanas resistia aos apelos do teimoso e arrebatado grilo. (Os grilos não enrouquecem porque não usam a garganta para emitir os sons. E quanto as cristas das asas, nunca irei entender porque Deus as fez mais resistentes que o diamante.)

         Ao vê-la expondo-se, inconseqüentemente, ergui o sapato para esmagá-la, mas ao perceber que o som exasperado não estava sendo produzido por ela, contive-me envergonhado. Ela, vagarosamente (parecia zangada ou, ao menos, mal-humorada), passou por mim e adentrou pelas mudas de abacaxi. Eram duzentas mudas, o que justificou a esticada da seresta por mais uma hora. Depois, silêncio sepulcral, entrecortado aqui e lá,  por cricrilarezinhos safados.

          Mais ou menos um mês depois, retirando uns pneus velhos do local, vi dezenas de grilinhos saltitando de um lado para outro, na indizível satisfação de quem vê o mundo pela primeira vez. Não pude me furtar à idéia de uma possível "denúncia vazia", caso todo aquele coral resolvesse se instalar nas gretas da garagem de minha casa. Apesar de poder eliminá-los facilmente, não pude vencer o carinho que sempre se apossa de mim diante de criaturinhas ingênuas e indefesas.Certa vez quase capotei o carro ao desviar de um calango que tomava sol no asfalto.

         Lembrei-me que os animais, pela preservação da espécie, são muito mais persistentes e indomáveis que nós. Não sei se a primeira "esposa" daquele grilo havia morrido ou sido flagrada em passeio noturno por algum cururu traiçoeiro e faminto... não sei! Mas o grilo sabia que dia menos dia uma fêmea passaria ao alcance de sua voz enamorada e se aproximaria para atender à lei natural de que se deve, mesmo a um grilo arrogante, entregar-se pela preservação da espécie.

 

A ESTUDANTE

         Como um passarinho ela acorda cedo. Lá fora, o barulho dos madrugadores a desperta. A ânsia de viver não a deixa permanecer na cama. Espinhas no rosto, vontade de comer chocolate branco, ciúmes da Marisa que lhe dizem mais bonita e elegante. Pensamentos rápidos vêm e voam de sua cabecinha cheia de planos.

         Bolsa pesada nos ombros, tênis surrados, calça jeans, blusa amarrada na cintura, um fitilho do Senhor do Bonfim  enlaçado no punho esquerdo, lá vai ela pela rua, apressada como se o dia fosse curto para saborear o direito de viver a juventude. Em cada esquina o jornaleiro grita: "Mais dois assassinatos. A inflação sobe. Escândalo e corrupção no Congresso..." Ela, porém, não quer saber de coisas tristes e desalentadoras, de brasileiros ingratos e desonestos. Para ela o sol apenas desponta, o casulo mal se abre: há um mundo muito grande e bonito para curtir.

         Seu corpo está inquieto. Nos seus olhos, o brilho da pureza, a graça plena de Deus. Não pensa nas coisas feias dos adultos. Quer viver, correr pelos campos, andar pela cidade, conversar com a Tânia, combinar um convescote, jogar vôlei na quadra da Escola Santa Teresinha, acertar a turma para a tarefa de Português.

         Suada, rosto rosado pelo sol forte, encontra-se com amigos. Olha o Pedrinho de soslaio. Os hormônios já começam a incomodá-la. De volta a casa, olha-se no espelho, força o nariz para cima, encosta as orelhas para trás, sorri de perfil... Apesar de toda beleza com que a juventude lhe agracia, acha-se feia, inveja a Marisa. Não gosta da cor de seus cabelos; precisa  de alguns quilos a mais.

         Meneia a cabeça, lembra que o sol está brilhando no firmamento, que os passarinhos estão voando livres, que as borboletas, desengonçadamente, caminham resolutas para o oriente. Faz trejeitos de riso: "as bobocas das borboletas pensam que um dia alcançarão o sol!"

         Dirige-se ao corredor. Esbarra com o pai que chega apressado:

         — E aí, velho, estou bonita?

         O pai a olha: a criatura mais linda para o seu olhar. Sensatamente responde:

         — Por mais que eu tente, filha, não consigo ver seu interior.

         — Ah, pai!...

         Sorri mais uma vez enquanto segue aos pulinhos corredor afora. Olha para trás, sorri: dentes de nácar, fortes e brancos como marfim. É o belo do despertar, da adolescência, do botão que se abre. Dentro de seu coração, tantos sonhos, muitos planos, alegria sem fim, gratidão e reconhecimento por ter nascido.

         Volve os olhos: o céu está quase todo azul, o vento sopra, algumas nuvens esparsas brincam pelo infinito. Como é bonito o mundo — imagina.

         E eu que a vejo agora, minha querida estudante, com seus cabelos revoltos, tênis surrados, calça jeans desbotada, blusa amarrada na cintura, mochila pesada nos ombros, coração cheio de desejos e de esperanças, alma repleta de emoções, fico com medo que este mundo mau também sorria de sua ingenuidade, quando você imagina — como as tenras borboletas — que pode alcançar o objetivo de seus mais lindos sonhos.

 

O RADIALISTA

         Às vezes vivemos longo tempo ao lado de uma pessoa e não a conhecemos inteiramente. Aquele que nunca toma um porre, jamais se conhece plenamente — assegurou-me, certa vez, o Dr. Abrantes: "As amarras da tradição, da religião, da formação e do interesse, moldam-no de acordo com as exigências da sociedade em que vive". 

         Logo que somos gerados já recebemos nossa sorte, nosso caráter, nossa personalidade. Depois vem o tempo e com ele a certeza de que as inclinações com que nos agraciaram nem sempre são ajustadas à convivência harmoniosa com nossos semelhantes. Então mudamos, fingimos, prendemos, eliminamos por assim dizer, grande parte do código genético com o fito de evitar problemas com a comunidade. A personalidade verdadeira, normalmente, fica enclausurada a sete chaves e somente em ocasiões muito especiais é apresentada à sociedade.

         Há cerca de um ano, enquanto trafegava pelas ruas da cidade de Imperatriz, liguei o rádio numa estação de rádio AM. Acertei num programa musical. O apresentador, com voz firme e contundente (?) falava do lindo sol daquela manhã, da beleza do verde que emergira após as fortes chuvas e da alegria que representava estar ali vivo, naquele momento e naquele lugar. Como estava a fim de notícias, fui, em vão, mudando de estações, mas todas pareciam afinadas ao mesmo objetivo naquele horário. Desliguei.

         Algumas horas mais tarde, passando pela rua onde estão instalados os estúdios da  emissora cujo apresentador eufórico demonstrava segurança e felicidade, vi um rapaz sentado na calçada, cabisbaixo, o rosto enfiado entre os joelhos numa posição desoladora. Chamava a atenção, um rapaz de seus vinte e poucos anos, naquela posição, sentado numa calçada muito movimentada, em pleno dia de sol. Estando o sinal fechado e tendo meu carro parado bem ao lado, pude perceber que chorava. Logo que o sinal abriu, atravessei a rua, estacionei o carro seguramente e voltei solidário:

         — Amigo, problemas difíceis?

         Ele ergueu lentamente a cabeça. Os olhos estavam rasos, o desespero parecia palpável. Nunca havia, até então, me deparado com um olhar tão suplicante e dependente. Depois de alguns segundos ele se ergueu por inteiro:

         — Foi nada não, amigo! Coisas da vida.

         Talvez mais por curiosidade do que por qualquer outro sentimento, insisti:

         — Velho, uma carga dividida, sempre fica mais fácil de ser transportada. Vamos lá, desabafe!

         — Esqueça! Certamente tem seus problemas, tem sua carga como falou. Por que colocar nos ombros mais uma parte da minha?

         — É que nem sempre a tristeza é fundamentada. Às vezes tornamos grandes, coisas insignificantes. Ainda há pouco, estive ouvindo um radialista entusiasmado, falando da vida como se ela, por si só, fosse motivo sobejo de alegria e esperanças. O mundo me parece estranho: enquanto uns vivem cheios de otimismo e fé, outros se deixam vencer pelos problemas e dificuldades da vida. Aquele radialista, pela manhã, melhorou meu astral. É bonito saber que existe gente que não se entrega, que exorta, que semeia a alegria. Foi um dó que não tenha ouvido aquele homem! Se  tivesse, como eu,  tido a sorte de sintonizá-lo, certamente não estaria tão angustiado.

         O rapaz, magro e alto, olhos vermelhos, esfregando o braço no rosto molhado por lágrimas incontidas, respirou fundo, olhou-me demoradamente como se  fosse um sacerdote piedoso em seu ato sublime de absolvição e, num suspiro exclamativo, arrematou:                           

 — Ah, amigo, eu sou o radialista que você ouviu hoje pela manhã!

 

A JUSTIFICATIVA DO VELHO

          Quando se vai ficando velho, à maneira dos elefantes, vamos buscando as origens: o lugar onde a gente nasceu, os velhos amigos, as antigas estradas...   Foi assim que há vinte dias atrás voltei ao meu Espírito Santo. Fui de ônibus, pela Viação Açailândia de propriedade dos Irmãos Galetti: conterrâneos e velhos amigos. Tudo em casa!...

         Mesmo antes que o ônibus chegasse à rodoviária, notei um homem (como se diz aqui no Maranhão) fogoió, que com sua maleta surrada, andava de um lado para outro com ares de inquietação. Pensei: é um passageiro do ônibus em que irei viajar. Sua fisionomia não me era estranha, assim como a minha lhe fora familiar. Aproximamo-nos:

         — Você é Fregona? — inquiriu-me em riste.

         Sem lá muita surpresa, contra-ataquei:

         — E você, Milhorelli, sou capaz de jurar!

         — Filho do Nilo — confirmou ele. Moramos muitos anos no térreo do prédio de seu irmão Adalho.

         Depois de se despirem   totalmente de qualquer privacidade, estavam ali, dois velhos amigos, prontos a apagar do tempo, um intervalo de passado silencioso. Como nossas cadeiras não coincidiam, ele foi acomodar-se lá para trás. Mal chegou ouvi alguém que se apresentava a ele sem parcimônia, falando a todo pulmão:

         — Então você é lá de Linhares?!... Sei que fica perto de Colatina, mas nunca fui até lá. Tenho uma filha que mora em Aracruz e minhas viagens limitam-se a esse lugar. Sou de Xinguara, desquitado,... tenho lá um quiosque: vendo revistas, cachaça, tira-gosto de paca, tatu, anta, veado, nambu ou qualquer outro bicho que consigo surpreender lá pras bandas daquelas matas. Lá tudo é bicho e aquele que pode mais, chora menos.

         Foi dizendo essas coisas enquanto pendurava, bem por cima de meu velho e, ao mesmo tempo, recente amigo, um bom naco de carne moqueada de anta. Não demorou para que os solavancos do ônibus fizessem com que alguma coisa da carne começasse a cair em cima da cabeça e ombros do fogoió, meu amigo. Ainda antes de perceber que se tratava de bichos de mosca-varejeira, ele reagiu:

          — Meu senhor, essa carne não poderá ficar aí. Está deixando cair (e aí verificou o que caía)... droga, isso é bicho, bicho de varejeira!...

         Meio sem graça, desculpando-se como podia, o velho foi logo tratando de recolher seu naco estragado de carne de anta. Sem perder tempo, tentou justificar-se:

         — É que moro num lugar desgraçado onde, quando o carro quebra no meio da viagem, a  gente quase morre de fome. Além do mais, na minha última  viagem, quando tentei almoçar numa pensão, quase morri de caganeira. As pensões do interior não perdem nada. As sobras de uns são jogadas em outra vasilha e devolvidas ao cliente seguinte: é um sarapatel danado.

         Além do "jabá", não esqueço também o papel higiênico e esta lanterna (exibiu-a a todos do ônibus) — coisa de velho vivido nos matos. Como estava dizendo, na última vez que comi numa pensão, não precisei mais que alguns quilômetros para suplicar ao motorista que, incontinenti, parasse. Os carros do interior não têm privada na traseira. Meio contragosto o motorista freou num lugar desgraçado e foi logo avisando de que eu não poderia prejudicar os demais que estavam doidos para chegar. Com a dor fina que me roia as tripas, achei a recomendação desnecessária. O desabafo seria rápido. Desci às pressas.

         A noite estava escura e o que se passava comigo não me permitia que escolhesse lugar mais ou menos adequado. Saí da margem e fui logo arreando as calças. Quanto mais saía (você entende, não é?) mais a dorzinha infeliz amarfanhava-me as tripas. O motorista, cruelmente, começou a buzinar. Fiquei em apuros. Ainda com cólicas terríveis comecei a procurar alguma coisa para a higiene: em todo alcance, apenas torrões e terra solta que um trator havia espalhado há pouco. Nem um graveto por misericórdia!

         A buzina não parava; o murmúrio desumano não cessava. Depois de correr e raspar as mãos pra tudo quanto era lado, fui forçado a resolver meu problema com o que tinha disponível mesmo, fazendo uma lambança maior do que se tivesse deixado a " coisa" como estava. O barro misturado lambuzou tudo e fiquei em estado deplorável. Barbaramente fizeram-me viajar até à próxima parada, na última cadeira, enquanto o restante se amotinou ao redor do motorista. Nunca irei esquecer aqueles diabos de cochichos que se fizeram intermitentes lá na frente:

          "Isso é que dá viajar com velho cagão e frouxo!..."  "Ao invés de se meter na estrada, devia estar numa rede e com a caixa mortuária em dia!"... Naquele mesmo momento, amigo, fiz meu juramento de que jamais viajaria sem meus próprios alimentos, sem uma lanterna e um rolo de papel higiênico.

  

UMA ONÇA DESMORALIZADA

         Sempre digo que um porco e uma flor, assim como o progresso e a natureza, jamais viverão harmoniosamente. Foi baseando-me neste princípio que me indispus com as onças que viviam degustando meus gordos bezerrinhos lá no Cajazeiras. É claro que elas estavam lá há mais tempo que eu, assim como os índios aqui no Brasil, mas na luta direito versus  interesse, sempre  vencerá o segundo.

         Armei espingardas e trabucos, aratacas, contratei matilhas de onceiros... Esgotados os estúpidos, ultrapassados e perigosos métodos, apelei para a razão, na certeza de que esse privilégio me livraria das renitentes salteadoras.

         Dalgas Frisch havia lançado no mercado uma dúzia de fitas cassetes com piados de aves e vozes de animais amazônicos. Na miscelânea ecológica havia vários esturros de canguçus. Segundo o cientista, aqueles urros significavam domínio territorial e uma bela cantada às fêmeas no cio. Qualquer concorrente intruso, portanto, seria logo rechaçado. Concluí daí que poderia funcionar como desafio ou chama para atraí-las à armadilha fatal.

         Pedi a meu gerente que construísse, em lugar estratégico, um mutá com cinco metros de altura e, numa noite bem escura, acompanhado de meu irmão e sócio, fui para a grota sombria, armado até os dentes. Meu equipamento de som e as armas de grosso calibre eram de causar inveja a  "metaleiros e Lampiões".

         Curiangos pelas veredas, urutaus nos aceiros e corujas nas moitas assombrosas, alimentavam nossa imaginação, criando um cenário tétrico e fantasmagórico. Dois simplórios caçadores de espera que nos acompanhavam, despediram-se sarcasticamente:

         — Nois vai pra bem longe daqui pruquê onde pintada esturra, paca e tatu não sai dos buraco e veado inté trepa nas impuca. Falam por aí que elas quando vem pra briga derruba inté os pau mais fraco.

         O mano e eu nos entreolhamos num misto de ceticismo e precaução. A cada insinuação dos caboclos eu verificava minhas armas, e o mano, as munições. Enfim, nos instalamos no jirau e começamos a reproduzir os esturros da saqueadora. Aquele som pavoroso, amplificado, feria, não somente o silêncio sacrossanto da floresta, mas principalmente nossa reputação de destemidos caçadores de onça.

          Não havia um só fio de cabelo, por mais anos que estivesse enroscado, que não se eriçava diante daquela escuridão plena na qual chamávamos para perto de nós, uma ou todas as feras da floresta. Uma coruja orelha-de-gato, sádica como bruxa de história infantil, parecia incansável em sua onomatopéia horripilante. Era um "tu, tu, tu, tu, tu, tuuuu" incansável e constante. Nosso estado de espírito, bem que dispensava o sarcasmo daquela infeliz coruja!

         De repente, no auge de nossa tensão, um roçagar pelas folhas secas denunciou  alguma coisa que descia, sem muita cerimônia, a encosta da grota. Com pacas e tatus nos buracos e veados trepados nos paus, só mesmo a onça poderia estar se aproximando para tirar satisfação. Arrepiados, tomamos posição. Armamos nossas escopetas, preparamos as lanternas e quando o barulho se fez sob nós, clareamos ao mesmo tempo: um velho e, possivelmente, surdo tatu, fuçava despreocupadamente as folhas secas do chão. O mano apagou a lanterna e lembrou:

         — Bem que nosso pai sempre dizia: "O papel aceita tudo". Referia-se ao que afirmara sobre as onças, o ilustre cientista.

         Mais um pouco e continuei a reproduzir os esturros captados por Dalgas Frisch em pleno Inferno Verde. Nem havia desligado o aparelho e novo ruído se fez ouvir, dessa feita, mais sutil e sorrateiro.

         — Agora é ela — cutucou-me com mão trêmula, o mano. Não sei por que ele achou necessária aquela maldita observação!

         O sangue me subiu ao rosto, o coração disparou. Pus a escopeta na posição, armei os dois cães e esperei o momento oportuno. Quando embaixo, acendemos as lanternas ao mesmo tempo: agora, uma paca, "uma paca véia", como dizem nossos caboclos, mariscava tranqüilamente à cata das flores do pequizeiro que vigiávamos.

         Defendemos o almoço do dia seguinte e descemos do mutá decepcionados. Havíamos perdido tempo caçando a onça mais desmoralizada da Amazônia, ou então, aquele tatu e aquela paca eram surdos de nascença.

 

PESCANDO E CAÇANDO

         Falar de pesca e caça, mesmo aqui no Portal da Amazônia, é algo que cheira a desrespeito ao decreto-lei nº 289 criado em fevereiro de 1967, objetivando proteger a nossa fauna. No entanto, se entendermos que a contravenção tenha vindo  de italianos, haveremos de acreditar que, ao invés de o IBDF puni-los, deveria incentivá-los a que todo ano viessem até aqui para caçar e pescar.

          Estiveram aqui há quinze dias. Primeiro foram ao Bico do Papagaio, lá no Centro dos Mulatos. A primeira semana seria de pesca ao pirarucu — principalmente a essa espécie. Debaixo de torós temporãos, muriçocas mil... eles passaram os sete primeiros dias, sobrevivendo à custa de picanhas, lingüiça de porco,  muita polenta,  alguns míseros berés, oito grades de cerveja e vinte e um litros de cachaça trazidos por eles.  Depois desse tempo concluíram que a lagoa do senhor Cícero não era diferente das poças d'água lá do sul do Espírito Santo: "Só tinha berés".

         Partiram então para a caçada. Escolheram a Fazenda Cachoeirinha, perto de Dom Eliseu, no estado do Pará. Uma das camionetas levava o pessoal, e a outra, a bagagem: entre ela, mais doze grades de cerveja e mais vinte e dois litros de boa pinga, pois concluíram que o racionamento da pescaria prejudicara bastante o bom desempenho deles.

         Logo no primeiro dia, já com a noite avançada, chega o mais velho do grupo, o senhor Ambrósio. Como todos, nada tinha no picuá, mas vinha mancando, quase arrastando-se para chegar. Sentou-se num tamborete de freijó, respirou fundo e desabafou:

         — Mais Varda (todos eles misturavam italiano com português, invejavelmente) dopo di tri ani questo escarpe maladeto resolvest  arrancar-me las undchas e me tornar ei ded pien de calos.

         Enquanto se preparava para retirar os suplícios, o seu filho Edésio, muito esperto e observador, cutucou o Tcheron e observou:

         — Dê uma olhada nos pés dele!

         O Tcheron olhou e encompridando os lábios para facilitar o uivo, começou um cainhaim digno de um cão alvejado por uma pelota certeira. Todos olharam ao mesmo tempo e não foi difícil constatar que o segundo-tenente reformado do Exército Brasileiro, havia andado caçando o dia todo com os sapatões trocados.

         Durante os outros sete dias, conseguiram apenas alvejar um mísero e abestalhado tatu que fuçava, inocentemente, na beira de um igarapé. Mas mesmo a falta de peixes, e agora, de bichos, não os preocupava. Quando vinha a noite, reuniam-se em torno da comprida mesa feita com um pranchão de angelim-pedra e bebiam tanto que um agregado da fazenda observou:

         — Mas é água, é?!...

         Retornaram ontem. Alegres, olhos vermelhos, alguns quilinhos a mais, centenas de manchas pelo corpo levadas a efeito pelos pernilongos e carrapatos, alguma maleita como lembrança  e célebres queimaduras ácidas de potós: nossa mais autêntica marca de hospitalidade a ingênuos visitantes.

          Levaram daqui a melhor das impressões. Sorveram o espírito festivo dos maranhenses; ficaram maravilhados diante do nosso forró; saíram menos revoltados com os políticos ladrões de sua terra e prometeram voltar no próximo ano.

         Caçadores e pescadores desse quilate deveriam ser incentivados pelo IBDF a cometerem tais contravenções, pois tanto os pirarucus como os bichos perseguidos por eles, jamais serão mortos, ainda que por exímios pescadores e caçadores: estão escorraçados até o ano 2.000.

 

TUDO O QUE É BOM DURA POUCO

         A Bahia e o Espírito Santo somam-se aos estados em que ainda se encontram  remanescentes capões de Mata Atlântica. A Mata Atlântica, possivelmente, foi (nos tempos áureos não tão distantes) uma das florestas brasileiras mais ricas em animais silvestres. Isso ocasionou o aparecimento de milhares de caçadores, mormente nos tempos em que se podia desfilar pelas cidades com uma Pipper a tiracolo, uma respeitável matilha esganiçada e muitas pacas abatidas e dependuradas em fila num reforçado varão. Como lembrança dessa época, ainda hoje guardo muitas fotos de amigos, tios e pai.

         Fauna rica, liberdade total, ausência de toda e qualquer fiscalização..., eram ingredientes perfeitos para o aparecimento de milhares de caçadores, principalmente, nas pequenas cidades interioranas. Itamaraju, Teixeira de Freitas e Eunápolis na Bahia; Colatina, Marilândia, Linhares e São Mateus no Espírito Santo, eram as detentoras do maior contingente.

         Quando mudei de Marilândia para Linhares, fiquei conhecendo uns doze caçadores de paca: havia, entre nós, certa afinidade, pois era eu na época, talvez o mais afoito  devastador de macucos da própria Reserva Biológica Sooretama do Barra Seca, a quarenta quilômetros da cidade de Linhares. Mais tarde os tempos mudaram: em 1970 o I.B.D.F. intensificou a vigilância. Fui pego por seus agentes florestais, preso, processado e, felizmente, convencido (?) a desistir de tão indigno esporte.

         Os caçadores de paca de Linhares, diante da fiscalização ostensiva, começaram a organizar expedições à Bahia. A parte leste da Bahia é muito parecida com o nosso Pará: os órgãos governamentais não se preocupam muito com o meio ambiente, principalmente com a fauna e  flora silvestres.

         Como permaneciam sempre mais de trinta dias por lá, logo a saudade da família se encarregou de lembrá-los que não haviam feito nenhum voto de castidade. Já na segunda excursão, passaram no "puteiro da cidade" ( era assim que lá denominavam a zona do meretrício) e cada um escolheu uma parceira, rumando, sorrateiramente, para a Bahia. Logo que chegaram à fazenda em que já haviam estado no ano anterior, apressaram-se em avisar o capataz de que as mulheres que os acompanhavam eram de programas.

         A coisa funcionou melhor do que esperavam. Caçavam pela manhã e depois passavam a tarde numa praia deserta em bacanais. À noite bebiam e curtiam as "esposas", na mais completa orgia. A experiência foi tão boa que, ao invés de uma excursão, passaram a fazer duas por ano. O capataz que também era o mais normal dos homens, do retraimento inicial, passou a vincular os favores: cedia a fazenda em troca de namorada exclusiva.  Não fizeram objeção: sempre levavam uma de sobressalente.

         Tanto estímulo e euforia dos cinqüentões acabou por despertar a desconfiança das pacatas esposas que ficavam solitárias por um mês inteiro, cuidando do lar. Afinal, não havia explicação convincente para que, de uma hora para outra, seus maridos se tornassem tão apaixonados por caçadas de paca. No comadre aqui, comadre ali, elas decidiram, unanimemente, que três dias antes da próxima excursão, iriam fazer-lhes uma memorável surpresa: oferecerem-se para acompanhá-los na estafante tarefa de perseguir os roedores cuniculídeos.

         Os caçadores (agora já mais de quinze), depois do conluio de uma breve assembléia, decidiram a saída para o semestre seguinte. Exatamente quando tudo estava pronto, cada mulher achegou-se a seu marido e disse de sua pretensão. "Afinal, não é justo vocês ficarem em jejum por quase um mês! Além do mais iremos cuidar da cozinha e das roupas sujas."

         Embora cada um argumentasse e relutasse, as esposas foram peremptórias e acabaram por convencê-los — por livre e espontânea pressão — a anuírem. Muito desconcertados, os intrépidos caçadores rumaram para a Bahia. As mulheres que já andavam desconfiadas, aumentaram suas suspeitas quando começaram a perceber os olhares  furtivos e os resmungos ininteligíveis dos maridos em dificuldades. Lado e outro, diante do quadro irreversível, resolveram, depois de algum tempo, demostrar calma e aguardar os acontecimentos. Fosse lá o que Deus estivesse estabelecido... ou aprontado.

         Quando chegaram à fazenda, já o gerente acorreu solidário, abrindo a cancela. Trajava uma calça jeans apertada, uma camisa de tergal listrada, botas e chapéu country: um verdadeiro caubói. As mulheres se entreolharam desconfiadas: ele em nada se parecia com o caboclo ingênuo e simplório desenhado pelos maridos; e o local nada tinha de sertão abandonado onde as onças esturravam em toda noite de luar.

         Eufórico e ridiculamente extrovertido, o capataz, depois de fechar novamente  a porteira, passou um olhar perscrutador de mulher em mulher e, exatamente quando todos ainda espanejavam a roupa empoeirada, foi lacônico, enfático e singularmente infeliz:

         — "Desgraceira,  patrões, dessa veis oceis avacaiaro mermo: trouxero uma putada runha demais!"

         No outro dia estavam todos de volta e, pelo menos enquanto morei por lá, nunca tive notícia de que os viciados caçadores de paca tivessem voltado à Bahia. Alguns, embora esporadicamente, tentaram se adaptar às caçadas de perdizes; outros, penduraram logo as espingardas no fumeiro. Naquela altura do campeonato, caçar qualquer coisa com a esposa a tiracolo, incansável no refrão "vamos lá, velho safado!",  realmente não dava mais.

           É!..., como diz o velho provérbio: "Tudo o que é bom, dura pouco!"

 

BUNDA DE VACA

         Só mesmo convivendo com  pessoas que não tiveram  possibilidade de estudar, aquelas analfabetas e simplórias a quem nem ensinaram  assinar o próprio nome é que podemos nos convencer, ainda mais, de que as diferenças humanas são acentuadas, apenas, por causa da situação financeira de alguns. A inteligência em si é inata, seria comum a todos os seres humanos normais como  graça de Deus, não fosse a interferência egoísta e malévola do homem nas regras preestabelecidas pelo Criador.

         Se ligarmos a televisão num programa humorístico apresentado por Jô Soares ou Chico Anísio, veremos o quanto usam a cultura para estimular-nos o riso. Entretanto, embora com outro jeito de se expressar, o matuto também consegue o mesmo efeito, ainda que ferindo  a gramática e suas regras.  Essa pureza autêntica surpreende-me.

         Na semana que passou, estava eu numa roda de peões, quando começou uma calorosa discussão em torno de quem era ou não corno naquele exílio de quinzenas continuadas. Um dizia que punha a mão no fogo pela esposa; o outro enumerava as qualidades da companheira como fiel e dedicada..., enfim, todos tinham bons motivos para estar ali no trabalho, bem despreocupados.

         De repente, as atenções se voltaram para o Valdenor, o Lindoiá do livro "OS HUMILDES", lembram-se? O crioulo vesgo estava quieto num canto da mesa quando foi abordado — podíamos dizer, acoado — pelos demais companheiros:

         — E este excomungado deste nego aí engurujado no canto? Nestas hora deve tá com a testa coçando! Diz que lá na paioça dele os pé-de-pano se atropela.

         Sem perder a fleuma britânica que lhe é peculiar, o crioulo, protegido pelo estrabismo, virou o rosto para o centro da mesa, e sem nos dar chance de a quem era dirigido o olhar, apresentou a prova de sua imunidade:

         — Eu tô tranqüilo! Minha muié tá véia, impenada..., ninguém se interessa mais por aquele caco. Voceis é que tem que se cuidá: muiés novas, sortas na rua, toda imperequetadas!... voceis sim é que deve tá com a testa coçando.

         O Baiano (também o mesmo de "OS HUMILDES", aquele que certa vez entrou no quarto das cozinheiras para enfrentar o fantasma que atirava seixos: entrou falando grosso e saiu resmungando fino como rapariga amedrontada) tomando ares de interventor, replicou num curto mas convincente aparte:

         — É, meu cabra, muié é como enxada: acaba a foia que capina mas fica o buraco do cabo. Tu sabe cuma é que é.

         — Tem jeito com voceis não — desistiu o Lindoiá, voltando à sua antiga posição fleumática.

         Depois, não contente com sua primeira defesa, acrescentou:

         — Explicá arguma coisa a voceis é como chutá bunda de vaca: num dá em nada, só machuca os dedo da gente.

 

"O MIÓ DO BODE É A FUSSURA"

            Lá vinha ele cansado, claudicando do pé esquerdo (um estrepe de guaxima havia transpassado o sapatão e ferido-lhe a sola do pé). A tarde já caíra e os demais companheiros aguardavam o jantar sentados numa tosca mesa de angelim-pedra. Uns conversavam sobre o trabalho, outros jogavam cartas, outros batiam dominó, enquanto um grupinho de três agredia-se verbalmente em caloroso humor caboclo. Mal deram pela chegada do Chico, investiram:

            — Tá lá um péssimo investimento do patrão: contratá um velho acabado, de andar chaco para trabalhá como vaquero, só mesmo um fazendero doido. De gado este aí só entende mesmo de bebê o leite. 

            — Sô Brando, trais de Imperatriz pra mim três baxeros, uma torqueza, uma chave de bobi e uma pinhola. Tem animal aí fora do brede e tu sabe como é, se não amançá a tempo depois não se dá conta mais — foi logo se defendendo o trôpego caboclo.

            — Corta essa, cintura de pacu, tu é bananeira que já deu cacho, só serve pra substituí estrume nas estercage.

            O Chico passou ao largo, e sem perder a calma, assegurou laconicamente:

            — Sai de meu pêlo, cambada! Oceis sabe que o mió do bode é a fussura e que de quarqué manera, em vorta do zóio só é bera.

            — Fussura o que, mundiça, é frissura que se fala. Nem cunversá ainda aprendeu. Fala buchada mesmo!  Eu já disse pro patrão que quando eu dissé que o jegue morreu, ele pode vendê a cangaia. Contratá um homi como você é o mesmo que botá bracaiá pra vigiá galinha.

         — Se invez de me enchê o saco oceis fosse trabaiá, ganhava mais. Agora mesmo dou um tapa nas venta de um que até os neto vão nascê doido. Nesse negão, nariz de chapoca, toda veis que lembrá do meu tapa vai cuspi sangue e ficá tonto.

            — Vigi do céu — retrucou um outro que amolecia bacaba em banho-maria — se arguém perguntá se me viro por aqui, diz que não; diz que eu tava descansando os macaco das pestana. Não quero testemunhá este chafurdo.

            E a discussão corriqueira, por ser apenas mais uma entre as dezenas que ocorrem todos os dias,  não me chamou muito a atenção. "O mió do bode é a fussura", porém, deixou-me curioso. Procurei o Chico depois do jantar e argüí-lhe a respeito:

            — É um ditado muito certo, meu sinhô. Oceis vê aí na televisão rei casando com rainha, luxo que não deixa nem as oreia de fora; cada carro que parece trole de Papai Noel..., mais no fundo mesmo, eles não aproveita  nada mais que nois aqui do mato.

            — E por que, não? — perguntei-lhe.

            — Ora, pru que, pru quê?!... Pruquê o mió do bode é a fussura e de quarqué manera, em vorta do zóio, só é bera, tanto das rainha como das sendera.

            Ao lado, o jogo de pife-pafe esquentava:

            — Quá, quá, quá...fissofó outra veis.

            — Feis o fó uma ova. Vai tê que catá a batida no monte porque cicuitô.

            Fissofó, cicuitô..., que diabo de palavras são estas? — interferi curioso.

            — É que ele fez o fó, isto é, bateu com as dez cartas. O outro reclama porque ele ameaçou apanhar o bagaço para bater e ao notar que a carta não completava o jogo, foi e voltou com a mão. A isto chamam de circuitar ou entrar em circuito danoso. Quando isto acontece, a pessoa tem que buscar a batida no monte — explicou alguém mais esclarecido que nos visitava com o fito de comprar uns tombadouros de maçarandubas e que conhecia as tiradas do jogo.

             E o crioulo que estava em dia de sorte, sem ouvidos para qualquer interferência, continuava "fobando":

            — Eta moleza! Ganhá dum pato deste é mais mole que chupá tumô.

            — Dexa de sê nojento, excumungado dum nego!

            — Óia quem tá querendo dá uma de muricim: esse vesgo maldito! O que tu sabe mesmo, nego, é coiê arrois pros otros.

            A lembrança feriu o brio do crioulo, proverbial por seus péssimos negócios em toda colheita de arroz. Reagiu peremptório:

            — Os braços são meu e trabaio pra quem quero. Se tu qué sabê, nasci dentro de um quixó e nunca precisei vendê beré seco pra matá a fome dos meus fio.

            — Que nada, nego, tu é burro mesmo! E tem mais, tu fica quieto se não vô contá pro patrão aquela do impréstimo pra comprá o remédio da muié que tava doente e que tu usô pra...

            Ao perceber que o companheiro iria entregá-lo, o crioulo estrábico, quase centralizando os olhos, reagiu a tempo de evitar:

            — Ah!, não tá güentando pressão não? Tá estorando o mangote, tá? Se fô pra alegá, também vô parti pro alegamento. Pensa que não sei das suas fusacas não?

            — Que diabo de alegamento é este, que nunca ouvi falá?

            — Nunca ouviu porque tu é mais burro que eu. Mais se tu quisé sabê mesmo, fala arguma coisa do segredo que te contei e vai aprendê rapi, rapi, mais uma pra melhorá seu falatório.          

            — Rapi, rapi!... É rápido que se fala, mundiça!

            Entre fusaca, rapi, alegamento e tudo quanto constituía um linguajar paralelo ao nosso vernáculo, os caboclos continuavam seus entretenimentos e suas saudáveis agressões verbais, que nunca iam além das 21 horas, pois o cansaço de um dia de muito trabalho não lhes permitia. Cada um, tão logo terminava o Jornal Nacional, ia se retirando para sua rede e em menos de quinze minutos, as motosserras que haviam funcionado durante um dia inteiro, pareciam acionadas outra vez, tal a zueira dos roncados que ecoavam em cada canto do barraco de palha.

 

PARÁFRASE A SEATHL

         Em 1855 — conta-nos a história — o então presidente norte americano Franklin Pierce resolveu adquirir as terras da tribo Duwamish, no estado de Washington. Na carta, Franklin dizia de sua amizade e benevolência para com os índios, ao que o cacique Seathl respondeu:

         Assegura-me de sua amizade e benevolência, mas não precisa delas. Sei que, se por mal, a posse de minhas terras lhe será assegurada por armas. Estranho apenas a pretensão de comprar coisas que nunca irá possuir, como o céu, o calor da terra, as águas, o ar puro..., tudo quanto existe como testemunho de gerações que se sucedem.

         Para nós, a terra é uma dádiva de Deus para todos. Ela é sagrada para o meu povo. Como pode, então, comprá-la? Cada folha, todas as praias, a neblina nas florestas escuras, os insetos que zumbem, os pássaros, os peixes e  animais, tudo enfim o que vive à nossa volta é, para nós, sagrado. Sem isso, estamos certos, não viveremos também.

         O homem branco não tem a terra como irmã: vem, usa-a e depois vai embora, não se importando, sequer, com o túmulo de seus pais e antepassados. Quer nossas terras para transformá-las em pastarias e cidades, esquecendo-se que nós somos gente diferente, somos seres que não vivem sem o desabrochar da primavera, sem o silêncio da noite, sem a voz do corvo noturno ou o coaxar dos sapos no brejo.

         Nossa música é o sussurro do vento; nosso espelho, a água cristalina; nosso perfume, o aroma do pinho; nossa ganância, a partilha; nossos anseios e pretensão, o sossego e a paz até o último dia de nossa existência.

         Como sou obrigado a aceitar sua generosidade em pagar por uma coisa que não é minha, exijo apenas que respeite os animais, porque são seres como nós. Não esqueça que isso é uma suprema exigência para nosso negócio. Sem ela não precisará pagar nossas terras, bastará apenas sepultar nossos guerreiros.    

         Entenda que o seu Deus é o mesmo nosso e o de toda a humanidade. Ele ama  a terra e todos os bichos e plantas que nela pôs para viver. Desrespeitar a natureza é desprezar o Criador.

         Hoje nos destrói, mas amanhã, possivelmente antes que nós, desaparecerá também, porque imagina viver sem os bisões, as fontes, o ar puro, as florestas..., mas não conseguirá. Tudo o que existe na natureza, além do homem, é necessário e fundamental à sua existência.

         Gostaríamos de compreender os planos do homem branco! Se soubéssemos quais esperanças transmitem a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem às suas mentes, talvez pudéssemos entendê-los.

         Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos, temos de escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos, é para garantir as reservas que nos prometeu. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se lhe vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Proteja-a como nós a protegíamos.

         Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, seu poder e coração, conserve-a para seus filhos e ame-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus de vocês. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.

            Depois de traduzir com minhas palavras a carta de Seathl, só me resta pedir a Deus tamanha sensibilidade e amor para com as coisas da natureza.

 

GERAÇÃO PRIVILEGIADA

         Houve um tempo que minha ocupação literária era apontar erros, criticar e viver angustiado por causa de tudo quanto eu não conseguia entender. Hoje eu ainda não aceito as coisas erradas, embora saiba-as humanas, mas pelo menos não perco horas de sono revoltado com as injustiças sociais e com a corrupção geral do país.

         Entendo que somos responsáveis pelo nosso destino, felizes ou infelizes por nós mesmos. Se queremos Democracia; se viver num país democrático é aceitar que a maioria escolha seu destino; se a maioria entende que o que temos de melhor é isso que nos governa... por que reclamar, espernear, não aceitar? Se a minoria derrotada não aceita, se entende que foi erro crasso e engano triste as opções da maioria, porque permite, passivamente, que tudo isso aconteça debaixo de seu nariz? Será mesmo que a maioria está enganada, ou será que a revolta da minoria se fundamenta em interesses particulares prejudicados?

         Há dois tipos de reclamadores ou revoltados: o primeiro é aquele que, de fato, percebe os conluios e se sente impotente para impedi-los; o outro, mais comum, é aquele que por qualquer motivo, ficou de fora do rateio político.

         Até hoje, nunca assisti a movimento ou eleição, cuja preocupação não fosse, única e exclusivamente, o poder. Nenhum deles até esta data, primou pelo povo e pela nação. Os políticos que responderam pelo governo há algumas décadas e os que atualmente respondem, têm vida fácil e sem problemas, enquanto que as camadas pobres continuam na mesma desgraça de mendigar  emprego,  saúde, salário digno e  educação. A corrupção, as mordomias..., tudo de errado enfim, continua do mesmo jeito.

         Aprendi a detestar reuniões de planos, aquelas em que tanto se fala e nada se faz. Como sou mais um brasileiro covarde que assiste aos desmandos e toda sorte de roubos sem ter a coragem de empunhar um trabuco e partir para a luta, resolvi falar de flores, de pássaros, da beleza do luar e da alegria de, apesar de tudo, estar vivendo numa geração privilegiada.

         Ontem, nossos ancestrais tinham a natureza incólume, bela e majestosa, mas não conheciam o progresso que hoje nos maravilha com seus efeitos e recursos quase divinos. Amanhã, nossos sucessores poderão até ter o sol como energia de locomoção, mas não verão mais tantas coisas bonitas que Deus criou para servir e deleitar aqueles que foram criados à Sua imagem e semelhança.

         Hoje, porém, temos ainda muito das duas coisas. É-nos possível encontrar, algures, uma nascente cristalina, uma sequóia ou mesmo um jacarandá, cachoeiras e canhões profundos, pássaros livres e até gente pura, honesta e sem maldade.

         No ar, aviões supersônicos cruzam os céus; a televisão mostra um acoplamento espacial de naves; alguém diz alô lá do outro lado do planeta e nós respondemos daqui, vendo-lhe a fisionomia triste ou alegre. Choques de maravilhas que acontecem de um lado e de outro do muro que encimamos, o muro da transição de mais duas importantes eras.

         E nós ficamos atônitos, sem saber se lutamos para adiar o que jamais poderá ser visto ou recuperado, ou se mergulhamos de cabeça neste novo tempo de progresso e mistérios. De qualquer forma, por força de circunstâncias irreversíveis, a natureza sucumbirá para dar lugar ao progresso, pois, enquanto ela se enfraquece e se deteriora pelo insensatez humana, ele se instala invitatório, oferecendo conforto e maravilhas, novidades e surpresas, tão afeitas ao ser mais curioso da terra: o homem.

         O certo é que natureza e progresso não convivem harmoniosamente: um ou outro terá de sucumbir. Há quem defenda a possibilidade de se fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas no fundo, nem a eles próprios se convencem. Criar um porco dentro de um jardim sem que este seja destruído, todo mundo sabe, é algo impossível.

         De minha parte, estou muito feliz por estar aqui, vendo o sol nascer e sentindo ainda as pulsações de meu coração. Vou vivendo enquanto puder, achando até graça pelo esforço inútil daqueles que pensam que alguma coisa material foi feita para sempre. Tudo isso passará, não só a natureza, mas também tudo o que nela vive e existe.

         A terra passará, as galáxias desaparecerão e outras coisas, outros mundos, outros seres surgirão, no rodízio eterno dos mistérios. Quando todos entenderem isso, as noites serão mais bem dormidas, os dias mais bem vividos, e até a ganância de tanta gente perderá sua intensidade desmesurada.

         Olhemos, agora, o pouco de natureza que nos sobrou e maravilhemo-nos com o progresso estonteante que nos invade. Afinal, somos pequenos deuses, feitos por um Deus maior e que... bem... é melhor tentar entender: preocupa-Se com a gente e sabe até quantos fios de cabelo tem a nossa cabeça — e que continue "sendo feita a Sua vontade, assim na terra como nos céus". Afinal, se as coisas tivessem de ser diferentes, certamente seriam, pois Deus, como onisciente, onipresente e poderoso, não teria criado tudo isso se não Lhe conviesse que assim fosse.

 

O UNIVERSO DE CADA UM

         Diz lá um provérbio: "O que seria do verde se todos gostassem do amarelo?" Este anexim encerra, podemos assim dizer, o grande segredo para entendermos as pessoas e  sermos por elas compreendidos. Quem de nós ainda não se deparou com pessoas que não aceitam, definitivamente, que outros pensem e ajam diferentemente delas?

         Deus, quando engendrou o nosso mundo, pensou em tudo. Por incrível que pareça, em muito breve atingiremos o patamar de seis bilhões de seres humanos e mesmo assim, ou mil vezes mais, jamais haverá duas pessoas, física e mentalmente iguais.

         Se atentássemos mais amiúde para esse detalhe, possivelmente seríamos mais compreensivos para com aquelas pessoas que vivem diferentemente de nós. Houve um tempo em que, como produto do meio, também eu acreditava nas chamas do inferno para aqueles que não eram católicos; aqueles que se suicidavam; aqueles que matavam... Nunca houve alguém que me chamasse a atenção para o pequeno grande detalhe da "poção genética" usada na criação de cada ser humano.

         Os homens vivem tentando copiar as coisas que Deus deixou. A partir do funcionamento de nosso organismo, engenharam as máquinas; observando nosso cérebro, os computadores. E apesar de medíocres aos olhos de Deus, os inventos modernos bem nos dão a idéia de perfeição com que fomos criados, pois ainda que rudimentares e sofríveis, ficamos maravilhados diante deles.

         Vejam como os computadores são programados e tentem realizar algum trabalho fora de seus programas. Não é por outra razão que hoje, não só não condeno ninguém como ainda posso entendê-los melhor. É extremamente difícil navegar em alto mar numa bacia de lavar os pés  e, simplesmente impossível, executar a mesma tarefa com um trem de ferro. É que cada uma dessas coisas foi feita para outro tipo de utilização.

         Apesar de não entender o significado científico de genética e muito menos de suas variações, sei que nossas inclinações, nossa vocação, nosso jeito ou não para determinadas tarefas ou profissões, vem sem nossa escolha ou opção, embutido misteriosamente no dia em que nos geraram. Ora, que reclamar da máquina que foi construída para correr em cima de trilhos, se insistirmos que  voe?

         Sei que há também algo mais em nosso âmago (a força de vontade, por exemplo)  capaz de, ao menos, refrear as más opções genéticas de nossa criação, mas que, também, em muito desobriga o portador de uma prestação de conta mais rigorosa. O bom senso, a sensatez, a paciência..., funcionam como freio a um carro criado para alta velocidade e que, nem sempre, trafega por rodovias compatíveis.

         Já tantas vezes afirmei minha crença nos sobressaltos do além, onde certamente nos surpreenderemos com capetas no céu e santos no inferno. Por mais que tentemos, jamais será possível um julgamento justo a nossos semelhantes. As razões que levam determinadas pessoas a cometer crimes ou atos de bravura, só Deus as conhece e pode julgar.  

         Somos um universo singular, mais complexo e inexplicável que as longínquas galáxias do infinito. Ninguém, aqui neste mundo, tem condição de julgar seu semelhante. Se o fizer, certamente será réu de mau juízo. Temos por obrigação reconhecer isto, aceitando o nosso irmão como ele é, na certeza de que, também nós, somos vistos por ele sob o mesmo prisma com que o enxergamos.

         Saber  ou descobrir o autor de um crime ou de qualquer outro malfeito, é bastante possível; difícil mesmo é absorver e aceitar as razões que o levaram a tal desvario.

 

PARA SER O MELHOR

         Quando lemos a vida de Rui Barbosa, Machado de Assis... Quando vemos pela televisão as jogadas criativas e incríveis levadas a efeito por  Pelé, Garrincha... Quando nos falam da vida de Chico Xavier, da irmã Dulce, de Antônio F. Lisboa... Quando, depois de tanto tempo ainda se derramam lágrimas pela morte do maior piloto de Fórmula 1 que o mundo já conheceu... Quando ficamos orgulhosos por nossas celebridades maiores, imaginamos que foi a graça de Deus que os fez sobrepujar outros tantos competidores.

         Também acredito que sem a anuência de Deus, sem Seu veredicto proclamado nos céus no dia da geração da vida, nenhuma criatura chegaria a se destacar entre os milhões de concorrentes que existem em cada ramificação dos esportes, da cultura, da música, dos inventos, das artes e de tudo quanto o homem se digne realizar.

         No entanto, jamais (e se apontarem um, é falso) houve um maior, um melhor, pela simples graça de Deus. Não é que Deus seja incapaz de fazer de um preguiçoso, um campeão. A verdade é que, embutida no contrato, vem a cláusula que exige a nossa força de vontade, a nossa coragem e a nossa determinação, tão necessárias quanto a graça de Deus. Como testemunhas temos grandes homens que desempenharam missões que embasbacaram o mundo, e que foram escolhidos entre  pessoas simples, humildes e até deficientes.

         Ninguém nasce sabendo tudo. É muito abrangente o provérbio que diz que o espinho nasce com a ponta. Deus dá a inteligência, mas não o conhecimento; dá a ginga, mas não os passos; dá os músculos sadios, mas não a velocidade e a força; dá o raciocínio rápido, mas não resolve os problemas; dá o caniço, mas não o peixe; dá a vocação, o tino, o dom, a perspicácia: dá o diamante bruto, mas não o burila para que brilhe por si.

         É indispensável nosso consentimento e participação a cada minuto de nossas vidas, para que o dom de Deus atinja sua plenitude e o homem venha a ser o melhor em sua atividade. Isto custa muito esforço, horas de sono, anos de dedicação, abstinências, mortificações, estudos, disciplina, enfim, uma série completa de virtudes, tão custosas quanto a glória a que equivale: a de ser o melhor naquilo que faz, entre mil, milhões ou até bilhões de concorrentes — se enquadrarmos o homem no contexto mundial.

         Durante os meus "muitos poucos anos", conheci milhares de pessoas, tanto nos esportes como nas artes e no trabalho. Vi, no futebol, muitos Pelés serem Zés Pretinho; muitos Ruis Barbosa gritando pelas ruas: "Olha o jornal!"...; muitos Robertos Carlos, fazendo serestas, embriagados pelas ruelas escuras de minha vila; muitos grandes homens relegados ao anonimato por causa da pusilanimidade.

         Eu notava neles a grande facilidade de tocar na bola, de dar o drible; de escreverem um lauda inteira e bem escrita, sem erguer a caneta do papel; de cantarem músicas de improviso, quase sem tropeço algum. Era fácil perceber que haviam nascido (cada um, respectivamente) com o dom para jogar futebol, ser escritor ou um exímio cantor. A graça de Deus era quase palpável, mas o desleixo, a preguiça, a falta de coragem e de força de vontade, transformaram-nos em mortais comuns.

         Em rodas de amigos, hoje, depois de tantos anos, lembramos deles com pesar, pois seriam grandes e imortais homens, orgulho da terra, não fosse a cachaça, as drogas, a vida airada e o pouco caso para com a graça de Deus.

         Quem tem algum conhecimento da história, percebe que, quando está escrito nos fastos do Eterno, só nossa preguiça pode impedir que a graça de Deus realize em nós, maravilhas. Por isso a Irmã Dulce, talvez a mais pobre e debilitada das baianas, propiciou mais bem-estar e conforto aos pobres e necessitados de Salvador, do que muitos milionários do mundo inteiro. Ela recebeu a semente, plantou-a, irrigou-a, cuidou dela e colheu seus frutos.

         Qualquer um, quando tem vocação, pode se destacar. Não é preciso ser rico, ter patrocinadores..., é necessário apenas querer e lutar. Não é por menos que temos grandes pintores sem os braços; grandes altruístas, extremamente doentes e pobres; grandes campeões vindos dos guetos e das favelas; grandes alpinistas, totalmente cegos; grandes homens em todo o mundo, passado e presente, que nos estontearam e estonteiam pela capacidade incrível de superar todas as dificuldades. O homem pode falhar com Deus mas Ele jamais  com os homens.

         Gostaria muito que os adolescentes lessem e acreditassem nisso. Há entre eles, certamente, muitos Shakespeares, Einsteins, Freuds, Moisés, Spencers, Cíceros, Platões, Demóstenes, Da Vincis, Zicos, Ayrtons Senna, em suma, grandes cientistas, atletas, inventores, sábios, cirurgiões, artistas, atores..., anônimos portadores de dons presenteados por Deus e que vivem despercebidos entre nós por causa do medo de enfrentar as adversidades.

         Não duvidem: quem quer uma coisa possível e honesta, e luta por ela, consegue. Quando se almeja algo assim, temos o aval de Deus, e com Ele, sem restrições, se fizermos a nossa parte, as coisas acontecem.

 

AS RENEGADAS

         Ali na rua Pernambuco, entre o aparecimento temeroso do sol e a lama de março provocada  pelas chuvas de nosso inverno, uma senhora famélica, tendo nos braços uma criança de seus dois anos, pedia um prato de comida. A dona da casa entreabriu a porta, conversou com a maltrapilha, voltando em seguida para a cozinha. Pela fresta deixada via-se um aparelho de televisão ligado num dos noticiários do meio-dia:

         "Pelo oitavo dia consecutivo não há quorum no Congresso. Milhões são pagos a parlamentares que não comparecem..."

         A mãe, cansada, põe a criança no chão. A menina logo começa a esfregar o naco de pão seco na calçada para em seguida levá-lo à boca.

         "Novo escândalo na Previdência: milhões de dólares são desviados enquanto os doentes morrem por falta de assistência..."

         A mãe, recostada no muro quente e úmido, estende a mão a um transeunte. O noticiário continua:

         "Deputados legislam em causa própria e aprovam salários exorbitantes, enquanto se nega ao trabalhador a recuperação das perdas salariais..."

         Um vendedor de frutas passa, olha a miséria que cerca aquela mulher e aquela criança, compadece-se, despenca duas bananas e as oferece. A mulher, olhar sem brilho, olhar de filha abandonada por sua própria mãe, apanha as frutas. Descasca uma e divide com a filha que continua a esfregar o pão no chão imundo e a metê-lo na boca.

         "A Justiça, última instância de esperança para coibir a corrupção desenfreada, alia-se ao poder deixando o povo humilde totalmente órfão..."

         Mãe e filha continuam ali na calçada, esperando que a mulher caridosa retorne com o prato de comida.

         "A comissão parlamentar impede o andamento do processo porque há filhos dos mesmos envolvidos na acusação..."

         A mulher caridosa não vem. Ela descasca a outra banana, torna a dividir com a filha e permanece paciente. Não há pressa além da fome, não tem onde chegar. O noticiário continua, agora, com os últimos acontecimentos locais, notícias da cidade que a viu nascer, que já lhe deu emprego, que já a fez feliz um dia.

         "Um delegado da Polícia Federal apresenta provas de corrupção e desvios de verba na Prefeitura. Milhões foram roubados e usados em causa própria enquanto a população morre de fome e a cidade se acaba..."

         Mesmo em sua santa ingenuidade, a maltrapilha imagina estarem falando dela. Mas o que falavam? Era coisa boa ou ruim?

         "Embora seja inacreditável, aqueles que sempre acusaram o ex-prefeito de pistoleiro e ladrão, agora, em busca de votos, aliam-se a ele e sufocam os movimentos em prol da moralização e da ética. Misteriosa ordem judicial impede que as contas dele sejam verificadas..."

         Passa um velhinho bem arrumado, olhar bondoso. Ela arrisca pedir. Ele pára, mete a mão no bolso e lhe passa algumas moedas. Ela toma coragem:

         — Que horas são?

         — Duas da tarde — respondeu o homem.

         Ela olhou para dentro da casa: ninguém, nenhum movimento. Agachou-se, tomou a filha nos braços mirrados, olhou para um lado, para outro, atravessou a rua e foi seguindo para qualquer lugar.

         Às quinze horas, a mulher bondosa lembrou-se das maltrapilhas e veio com o prato de comida. No lugar, apenas, duas cascas de banana.

         Aquela mulher e aquela criança nunca irão entender porque a PÁTRIA MÃE faz tanta diferença entre seus próprios filhos. Não entenderão nunca porque há gente que precisa se vestir de seda e outros andarem nus; porque uns precisam de bons colégios e outros não têm o direito de estudar; porque uns moram em palácios e outros são enxotados das marquises; porque alguns se estabelecem o salário e as imunidades e outros não têm o direito, sequer, de reclamar: NÃO SABERÃO JAMAIS QUE NASCERAM NUM PAÍS CUJAS LEIS NÃO PASSAM, PARA ELAS, DE LIXO DA PIOR ESPÉCIE.

  

O SONHO DE UMA CRIANÇA

         Quando abri a porta não poderia imaginar, senão, que mais uma vítima do descaso social estivesse ali, pedindo a caridade de trapos ou comida. Não era.

         Uma criatura de seus quatorze anos, uma criança, mocinha talvez, pobre e esquálida, queria falar-me. Do lado de fora do muro, mais três coleguinhas esperavam. Pedi que as chamasse. Um tanto envergonhadas elas se negaram, alegando que a que estava comigo diria tudo.

         — Sente-se — disse-lhe com a maior afabilidade possível.

         Ela obedeceu. Apesar de pobre e humilde, era bonita, era criança. Há, como nos botões das roseiras, uma beleza indefinível nas crianças. Para mim, todas as crianças do mundo são bonitas. A falta de maldade premeditada, a força da vida e o brilho dos olhos não me permitem vê-las de outra maneira.

         — O que deseja, ou o que desejam, afinal?

         — Elas só vieram me fazer companhia. Não se lembra mais de nós? Já estivemos aqui antes.

         Lembrei-me, então, que certa vez as havia flagrado revolvendo lixo e recolhendo pedaços de velhos brinquedos, atrás do muro de minha casa.

         — Lembro-me agora — respondi com um aperto no peito, como se meu coração tivesse recebido a contragosto, aquele estímulo de curto passado. Nós  não gostamos quando somos chamados à atenção pelos descasos que praticamos: preferimos, antes, tentar esquecer o mais rápido possível. Deus, porém, é incansável em nos alertar, mostrando em cada dia, em cada esquina, em cada favela, o quanto há de sofrimento e o quanto poderíamos diminuí-lo.

         — Estou precisando de sua ajuda.

         — E acha que posso ajudá-la?

         — Acho sim. O senhor só pode.

         — Então, diga.

         — Estou com vergonha. Mal conheço o senhor e já venho pedir favor.

         — Eu vou entender — respondi, com a intenção de forçá-la a dizer logo o que pretendia.

         Percebendo que, possivelmente, eu estivesse procurando me esquivar, ela gaguejou logo:

         — Sabe..., bem..., eu estou precisando de dinheiro. É pouco, não é muito não. Comprei um objeto a prestação..., bem, na época eu estava empregada e achei que podia pagar.

         — Agora está, pelo que me parece, desempregada.

         — É isso. O patrão me mandou embora.

         Sentindo que estava mentindo, mas vendo nela uma criança com sonhos do tamanho de sua ingenuidade, tentei ajudar:

         — De quanto precisa?

         — Trinta reais.

         — E ganhava isto por mês?

         — Não. Fui para lá sem combinar nada. No fim do mês ele só me pagou dez reais. Quando disse que era pouco, ele insinuou que só havia um jeito de aumentar meu salário.

         — Entendo, entendo — entrecortei a conversa, percebendo que, mesmo sendo ainda uma criança, o germe da malícia já a havia infectado. Por isto, fui conciso mais uma vez:

         — E você aceitou?

         — Não, mas agora estou arrependida. Meu pai irá esfolar-me se o cobrador for lá em casa.

         Conversamos ainda um bom bocado de tempo, quando já não sabendo como continuar com a mentira, ela abriu o jogo:

         — Nunca trabalhei e nem devo nada a ninguém. É que vai haver uma festa lá no meu bairro e fui escolhida para rainha. Só que a melhor roupa que tenho é esta e mesmo assim, não serve. Oh, meu Deus, eu queria tanto participar! É um sonho! O senhor  já teve sonhos?

         — Muitos!...

         — Pois é, é um sonho.

         Olhei-a bem: uma criança, uma adolescente, sonhando com um vestido rendado e sendo a rainha de seu bairro. Sonho de criança pobre — o sonho, talvez, mais importante de sua vida. Eu ainda estava absorvido por esses pensamentos, quando ela, talvez imaginando-me indeciso, tentou encorajar-me:

         — Eu faço qualquer coisa para lhe pagar. Pode pedir que eu faço, juro.

         — Por favor, não diga mais nada. Reze apenas para que Deus, sempre que lhe permitir sonhar, a enderece bem.

         — Não entendi.

         — Eu sei, mas Deus, com certeza, fará você entender um dia.

            Quando fecharam o portão, curiosamente, olhei por cima do muro. Vi pequenas saias esvoaçando. A felicidade parecia ser tocável naquela menina. E então, voltei pensativo para debaixo das mangueiras, imaginando que, até mesmo o dinheiro, essa coisa suja que faz matar, roubar, espezinhar, empedernir corações, que é a causa principal de toda desgraça que assola o mundo, pode, também, fazer a felicidade de uma criança.

 

DUPLO ASSASSINATO

Paráfrase ao diário de uma criança.

         Na rústica sala de aula, quarenta pares de olhinhos me fitavam curiosos. Eu devia participar de um debate sobre um dos meus livros. Embora raramente, alguns colégios solicitam isto quando lanço alguma obra.

         Entre as estudantes, chamou-me a atenção uma adolescente gorduchinha, quieta e triste em seu canto. A angústia que emanava de seu olhar perdido e distante, parecia palpável. Ela era alguém que olhava sem enxergar; alguém que retinha para si, o mistério de estar morta em vida. Quando o debate terminou, esgueirando-se assustada, ela veio correndo até meu carro que já saía.

         — O senhor se importaria de ler meu diário?

         Embora surpreso, tentei ser o mais natural possível:

         — Posso fazê-lo com muito prazer, se é o que deseja.

         Era um velho caderno sem capa, iniciado em agosto de 1988. Em cada página havia uma confissão de angústia, de dor e de tristeza.

         "Resolvi escrever este caderno porque não tenho amigos... Meus momentos são uma eternidade escura... A solidão de nove meses no ventre de minha mãe ainda continua comigo... Ah, se eu pudesse ser sempre uma criança!... Pai, por que deixou que lhe matassem? Um dia, estou certa, encontrarei o senhor outra vez e juntos riremos de minha solidão... A tristeza invade-me de repente... É complicado, eu não consigo entender... Meus olhos ainda têm brilho, mas é um brilho medroso, reflexo de minha angústia... Sou, nesse circo da vida, um palhaço sem graça: sou a tristeza mais triste que existe... Minha solidão, nem um mundo de gente afasta... Meu Deus!, minha única esperança!..."

         E por fim:

         "Um dia conheci uma criança. Era linda, gorducha, cheia de vida. Tinha pai e mãe e os amava. Tudo era lindo. Um simples gesto, um simples toque a encantava e fazia sorrir. Não conhecia a dor, nem a tristeza, nem a amargura. Tudo era uma linda e real fantasia. A criança tinha nove anos e só conhecia a pureza, o amor e a amizade verdadeira.

          Dois anos depois seu mundo de sonhos se desmoronou: uma tragédia se abateu sobre sua cabecinha infantil e sonhadora, incapaz de entender a crueldade humana. Alguém sem alma, de maneira brutal, matou o homem que ela mais amava: seu pai. Aquele homem era seu mundo de fantasias, sua felicidade, seu herói. Ele a havia gerado e durante onze anos lhe dado carinho, proteção e amor. Como foram curtos aqueles anos! Quanta coisa para dizer, quantos abraços  a serem trocados, quantos beijinhos nas bochechas ainda poderia ter recebido!...

         Se alguém selvagem e desumano não tivesse apertado o gatilho, ela hoje não conheceria a dor, a fome, a tristeza de uma lágrima, o sofrimento da solidão. E aquela criança que fora doce e meiga, cheia de sonhos e de felicidade, naquele exato momento do disparo, embora longe, fora atingida em cheio, morrendo também.

         O tempo passou, a vida continuou pra muitos. Aquela criança, de um momento para outro se viu obrigada a trocar a pureza de seus sonhos, pela malícia da sobrevivência. Sua infância ficou no passado. A fome, o frio e a angústia tornaram-se seus companheiros de infortúnio. Depois que lhe destruíram os sonhos ela se fechou em seu próprio mundo de dor. Tenho muita pena dessa criança que assassinaram tão cedo, mesmo porque esta criança sou eu."

         Sinceramente, fosse eu um assassino, pensaria muito, antes de apertar o gatilho contra  o pai de uma criança!

 

ÁGUAS PASSADAS

         Hoje estou com saudade, muita saudade de meus idos de criança. Agora percebo, como cantou Ataulfo Alves, que  eu era feliz e não sabia. Tempo que nunca mais terei de volta!

         Quantos adultos hoje não passam horas perscrutando o céu — olhando sem ver nada — só revivendo uma retrospectiva em que foi feliz! Não há — hoje entendo — felicidade completa sem pureza e simplicidade. Acho que é por isso que só a encontramos em Deus, no sossego de nossa consciência.

         A gente passava seis dias da semana sonhando com o domingo. Nele sempre estava previsto algum lazer sem maldade. É exatamente aquela pureza que havia que hoje me dá saudades. Toda preocupação era com a bola de borracha, varas de pescar, câmaras infláveis e, principalmente, com a comida, que generalizávamos de farofão.

         Lotávamos um velho Chevrolet e saíamos para um canto qualquer do município, ora para o futebol, ora para um convescote à beira de um rio ou riacho, ora para uma pescaria ou caçada, e todos — hoje posso afirmar — só pensavam em se divertir. Agora, o mundo em que vivo evoluiu muito, mas temo que para pior. A maioria anda apressada, parece afoita na idéia fixa de posses sem limites. Daí aos descaminhos que geram todo tipo de injustiça social e de impudicícia, é um pulo.

         Ah, aqueles tempos!... Que saudade deles! Saudade do Capirda, do Neno, da Zenaide, do Nego... O Nego!... Foi a amizade mais pura e duradoura de meus tempos de criança. Dócil, servil, amigo... Onde estará neste momento? Cresceu, casou-se, venceu na vida, ainda vive? Para ser sincero, enquanto os cientistas perdem o tempo organizando teses para explicar o aparecimento do universo, eu o perco imaginando por aonde andam os meus amiguinhos de infância.

         E o Pão-tatu? É..., desse não guardo boas recordações! Era o pesadelo de nossa terceira-série. Quantas vezes ouriçou meus cabelos empastados de gomex, uma brilhantina que depois apelidaram, acredito, de laquê.  O diabo é que uma vez encrespados, ninguém ajeitava mais. Eu ficava parecendo um autêntico anu-branco. Com o Pão-tatu aprendi que ódio não mata ninguém.

         O certo é que naquele tempo a gente era feliz e encontrava prazer mesmo fora do sexo. Em cima de uma carroceria de um velho caminhão a moçada cantava, ria, brincava... A vila era pequena mas dava para ser feliz. Ah, como dava!...

         O meu torrãozinho natal não passava de dezoito alqueires de terra, mas se felicidade possuísse fórmula, eu diria que era feita de um galo carijó de nome Sabuco; de um gato pedrês chamado Romeu; de uma gaiola de imbaúba com um gaturamo-da-serra dentro; de um cavalo-de-pau feito com haste de assa-peixe; de uma "seta" (estilingue) com gancho de jataí; de bolinhas-de-gude coloridas e de uma bola de tênis, presenteada como de borracha: na época nem sabíamos o que era tênis.

         Para sentir esta graça é preciso não saber o que é vaidade, ter o nariz pelado de muito sol, usar calças com suspensórios, levar a tiracolo um embornal de pelotas de "batinga", rezar ave-marias apressadas e xingar, xingar muito quando o dedo sem unha esbarrar num calhau ressequido. É, para ser feliz, de fato, é preciso ser criança. Que saudade!...

 

O ESPELHO E A FLOR

         Quando o dia amanheceu, a flor havia desabrochado. Um dia antes era um botão enroscado em si mesmo, sem expressividade alguma. Um chuvisco intermitente acumulara  pequenas gotas cristalinas em suas pétalas. As gotículas, como se fossem crianças travessas, agarravam-se em suas bordas, e ao receberem a incidência amena do sol da manhã, refratavam estrelas miúdas que caíam como lágrimas de fogos de artifício.

         Aproximei-me maravilhado: jamais me acostumarei com a beleza das flores! Em cada uma que admiro vejo algo diferente, como se os céus, fazendo das roseiras seu correio, estivessem nos enviando sortidos e policromáticos cartões de felicidade.

         Agachei-me. Puxa!, era bonita e perfeita demais! Teriam: Da Vinci, Botticelli, Michelangelo, Portinari..., absorvido a técnica de reproduzir, fielmente, uma flor? Teriam conseguido, na química daquele tempo, um jogo de cores que a elas se assemelhasse?

         Uma abelha que passava não se furtou à tentação: pousou sobre ela desfilando como se fosse uma rainha; a borboleta amarela sobrevoou, esperando pacientemente por sua vez. Depois, também pousou, tateou-a apaixonadamente, abanando-a com suas asas singelas. Quantas flores estariam desabrochando naquela manhã sem que a sensibilidade humana percebesse! E Deus, por meio de sua obra prima, a natureza, continua utilizando desses subterfúgios sutis para dizer que nos ama acima de todas as outras coisas que criou. 

         Ao sair daquele êxtase quase místico, já sentia as pernas dormentes por causa da posição de cócoras em que me encontrava. Afastei-me cautelosamente a fim de não atrapalhar o prazer da borboleta amarela que passeava com suas minúsculas antenas clavadas por sobre as folhas modificadas e coloridas.

         Quando voltei do trabalho, já era noite. No outro dia saí cedo pela porta da sala e também não fui ver a flor que parecia ter vindo para dizer-me alguma coisa. Ao meio-dia quando retornei para almoçar, lembrei-me dela. Já não era manhã, já não havia aquela garoa de boas-vindas para ela que nascera. O sol queimava, ardia, fazia ondas de calor em tudo que se olhasse. Mesmo assim fui visitá-la, sempre com aquela imagem bonita que me ficara do dia anterior: imagem alegre e fresca de tudo logo que nasce.

         Que decepção!... Pétalas caídas, folhas sem frescor, murchas, envelhecidas... envelhecidas sim, porque até os segundos podem, às vezes, ser eternos. Olhei-a penalizado. Nem a abelha, nem a borboleta..., nem um besouro desastrado assistia à sua desdita. Gostaria de refazê-la, torná-la bela e perfumada outra vez, mas fui obrigado a afastar-me frustrado por causa de minha impotência diante do irreversível.

         Ao chegar em casa, o almoço estava sendo servido. Fui ao banheiro lavar as mãos. Na frente, um grande espelho. Ali, durante tantos anos, aquele espelho estivera em minha frente, mostrando meu declínio, avisando-me que o calor abrasante dos infortúnios estavam me destruindo e que eu devia atentar para o fato. No entanto, eu insistia em não querer observar.

Aproximei bem meu rosto e percebi que a manhã orvalhada havia passado e que o sol do tempo jogara por terra grande parte do frescor de minha existência. Percebi que também nós somos como os cartões de felicidade que os anjos nos enviam através das roseiras: enroscamo-nos como os botões,  no feto; desabrochamos no parto; murchamos com os sofrimentos e desaparecemos queimados pelo sol impiedoso do tempo.

 

VENDO ESTRELAS

         Era uma vez um homem que gostava da natureza. Embora morasse numa cidade do Maranhão,  sempre quando tinha oportunidade, deslocava-se para sua modesta fazenda no estado do Pará. Todas as noites ele saía para o terreiro e ficava escutando os sons noturnos e olhando o infinito estrelejado. Lá, como costumava dizer, era possível ouvir o barulho do próprio silêncio. Miríades de estrelas pontilhavam sua galáxia: planetas, estrelas, satélites, meteoros errantes...

         O céu, por causa das chuvas rigorosas  do inverno que apenas se fora, parecia-lhe lavado e enxaguado, tal a nitidez cintilante do firmamento. Até o Caminho de Santiago mostrava, a olho nu, suas sinuosidades luminosas.

         Por hora inteira aquela imensidão e aquele silêncio entranhavam nele, questionando a razão de sua estada ali, naquele lugar e naquele momento. Quando estes pensamentos lhe assediavam, ele recostava a cabeça no tronco da ingazeira e ficava cismando. As perguntas avassalavam-lhe, atropelavam-lhe, todas afoitas à cata de respostas que ele jamais encontrara.

         Milhões de pontinhos pisca-piscavam no infinito. Ele sabia que todos eram estrelas maiores que a terra. Imaginava também que cada uma, como nosso sol, bem podia possuir planetas, e neles, outros tipos de vida. Mas tudo se tornava parecido quando os imaginava pendurados no nada, perdidos na imensidão, sem rumo, sem garantias, inteiramente ao bel prazer de uma rota sem destino.

         Dentro de cada mundo — imaginariamente com vida — seres sem certeza do futuro, viveriam também um presente de egoísmo, de ganância e de violência?

         Seus pensamentos retornavam à Terra, seu lar. Naquela liberdade de raciocínio, lembrava os pensadores, as religiões..., os tantos que pregaram suas idéias imaginando-as verdadeiras: os materialistas afirmando que tudo se deu por acaso; os espiritualistas asseverando que um Ser Superior foi o autor de tudo quanto existe. Quem está com a razão, se ambas as partes que afirmam são formadas de seres humanos? Balançava a cabeça numa vã tentativa de espantar tais pensamentos. Eles sempre o atenazaram, como  sádicos promotores.

            No mundo das milhões de probabilidades, não achava impossível a vida ter surgido por acaso, mas daí a acreditar que tenha se evoluído a ponto de criar machos e fêmeas, não conseguia entender nem admitir. Concluía, então, que a existência de Deus era fato consumado. Rememorava  Sua exortação lembrando  que Seu reino não era desta terra: afirmação das  mais importantes do Evangelho e, também, das mais consideradas pela maior parte dos políticos e homens ambiciosos da terra: se não é de Deus, bem pode ser deles.

            Olhava para dentro de si: mais de a metade da vida vivida, com quase nada realizado. Dia após dia pensando na sobrevivência, preocupando-se com o amanhã... bem..., sendo mais um idiota entre os tantos que se imaginam fisicamente eternos.

            Sentia inveja dos tauístas quando lembravam que é melhor parar um pouco antes de atingir o limite; de que não se deve afiar demais a lâmina, pois se cegará mais rapidamente; de que quem ajunta muito não se livrará dos ladrões; de que também aos colecionadores de riquezas e títulos, a morte é uma realidade.

            Cabisbaixo, "tão certo como aqueles que duvidam", ele voltava à sua rede. Na roça ainda se pode dormir com as janelas abertas sem o perigo de ser assaltado ou roubado por ladrões. Por elas ele via o firmamento límpido e estrelado.  Assim dormia. Dormia e sonhava com um povo fraterno, cada um estendendo a mão para o seu próximo, na expectativa de que, no vôo perdido de seu mundo pelo infinito, cada um pudesse ser a esperança  e o amparo do outro.

            Parecia-lhe que cada um absorvia a consciência dos perdidos no deserto, nas florestas, nos altos-mares... e que só restava, como esperança,  a solidariedade e a incerteza do dia seguinte, como um imprevisível salto no escuro.            Quando acordava pela manhã,  era-lhe estranho ver gente afobada, apressada, cada um se dirigindo às pressas para o trabalho.  Só então percebia que havia dormido muito e sonhado demais.

 

"OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO..."

         Caminhávamos por uma vereda da floresta, quando percebi um cipó qualquer que estendia um verdadeiro ramalhete de flores na margem do nosso caminho. Foi como se eu visse na orla de nossa passagem, um anjo de Deus cheio de orgulho a nos saudar: "Este presente de Deus é para vocês!"

         — Olha — disse para meu companheiro, apontando com o indicador — vê que maravilha da natureza!

         — Maravilha? — limitou-se a perguntar como se não tivesse visto aquele buquê multicolorido que se estendia em cachos até nossos pés.

         — Não significa nada para você? — insisti surpreso.

         — As flores? Ora, isso é tão comum!  E dizendo isto foi passando por cima, esmagando com as botas, muitas delas.

         Se Deus fosse passível de erros, eu diria que tinha falhado quanto a sensibilidade de muita gente, pois a mim me parece impossível passar desapercebido por uma flor, um bosque ou regato cristalino, sem ater-me extasiado diante da beleza que cada um encerra.

         As borboletas amarelas, brancas e azuis que se agrupam em torno de uma poça d'água como se fossem átomos gigantes em constantes circunvoluções; os tangarás que dançam e gorjeiam à sombra de um bosque; o firmamento que nos cobre com seu lençol de estrelas; ..., os vaga-lumes que cruzam a escuridão da noite com suas lanterninhas acesas; os oceanos, os mares, lagos e rios, com seus peixes e seus mistérios, suas florestas submarinas; as montanhas geladas; as dunas ambulantes; as nuvens,  o azul do infinito, o pôr-do-sol, o sol que nasce, a lua que desponta; a águia que plana; a mais bela mulher que desfila; a criança que reza de mãos-postas na cabeceira da cama... Meu Deus, quanta beleza, quanta cor, quanta maravilha!...

         Tanta coisa para ser admirada e agradecida e nós, como filhos desajuizados que recebem dos pais como presentes, finos e quebradiços cristais, quase tudo degradamos. Caminhamos, pisamos, destruímos tudo o que, apesar de belo e sagrado, não nos torna  rico e poderoso.

         Sabe, eu gosto de pássaros! Crio centenas deles numa área aberta de dez alqueires. Sairinhas coloridas, bombeirinhos, curiós, bigodinhos, pipiras, pintassilgos, corrupiões, inhapins, curicas, pombinhas..., e mais para o lado da mata, araras, ararajubas, gaviões-vigia, pararis, tucanos, jacus, enfim, centenas de aves de pequeno e de grande porte que se apresentam todas as manhãs como se fossem um coral de anjos alados a receber o nosso Astro Rei.

         Quando eu os criava em cativeiro, sempre tinha a visita de ratos. Pela manhã era comum eu encontrar meus passarinhos coloridos (cores que Picasso morreu invejando) estirados e amarfanhados pelo chão. Os belos trinados que Beethoven invejou e a graciosidade que as mais célebres modelos ainda tentam imitar, eram silenciados e desfeitos, brutalmente, pela avidez dos roedores.

         Somos — imagino — ratos invasores do viveiro de Deus. Maus inquilinos que sujam e degradam a casa alugada. Os ratos, no entanto, não estariam devorando meus pássaros se eu não tivesse antes ocupado seus nichos; meus pássaros não estariam à mercê de tais vândalos, se estivessem em liberdade, com todo espaço para voar e se proteger.

         Por isso, somos piores que os ratos, pois construímos nossos próprios males, sujamos e destruímos nossa própria casa. Ah, como devia ser lindo este planeta! Como ainda tem coisas lindas este nosso mundo!  Para alguns olhos, ainda existem regatos cristalinos, flores e pássaros policromáticos e avisos constantes  de que nossa ganância e nosso afã de tudo querer, não passa de insensata teimosia.

         Este mundo é grande, bonito, e dá, sobejamente, para todos os viventes. Pela manhã, ao despertar, que cada um de onde estiver, olhe pela fresta da janela e contemple a beleza deslumbrante de nosso planeta: as borboletas, os passarinhos, as flores, o sol que desponta, a baleia que esguicha, a lua cheia em seu esplendor, o grilo que saltita, a azulona que chororoca na encosta, o colibri que suga o néctar num beijo de adolescente apaixonado,...

         Escute com atenção e ouça uma vez por todas, a voz que ainda ressoa: "Olhai as aves do céu que não semeiam nem segam, nem fazem provimentos nos celeiros, e contudo nosso pai celestial as sustenta; olhai os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, no entanto nem Salomão em toda sua glória se cobriu jamais como um desses."

         Para que tanto corre-corre, tanta preocupação, se somos apenas uma diminuta parte desta conjuntura? Neste viveiro de Deus, sejamos como os passarinhos: corramos e cantemos a alegria de termos nascidos, dia-a-dia, como se cada minuto fosse o último — e esqueçamos o preconceito e o escrúpulo de que ser feliz é pecado.

            Você que  só pensa em acumular, pare um pouco, pense: ainda é tempo. Entenda a vida de uma vez, volte para ela e "deixe que os mortos enterrem seus mortos".

 

A ROSA VERMELHA

Seis de Outubro de 1994

         Um funcionário amigo e eu vínhamos conversando sobre a vida e seus mistérios quando percebemos um aglomerado de gente no meio do asfalto.

         — Ali aconteceu alguma coisa anormal — logo lembrou o amigo.

         — Certamente, um acidente grave — arrisquei.

         Encostamos o carro e fomos averiguar. Do lado esquerdo, um amontoado de latas corrugadas do que tinha sido, até bem pouco tempo atrás, um Santana cinza-metálico. Não posso afirmar se era novo ou de luxo: fora reduzido a sucata inqualificável, qualquer coisa com dois palmos de altura.

         A cinqüenta metros dali, do lado direito, um Mercedes Benz, sem as rodas e eixo dianteiros, colado ao barranco, atestava a violência do impacto. Gente acotovelava-se, perguntava, imaginava, criava hipóteses. Esgueirando-me, encostei no monte de latas amassadas. No asfalto, manchas de sangue, pedaços de gente, restos de tudo. Nada parecia inteiro, nem os mais compactos blocos de ferro maciço.

         Eu que já vinha cismando sobre a vida e seus mistérios, entreguei-me ainda mais às conjecturas. Olhando bem aqueles destroços, vi, entre as ferragens, uma fita cassete quebrada e uma rosa vermelha que, apesar de tênue, ainda permanecia no meio das ruínas, com suas pétalas no lugar. Estava tão perfeita e saudável no meio do sangue coagulado que parecia estar vivendo sua primeira manhã orvalhada.

         Quem estaria dentro daquele Santana? Pensando o quê? Quais eram seus planos? Por que foi tentar a ultrapassagem exatamente numa lombada? Por que tanta pressa? Onde teria, impreterivelmente, que chegar? Que compromissos seriam tão inadiáveis a ponto de justificar tamanha imprudência? Era homem, mulher, adolescente...? De quem ganhara ou para quem levava aquela linda rosa vermelha? Parecendo inconformada, a rosa resistira misteriosamente. Afigurava-se mensageira de uma enigmática e inadiável mensagem.

         E enquanto as suposições revoluteavam em minha cabeça, eu continuava pensando na vida, confirmando cada vez mais a filosofia de que a coisa mais importante é viver dignamente sem se preocupar tanto com os negócios, com a riqueza e com o futuro. A pressa que ceifa a vida de quem dirige transforma-se, um dia, em sossego e paciência eternos de quem a usa indefinidamente.

         É prudente trabalhar durante os dias úteis e descansar, se possível, todas as noites. Usar os dias santificados para pedir novas graças e agradecer a Deus as recebidas. É bom e justo usar os feriados para se divertir e aliviar as tensões. É sensato juntar apenas o necessário, para que Deus não nos cobre, mais tarde, a parte tirada dos outros  irmãos. É de justiça dividir o que nos sobra, mesmo porque jamais iremos conseguir dormir em duas camas ao mesmo tempo. Os seres humanos são uma grande família; somos todos irmãos e o mundo é a nossa casa. Direta ou indiretamente, tudo o que nos sobra, falta a alguém.

         Estou certo que concordam com isso, mas praticam? A maioria tem uma coisa na boca e outra no coração, porque o que vemos a cada dia é o fortalecimento do império da  ganância.

         Ali, naquele acidente, a coisa mais sensível e singela, mais frágil e delicada — a rosa vermelha — apesar da brutalidade do impacto, continuava inteira e formosa entre os destroços. Não tivera pressa, não se desesperara com o tempo. Dependente, desamparada, como se fosse uma criança perdida, ela aguardava os acontecimentos.

         Quantos sonhos encerrava! Agora estava sozinha, sem as fantasias, sem as ilusões ou lembranças de quem a levava.

         A um velhote taciturno, que também bisbilhotava de braços cruzados, perguntei:

         — Quantos havia no carro?

         — Me dissero que era uma tal de dona Helena, proprietária de uma serraria lá do Zero . Estava sozinha. Ela sempre andava com pressa. Parecia que...

         Hoje, quando escrevo estas coisas, fico sabendo pelos noticiários, que acabam de assassinar o prefeito Renato Cortez Moreira. As balas cruéis do revólver assassino, eliminaram também, milhares de sonhos. Certamente, muitas rosas vermelhas o acompanharão na misteriosa caminhada. Durarão mais que o homem em si, porque a roseira de onde foram extraídas, representará em cada novo botão que fizer desabrochar, a doce saudade de seus amigos e familiares. Haverá um século em que ele será esquecido, porém, nunca, as flores vermelhas. Em cada dor, elas estarão presentes, até os últimos dias do mundo.

         Por tudo isso, por essa passagem curta e da qual não levaremos nada é que defendo a filosofia do apenas necessário, sem egoísmo ou ganância. Somos mortais e amanhã, talvez, o sol não nos nasça outra vez. É estupidez imaginarmo-nos imortais aqui na terra. Somos, certamente, mais frágeis que uma simples rosa vermelha.

 

FORO ÍNTIMO

         Quem é você, tristeza inexplicável, que nesta manhã tão bonita me invade o coração? Quem é você que não consigo entender nem explicar? Ontem, quando o dia terminou, fui deitar-me alegre e feliz. Lembro que dormi bem só acordando às sete horas. Ao fazê-lo, senti uma angústia profunda em minh'alma, um aflição que vinha não sei de onde nem porque tomava conta de mim.

         Tudo o que ontem era sonho, planos, vontade de viver e empreender, hoje é desilusão, apatia e desânimo. Venha cá, meu coração, conte-me o que aconteceu enquanto eu dormia. Que lutas empreendeu, que recordações o avassalaram, que entraves lhe puseram no caminho? Vamos lá, não fique aí amuado e triste, conte-me, desabafe.

         — Está bem, vou lhe contar. Nós, os corações, não temos tranca. As portas estão sempre abertas. Nosso interior é hospitaleiro à todas as emoções que nos chegam. De fato, ontem, quando se deitou, pernoitaram aqui arautos da alegria. No entanto, antes que o dia amanhecesse, eles se foram, dando lugar a outros caminheiros carregados de problemas e transtornos, viajantes estes criados por você no passado e que só agora chegaram e arriaram os alforjes aqui dentro de mim.

Todas as coisas que faz no seu dia a dia,  logo ou em algum tempo qualquer, acabam por aninhar-se aqui em meu âmago. Por causa dessas vicissitudes  você se deitou feliz e acordou triste. As emoções que sente são meu alimento. É delas que vivo. Se me alimentar de coisas boas, nunca terei coisas ruins para refletir, porque sou apenas um hospitaleiro, um espelho, um escravo de sua índole. O que me der, eu guardarei. Jamais gasto à toa. Sempre irei devolver o que me confiar a guardar, embora não possa precisar-lhe a hora.

         — Não me lembro de ter querido, em tempo algum, minha infelicidade!...

         — Ah, como se esquece logo! Quantas vezes foi egoísta, preguiçoso, interesseiro, injusto, agressivo, ignorante? E todas as vezes que assim o foi, sem que percebesse, enviou-me esses infortúnios e eu os armazenei. Se não quiser, mais adiante, voltar a ter estas desagradáveis surpresas, cultive sempre as virtudes.

         — Ser perfeito é impossível a um ser humano. Não me peça tanto!

         — Não disse para ser perfeito, mas sim para cultivar as virtudes. Fazer coisas louváveis ou não, é sempre uma questão de persistência. Em tudo o que insistimos, acabamos nos viciando. Há coisa pior do que o primeiro cigarro ou a primeira dose de cachaça? No entanto, são milhões seus dependentes neste momento em que falamos.

         — Ah, coração, bom conselheiro e amigo! Na verdade criamos nosso destino, agora estou convencido. Colhemos sempre o que plantamos. Você, agora sei, é um produto de meus pensamentos. Sua saúde depende de meu relacionamento e de minhas emoções. Entendo assim que posso ser feliz em qualquer situação, mesmo diante da pobreza extrema ou de qualquer conflito pessoal que possa me afligir.

         — Percebo que está entendendo meu comportamento.

         — Hoje me devolve os frutos da árvore que plantei há tempos atrás. Entendo você: não poderá devolver-me jaboticabas se plantei carrapicho. De agora em diante, plantarei apenas sementes de paz e concórdia, de humildade e de tudo o que possa deixar você feliz e em paz.

         — Se assim o fizer, garanto que jamais deitará feliz e acordará triste, porque sou, apenas, um reservatório de suas emoções.

 

A ABELHA E EU

         O carro deslizava pelo asfalto, mergulhando nas ondas daquele mar de mormaço que o sol a pino criara naquele dia ensolarado de outubro. Apesar do vento quente que estapeava meu rosto por causa do impacto que a velocidade do carro criava, eu percebia  não haver qualquer tipo de aragem a arrefecer as plantas que se expunham ao alcance de minha visão limitada: a responsabilidade não me permitia admirar os panoramas que se descortinavam em cada curva, em cada lombada.

         Sempre quando viajo sozinho burlo a lei de que não se faz duas coisas ao mesmo tempo, pois tanto não me distraio do volante como divago pelo mundo de minhas ilusões e de minhas dúvidas. Há muito em mim da angustiante preocupação que acompanhava Graciliano Ramos quando me apanho desprotegido da companhia de alguém. Também eu, quando solitário, não preciso mais que uma folha seca rolando pelo chão para passar algumas horas fazendo conjecturas, às vezes, imbecis.

         Foi por causa dessa inexplicável preocupação que me prendi à luta vã de uma abelha que, ao tentar atravessar a pista, entrou na boléia da camioneta que eu dirigia. Embora os vidros laterais estivessem escancarados, a pobre abelha logo se pôs a procurar a liberdade pelo lugar, não apenas mais difícil, mas simplesmente impossível: o pára-brisas dianteiro.

         Sem me distrair fiquei a observá-la: incansavelmente ela batia no vidro e caía no painel quente. Sem um segundo de descanso novamente se atirava em rasantes para, inutilmente, procurar o vasto mundo de onde viera. Por mais de meia-hora ela lutou sofregamente, a fim de não desmerecer a misteriosa  graça de Deus de haver nascido para sua minúscula, mas importante, missão aqui neste mundo.

         Como me pareceu tolo aquele pobre inseto! Tão perto da liberdade e ali prisioneiro! Seria tão simples pousar no painel, olhar a abertura de uma das portas e voar pelos prados e campinas. Contrariamente, ele não olhava (imagino os olhos dos irracionais como elementar resquício de nosso raciocínio), tombava e se reerguia para esbarrar no vidro e novamente cair.

         Com o tempo as forças foram lhe faltando, até que, não mais resistindo, começou a debater-se em estertores de morte. Cuidadosamente o tomei pelas asas e o lancei fora. Não sei se sobreviveu, mas fez-me bem não assistir ao fim daquele ingênuo inseto. Fiquei com meus pensamentos, divagando pelo mundo de minha mania.

         Seria tão fácil para aquela abelha, parar um pouquinho e olhar melhor o próximo passo! Mas ela, como tantos seres humanos, agia inconseqüentemente e, inadvertida, lutava, desgastava-se e, possivelmente, se destruiria. Depois de filosofar bastante, sinceramente, senti-me como aquela abelha.

            Quantas vezes me desgasto,  perco noites de sono, crio problemas, acuso e reajo, cometo injustiças, torno-me miserável e egoísta..., bato num pára-brisas de teimosia, insensatez e orgulho, sem imaginar que as portas da alegria, da paz e da felicidade estão em Deus, aqui bem juntinho de mim, dentro de meu coração, por meio da compreensão, da paciência e da humildade.

 

EU NÃO TINHA TEMPO

         Houve um período em minha vida em que eu tinha tempo pra me divertir. Acordava cedo como os passarinhos, apanhava meu embornal de pelotas,  meu estilingue e corria para a casa do Nego, meu companheiro de infância. Impreterivelmente saíamos juntos todos os dias pelos cafezais a fim de caçar os mansos e indefesos cambacicas que saltitavam pelas vergônteas dos mata-paus que infestavam as lavouras novas.

         Depois fui crescendo e me mandaram para um colégio interno. Ali me levantavam antes que os passarinhos acordassem e era quase impossível separar uns minutos para dedilhar um velho violão que me haviam presenteado. Naquele lugar me deixaram alguns bons anos, até que um dia, achando que podia ser dono de meu próprio nariz, proclamei minha independência e deixei o internato.

         A idéia de liberdade me perseguia. Quando interno, surpreendia-me ao notar as pessoas na rua caminharem sofregamente, como se cada uma estivesse com o pai ou a mãe em seus últimos instantes de vida.  Agora que me encontrava na rua, percebia claramente, o motivo que levava tanta gente a toda aquela correria. Eram pessoas necessitadas ou mesmo gananciosas. Umas lutavam para sobreviver, para manter a família; outras, injustificavelmente, para serem cada vez mais ricas, para obterem, sempre mais, bens e poder. Senti que havia chegado o momento de escolher ou decidir de que lado ficar.

         Sem deixar o colégio, consegui um emprego. Trabalhando de dia e estudando à noite, toda a liberdade que pensava existir, escapou-me pelos dedos. Mais um pouco e a juventude também foi desaparecendo. Trabalhando e estudando como louco, consegui me formar... e um pouco mais tarde, casei-me. Sem me dar conta, havia escolhido minha própria sorte: a de lutar incansavelmente pelo desnecessário ou, quando nada, pelo inexplicável.

         Nesse estágio, pessoas sensatas convidavam-me para uma pescaria, um aniversário, um retiro..., mas eu não tinha tempo. Mesmo à noite eu trabalhava, juntava e juntava e nunca me pareceu bastante. Um dia, porém, deitei-me para descansar, e sem entender a razão, não mais acordei. Como se fosse um pesadelo, fiquei a observar pessoas que, como eu, iam e vinham numa sofreguidão estúpida, todas se movimentando como se não pudessem perder um único minuto da vida.

Ali postado, quieto e pensativo, tive tempo suficiente para aquilatar a estupidez de toda aquela gente. Como me pareceram imbecis! Ao invés de tomarem os bens materiais por empréstimo, queriam-nos para si, como se isso fosse possível. Ali parado, todo dois de novembro, eu tentava falar, mas ninguém me ouvia, nem se dava conta de que eu estava, agora, com todo o tempo do mundo para papear.

         Em minha madorra angustiante, embora achasse a correria uma insensatez a toda prova, eu nada mais podia fazer. Que esperavam levar, as pessoas que trabalhavam apenas para somar mais e mais, de toda aquela correria? Por que não paravam um pouquinho para descansar? Por que até aos domingos não sossegavam um pouco? Por que não percebiam que haviam nascido, também, para se divertir e ser felizes?

         Os sensatos, porém, amigos e parentes de outrora, se aproximavam de mim e carinhosamente insistiam no convite para um convescote ou uma pescaria. Agora, não mais com a desculpa de que não tinha tempo, eu respondia que estava descansando e que meu corpo extenuado de uma longa luta, sentia-se velho e indisposto.

         Às vezes pensava: "Que está acontecendo comigo? Antes eu não descansava porque precisava trabalhar, juntar sempre mais, ser um homem rico e bem sucedido; agora que sou rico, que tenho todo tempo do mundo, também não me divirto. Droga, que está acontecendo comigo?"

            Foi então que, ao olhar para dentro de mim, percebi que estava deitado na lápide fria de um cemitério: eu estava morto.

 

TREZE ANOS DEPOIS

         Depois de treze anos voltei à minha terra natal. Percebi que tudo havia mudado, ficado diferente, se transformado em gente e coisas que pareciam não mais se lembrar de um menino simples e feliz. Sinceramente, haverem destruído meu mundo de criança, achei uma afronta, um desrespeito. Fizeram de meu vale, um mundo puramente de adultos interesseiros.

         As encostas dos remanescente jaós, agora são cafezais bem cuidados; as várzeas de capim-pernambuco viraram mamoeiros, laranjeiras, limoeiros... O homem, mais uma vez demonstra não estar satisfeito com aquilo que Deus fez e que eu, ainda hoje, acho o máximo. Mesmo o mais belo edifício, para mim, não supera, em beleza, uma frondosa jarana.

         A antiga vereda de dois quilômetros que dava acesso à Escola Singular Professor Ananias Neto e que me parecia uma grande distância, agora se comprime num rastro preto de asfalto, desfeito em apenas duas ou três aceleradas de carro. As fazendas do tio Luís, dos Sangálias, dos Ceolins, dos Falquetos e dos Nogueiras, neste momento se resumem a um tapete verde centralizado por uma única sede. Nem a boleira pouparam — aquela boleira que me dava sombra, que encimava um verdadeiro coro alígero, que me escondia dos olhos de Deus todas as vezes que eu rogava pragas naqueles que me esquentavam o traseiro.

         Depois fui rever meus velhos amigos. Companheiros de futebol, de pescarias e de caçadas. Estavam grisalhos, alguns muito enrugados, dentes caídos... Meu Deus, como me pareceram envelhecidos!

         À noite, em frente a um relógio de parede, fiquei observando o ponteiro das horas. Parecia parado, mas estava certo que caminhava, que progredia lentamente abreviando meus dias. Em cada segundo — cismava eu — uma célula de minha juventude se perde. Ergui-me e fui ao espelho: não me vi tão velho quanto meus companheiros. Não há dúvidas, no entanto, que pensaram o mesmo de mim, que não encontraram, por mais que buscassem, aquele "alemão" de nariz pelado, indômito, quase incansável de treze anos atrás.

         Restou-me, então, baixar a cabeça e meditar um pouco. Pensar nos meus pais que já se foram; naqueles veteranos vinte anos mais velhos que eu e que agora se apóiam em cajados para se manter de pé; em mim que, querendo ou não, estou morrendo sem perceber, corroído a cada segundo pela ação nefasta do tempo.

         Logo mais estarei calvo ou mais grisalho; mais um pouco me apoiarei também num bordão; terei meus olhos esmaecidos e sem brilho; minhas pernas estarão trôpegas e cansadas; meu cérebro confuso... Um pouco mais ainda e, como meus pais, viverei de curtas lembranças, vivenciadas em todo dois de novembro numa lápide quieta e fria.

         Quando esse tempo chegar, apesar do medo, saltarei no escuro com o frenesi de um excitado, pois estou certo que as dúvidas que me corroeram a paz a vida inteira, serão então elucidadas.

         Estas coisas são verdades duras que muitos não gostam de lembrar, mas que servem para não nos deixar esquecer do grande estúpido que nos tornamos todas as vezes que perdemos noites de sono e dias de sossego, em busca de um tesouro que nunca será nosso: as coisas materiais desta terra.

         É bom que olhemos nossos velhos amigos e que vejamos neles o nosso retrato. É conveniente volver folhas de velhos álbuns à cata de registros passados, velhas fotografias de dez ou vinte anos atrás. É oportuno que saibamos que amanhã, todo orgulho, espírito de vingança, traição, egoísmo..., estarão depondo contra nós em algum lugar. É aconselhável sermos sensatos, vivendo a vida sem tanta correria e buscando apenas o necessário. Nisto reside a fraternidade e a justiça, pois, sem dúvida alguma, o que nos sobra, falta a alguém.

 

O MILAGRE DA CHUVA

         Há um mês atrás, depois de mais de cinco meses de sol causticante, poeira nas estradas e ruas, muito calor e suor, a natureza estava desbotada, triste e sofrida. Para aumentar o infortúnio, o fogo inconseqüente  das queimadas deixava no ar um lençol sufocante de fumaça. Nada de flores. Verde sem viço. Sinais angustiantes de coisas que definham ou perecem à míngua.

         Um dia, porém, ao passar por um amontoado de sarrafos de um canto do quintal, ouvi o coaxar de uma perereca: há muito não sabia, sequer, de sua existência. Meu pai  sempre dizia que os animais pressentem quando a natureza se modifica, quando o ar se torna mais úmido ou mais seco. Ele mesmo nunca tivera motivos para duvidar de um calo seco que, quando se revoltava, era sinal inconfundível de chuva. Os potros fazem estripulias pelas mangas; os bezerros torcem o rabo e correm desordenadamente; as pererecas e sapos coaxam; os cupins deixam seus claustros; os pássaros ficam excitados... Todo ar fica diferente, revestindo-se de um mormaço sufocante e de uma expectativa contagiante que nos surpreende.

         Aqui onde moro não há poldros nem bezerros, mas pássaros e batráquios  encontramo-los em qualquer parte. Por isso, ao adentrar em casa arrisquei um palpite:

         — Até que enfim vai chover!

         Minha filha chacoteou, atacando-me, carinhosamente, de falso profeta, velho caduco e outros adjetivos que nunca são escassos quando a gente passa da fase de herói para aquela de quadrado ranzinza.

         À tarde, porém, o calor abafado aumentou. Um pouco mais e lá longe, fortes trovões ribombaram. Aquele vento, amigo das donas de casa que sempre avisa  que está na hora de recolher as roupas dos varais, veio expulsando o ar mais leve e seco, arrefecendo o mormaço sufocante de até então. Um pouco mais e chispas desconexas de fogo riscaram o firmamento, numa pujança que nos diminuía ao nada: Prenúncio de tempestade medonha.

            Debrucei-me, mesmo assim, no peitoril da janela. Não acredito que a chuva possa exercer maior fascínio em alguém do que aquele que  exerce em mim. Alguns pingos vanguardeiros, esparsos e grossos, foram se misturando à poeira das folhas, fazendo escorrer um líquido cor de café com leite. As folhas, as árvores, a natureza toda, a cada minuto, dava a impressão de que se transformava milagrosamente. Parecia-me, no devaneio de um poeta bucólico, que tudo o que se definhava pela sede, sorvia a goles deseducados, aquele maná descido dos céus.

            A noite caiu chuvosa, mas terminou com o mais lindos dos sóis nascendo lá longe, num horizonte que há muito não se percebia tão límpido. Quando abri a janela tive a impressão de ter viajado a noite toda e por fim chegado a uma nova terra prometida. Puxa!, não sei se em russo, com suas milhares de regras e exceções, eu encontraria as palavras adequadas para exprimir o sentimento e a emoção que me invadiu naquele momento!

            Até as pessoas pareceram-me diferentes: mais alegres e bonitas. Os pássaros chilreavam; os sapos saltitavam à cata de cupins e besouros; as andorinhas, em acrobacias olímpicas, disputavam toda sorte de insetos que também se desentocaram. O comportamento dos seres transformou-se tão repentinamente, que a mim me pareceu milagre dos céus.

            Então imaginei: que bom seria se todas as semanas chovesse, oferecendo-nos uma terra molhada, fertilizada, cheia de flores e de verde; que aqui não houvesse essas duas prolongadas estações, ora de muita chuva, ora de muito sol; que fosse, enfim, uma eterna primavera, cheia de flores e de passarinhos.

            Por tudo isso, é bom que não nos esqueçamos do lugar que Deus nos deu para morar, lembrando sempre que podemos favorecer um pouco mais o milagre das chuvas, desde que não degrademos tanto a natureza. Se insistirmos em não respeitá-la, as nuvens, numa vingança tácita, porém inflexível, poderão cada vez mais se afastar de nosso céu.

 

O PREÇO DA FELICIDADE

         Lembro ainda sua mãe misturando lágrimas de alegria e dor: o cordão umbilical não havia ainda sido cortado. Lembro-me a água morna que lavou seu corpinho, as noites que perdemos cuidando de você, o prazer de seu primeiro sorriso.

         Jamais irei esquecer o dia em que leu a primeira palavra e aquele aniversário em que usava um fitilho de seda vermelha a enfeitar seus cabelos castanho-claros. O primeiro ato de rebeldia maliciosa: desejo ou necessidade de auto-afirmação.

         Quinze anos!... Seios aprumados, flor que desabrocha. O bem e o mal num tabuleiro: a bandeja da vida. Festa. Dezenas de adolescentes cortejavam-na e eu, de um canto do sofá, cismava o futuro e revivia o passado numa retrospectiva de saudade. Termina a festa. Portas trancadas. Silêncio acusatório: depressão.

         O colchão, como espinhos pungentes, incomodava-me o descanso: incertezas. Rodou a terra, amanheceu um novo dia. Vieram as semanas, os meses..., dezenove anos! Formatura, última festa de quimeras. Vão-se os sonhos, empossa-se a realidade. A correria, a crise, a vida num país mal governado: chacais no poder.

         Nem eu percebia em minha filha a força dos desejos, nem ela, as rugas de meu rosto: conhecidos desconhecidos. Eu em busca da sobrevivência; ela, do ideal. Que ideal?

         Passa o tempo devagar e determinado, surpreendente e inflexível. De herói, passei a ser um velho imprestável; de sábio, um ranzinza quadrado: alternância dos racionais. As mesmas mãos que me acariciaram, agora me ferem. Senhora de si, dona de seus projetos e caminhos. Entrava e saía sem me dizer aonde ia ou de quem se faria acompanhar.

         Venceu o prazo: dezenove de dezembro, vinte e três horas. Passou por mim na sala. Eu estava acordado, esperando que chegasse: pai. Ela, ventando do quarto, tornou a sair: dona de si.

         — Aonde vai a esta ho...

         Não me disse nada, simplesmente bateu a porta. Voltei ao sofá. Eu já não era seu herói, seu protetor, seu conselheiro, seu pai. Doeu fundo. Meu olhar prendeu-se, então, num canto inexpressivo da cadeira em frente. Os pensamentos enredavam-no como uma aranha à sua presa. De repente, meus olhos começaram a ficar turvos e uma nuvem pardacenta envolveu-os pelas lágrimas. Chorei... como chorei diante de minha impotência!... Era mesmo — agora entendia — um velho imprestável. Ajoelhei-me, mas nem Deus podia penetrar na balbúrdia e desencontros de minha alma angustiada.

         — Que devemos fazer? — perguntei à minha velhinha.

         Ela enxugou os olhos em silêncio. Vesti a camisa e saí. Saí pela cidade, sem rumo, instintivamente. Era madrugada fria, chovia fino. Andei, sofri, chorei. Qual arauto do mal, rumo à desgraça. Lá longe, no fim de uma rua, um aglomerado de pessoas e alguns carros. Era minha direção e não desviei: morte. Um rapaz estava estirado, mas ela, minha filha, ali já não se encontrava. Seguira com os assassinos. Como algo que de tão veloz ultrapassa a barreira do som, minha dor venceu as lágrimas: choque.

         O dia amanheceu. Novamente o canto do sofá, o rosto maltratado de minha velha companheira em cima de minhas coxas trêmulas. Às oito horas, entregaram minha filha estuprada, violentada, exangue: trapo humano.

         Claudicando, olhos amortecidos pela dor, fui recebê-la. Exânime, ela entreabriu os olhos mortiços e balbuciou, dependente outra vez:    

         Pai, ô pai!...

         Apertei-a entre meus braços mirrados e meu coração parecia sair do peito. Há dez anos eu não ouvia aquelas palavras! Há muito tempo,  quando ainda criança, quando ainda eu era seu herói, foi que ela me disse que precisava de mim e que eu nunca a abandonasse. Ali eu estava, com ela nos braços, muito mais herói agora por ter resistido a dez anos de desprezo e atendido, como se fosse um deus,  à sua súplica: "Não me abandone".

         Misturamos lágrimas. O preço foi alto, porém, justo. Paguei dez anos de sofrimento, mas readquiri a felicidade perdida.

         Hoje, estou no meu canto de sofá outra vez, pensando tudo isso, escrevendo essas coisas. Minha velha já dorme; minha filha prepara o enxoval de seu primeiro filho. Olho o canto da cadeira: está claro e limpo. Perco-me — como um velho teimoso que sou — em novos sonhos. Vejo outra criança correndo pela casa e, se apertada, gritar dependente: "Vô, não me deixe apanhar, não me abandone nunca".

         Não preciso mais que isso para agora, aos sessenta e cinco anos de idade, ser o velho mais feliz deste mundo.

 

MEIO SÉCULO DEPOIS

Escrito em novembro de 1994.

         Mais ou menos há cinqüenta anos, era eu uma criança abacinada, nariz sempre em feridas por causa dos raios solares. Do nascer ao pôr-do-sol metia-me nos campinhos de pelada ou nos cafezais perseguindo calangos e passarinhos. Lembro-me como se fosse agora: o mano chamou-me de lado e convenceu-me a torcer pelo Botafogo do Rio de Janeiro. Fez-me crer que eu era o protótipo do Pirilo, o maior goleador da época, aquele que atemorizava as defesas adversárias. Os argumentos foram tão contundentes que, ainda hoje, posso declinar a escalação: Osvaldo, Gérson e Santos; Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Otávio, Pirilo e Braguinha. Com esse time o Botafogo foi campeão e registrou em cartório, minha sina de sofredor. O diabo é que me é impossível desgostar de alguma coisa quando aprendo a amar verdadeiramente. Ao Botafogo, quando muito, dou o desprezo de não acompanhar-lhe as desditas.

         Estas duas inclinações (caçar e jogar futebol) nortearam minha vida por longos e longos anos, transformando-me em seu verdadeiro escravo. Da primeira só fui me livrar vinte e cinco anos depois, quando, pela grande prática adquirida, já fazia um verdadeiro estrago à nossa fauna. Um dia, meu pai, vendo a quantidade de macucos abatida, ameaçou denunciar-me ao IBDF, caso eu não parasse com aquela matança desordenada e cruel. A segunda, deixo-a agora, meio-século depois.

         Não que tenha desgostado, mas simplesmente por respeito aos meus companheiros de equipe. Reconheci que há um tempo pra tudo e que não justifica o apenas gostar. Para ser sincero, ainda ontem eu contava nos dedos os dias dos jogos de minha Laminadora. Neste time ingressei há quatorze anos quando aqui cheguei; dele me despeço com toda gratidão de alguém que, mesmo aos cinqüenta e seis anos de idade, ainda era colocado em campo.

         Gostar eu gosto: na verdade foi uma das mais duras decisões que tomei na vida. Meus irmãos sempre brincam comigo, dizendo que se ao invés de futebol eu tivesse me declinado para o lado das drogas, Escobar seria meu discípulo.

         Quem conhece o velho adágio popular: "Deus, quando tira os dentes, abre a goela?!..." Quando percebi que matava a bola para o adversário, que precisava de tempo excessivo para os lançamentos, que meus companheiros me cortavam no caminho para pressionar o adversário que entrava na área..., senti claramente que era o momento de trocar a bola por um computador. Não era justo sacrificar meus companheiros, exigindo deles que suprissem minhas deficiências.

         E agora,  quando o Natal se aproxima, quero aproveitar a data para não só desejar o dezembro mais feliz entre todos os que já aconteceram na vida de meus companheiros, mas também, agradecer, do  fundo de meu coração, a todos os desportistas que sempre me deram apoio e me respeitaram, apesar de minhas fraquezas.

         Jamais irei esquecer o silêncio de meus colegas quando, prejudicado pelo peso dos anos, eu não alcançava a bola ou fazia um lançamento desastroso. Há muito eu percebia a paciência, a amizade e compreensão deles, mas devo confessar que, mesmo assim, não me foi fácil compreender e abandonar.

         Aos companheiros que me aturaram; aos adversários que me respeitaram; a todos quanto conheci pelo meu longo tempo de futebol aqui em Imperatriz, quero deixar, do fundo de minha alma, a minha gratidão e o meu muito obrigado. Foram maravilhosos esses quatorze anos! Conheci gente amiga que pensei em extinção. Para representar a todos, quero entregar, num gesto de apreço e consideração, a simbólica taça de gratidão ao companheiro "Toinho", esse incansável amigo que, nos últimos anos, correu por ele e por mim no meio-de-campo. É em consideração ao seu supremo esforço, caro "Toinho", que agora me despeço do meu maior vício: o futebol.

         Que vocês continuem honrando o nome de nosso time, jogando com determinação e disciplina, respeitando os companheiros, a arbitragem e os adversários. Nunca se esqueçam que futebol é apenas um esporte, inventado para entretenimento e que, como tal, na maioria das vezes, sempre vence o melhor. Se possuírem um bom time, certamente serão campeões; se o adversário for melhor, contentem-se em valorizar-lhe a vitória. Não esqueçam nunca que futebol é jogado com os pés e que a língua apenas atrapalha. Não deixem que a falta de futebol excite a ignorância, fazendo com que agridam os adversários mais bem preparados. Para se ser o melhor é preciso muita força de vontade, treinar excessivamente,  respeitar e, acima de tudo, ter nascido com o dom de jogar futebol. É ingenuidade pueril acreditar que se pode perder noite, ingerir bebida alcoólica, jogar pela manhã e ser o melhor no jogo da tarde.

         É exatamente por causa dessas máximas que hoje penduro as chuteiras. Houve tempo que também eu chegava na frente, protegia bem a bola, lançava bem..., é, houve um tempo. Agora é hora de deixar meu lugar para outro, pois na verdade, há um tempo para tudo, inclusive para parar.

 

APENAS MÁSCARAS

         Dar asas à imaginação, sonhar..., são coisas comuns a todo ser humano. Sonha-se com a riqueza, com mulheres atraentes e bonitas, com a justiça, com a paz, a felicidade..., depende apenas das fantasias e da formação de cada sonhador. Eu sou um devaneador, um homem consciente de que jamais conseguirei transformar o mundo, mas que sonho com isso como se fosse um miserável obcecado pelas loterias. "Imagine um mundo cheio de paz, um mundo onde todos se tratem como irmãos, um mundo sem egoísmo, pleno de fraternidade..."

         Sonho com um mundo que só pode existir em minha cabeça, um mundo que deve acontecer em algum lugar, mas que minha fé combalida hesita aceitar, mesmo com a afirmação de Jesus Cristo: "Passará o céu e a terra, mas minhas palavras não passarão".

         Hoje, durante a sesta, veio-me, em sonho, esses pensamentos embaraçosos e frustrantes. Pareceu-me estar caminhando por uma estrada de chão, ladeada de árvores e flores: uma paisagem bonita e, na realidade, muito difícil de ser encontrada. Dizem que enquanto dormimos, nossas almas passeiam pelo quarto, pela casa... e até por lugares mais distantes. Há coisas que qualquer um pode dizer e até afirmar, já que se torna impossível prová-las.

         Em determinado ponto desviei os olhos para uma das margens e percebi,  à sombra de uma árvore frondosa, quatro homens, inteiramente despidos, que pareciam demandar o direito sobre a roupa mais luxuosa que ali se encontrava pendurada. Vendo-me ao largo chamaram-me para resolver o impasse: cada um dos  quatro afirmava que a melhor roupa que estava dependurada num dos galhos,  era dele.

         Mesmo em sonho não pude esconder minha apreensão, porque achei extremamente difícil olhar para quatro pessoas inteiramente nuas, e descobrir a quem pertencia a melhor e mais luxuosa roupa, simplesmente baseado na riqueza apregoada por cada um dos contendores.

         — Eu tenho quatro fazendas — disse o primeiro — e somente eu poderia  adquirir um roupa tão cara.

         — Sou dono da maior agência de automóveis da  cidade e posso comprar roupas até melhores que essa aí em questão — argumentou o segundo.

         — Ambos estão mentindo — acusou o terceiro — a melhor roupa é minha.Sou dono de fábricas diversas em todo estado.

         — É minha — assegurou o quarto. Nenhum deles possui a minha riqueza.

         Eu que  simplesmente passava por ali e fora  chamado para dirimir aquela divergência, fiquei atônito, muito confuso, porque não podia, por mais que me esforçasse, distinguir a qual deles pertencia a melhor roupa.

         Todos os quatro eram bem parecidos em suas compleições. A roupa mais luxuosa cairia bem em qualquer um dos quatro. Todos eles eram muito ricos. Essa particularidade dificultava ainda mais minha dedução.

         Enquanto imaginava pensar, crianças barulhentas acordaram-me, mas a lembrança do sonho continuou em mim. Impressionado, fiquei a meditar. A primeira lembrança foi aquela de que "a batina não faz o monge".

            Aqueles quatro homens de meu sonho, por mais luxuosas e diferentes roupas que pudessem usar, nus, eram exatamente iguais: estavam despidos da falsa importância que o luxo atribui.

 

SUBLIME RESGATE

         Tochas de fogo se movimentam por entre as oliveiras. O Filho do Homem estremece como se a um Deus fosse possível a surpresa, o medo e o esmorecimento. Nem Ele — insinua a história — parecia ter plena consciência da capacidade inventiva do homem em praticar a crueldade.

         Isso começou há quase dois mil anos, e não estamos certos por quanto tempo ainda continuaremos crucificando nosso próprio Salvador. A única coisa certa é que todo pecado de nossos ancestrais, os desta geração e aqueles que, infelizmente advirão, estavam sobre Seus ombros, naquele dia fatídico da caminhada para o Calvário.

         A cruz foi o resgate exigido para sanar a dívida da humanidade. Sem ele — afirma-se — ninguém se salvaria. Que Jesus continue tendo paciência com a gente e que cada dia que nasça seja-nos motivo de arrependimento e mais uma oração contrita por essa lição divina de amor.

         Em algum dia desta semana, certamente você irá passar por uma igreja; certamente irá ter um minuto de solidão e silêncio; certamente Jesus tocará com mais carinho o seu coração. Pare um minuto, companheiro, e pense. Apalpe-se: você existe; respire: você está vivo; lembre-se: amanhã não estará mais aqui. Há motivo maior para não se preocupar tanto com as coisas materiais? Se tem dúvidas a respeito de Deus, não se preocupe, pois todos os homens da terra as tem.

         Você é um dos maiores milagres do Criador, porque veio do nada e, se justo, será eterno. O firmamento, as estrelas, os planetas, as galáxias, tudo enfim, um dia voltará ao nada. O homem justo, não.

         Não se preocupe tanto com seus erros e fraquezas, mas sim pelas vezes que não se esforçou para diminuí-los; não inveje os que lhe parecem superiores, nem os santos, pois pode ser que tenham recebido muito mais graças que você. Se recebeu pouco, Deus não lhe cobrará tanto.

         Respeite sua verdade honesta e sincera como se fosse um mandamento de salvação. Não se acovarde diante daqueles que querem lhe impor cega submissão ao que imaginam certo, como se você não pudesse raciocinar e escolher seu próprio caminho.  Siga antes sua convicção e fé. Só há uma verdade: aquela que acredita com sinceridade; só um pecado: aquele que fere sua consciência. Nas coisas do espírito o mais importante é a intenção, porque ela é o espelho fiel do relacionamento mais íntimo do homem com Deus.

         Nesta semana, converse com Jesus. Chame-O a um cantinho qualquer e, na surdina, bata um papo com Ele. Não importa sua crença, mas sim, sua intenção. E depois desta conversinha reservada, procure melhorar o quanto for possível, dia a dia, sem tréguas, com determinação.

         Erga os olhos e as mãos e se tiver coragem, balbucie com humildade e emoção, a mais linda oração que  foi ensinada: "Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino..."

 

ALÉM DO INFINITO

         No jornal da TV Globo mostram, antes de cada bloco noticioso, um globo que vai se afastando da tela rumo ao infinito até desaparecer. Não sei a razão, mas sempre que isso acontece, invade-me uma angústia desgastante. Fico imaginando os seres humanos em cima daquele corpo esférico, como se fossem micróbios agarrados a uma bola de futebol fortemente chutada sem direção. Essa bolinha, no conceito de outros possíveis seres do universo, certamente, nem é classificada no rol dos planetas. Em cima dela, porém, os homens se perseguem  e se matam estupidamente no afã de possuí-la.

         É, minha gente, se  refletíssimos um pouquinho só, perceberíamos o quanto nos tornamos irracionais quando insistimos na idéia fixa de nos considerarmos eternos aqui nesta terra!

         Um dia, conversei com uma pessoa muito simplória e ingênua       (falamos a respeito da existência de Deus e de seus mistérios).  Ele deu o parecer dele a respeito do assunto:

         — Eu não penso nestas coisa. Querendo ou não, pensando ou não, eu não vô mudá nada. Se Ele for bom e me dé um bom lugá quando eu morrê, melhó pra mim; se Ele for mais justo que bom e me condená, eu também não posso fazê nada. Por isso vou vivendo minha vida como todo mundo vive. Não é possive que se todo mundo é assim eu tenho que sê diferente. Sabe, quando estes pensamento me vem eu até balanço a cabeça e jogo eles fora. Não quero nem perdê tempo!

         Sábia dedução! Para mim foi de grande ajuda. Mudou muito minha vida. Parei de passar horas e horas matutando, imaginando como Deus apareceu; onde termina o infinito; o que há depois dele;...

         Estas perguntas, se muito repetidas, podem se transformar em ingredientes bastantes para enlouquecer o mais equilibrado dos mortais. Se formos  fundo na questão, usando apenas a cota de raciocínio que temos, chegaremos à conclusão de que, realmente, as coisas se fizeram por acaso, pelo menos até o aparecimento de Deus.

         Isto fere profundamente a Teologia e é aconselhável que ninguém ouse invejar Galileu, no que tange a verdades fora de tempo: seria uma pretensão, no mínimo, insensata. É óbvio que a maior prova de que há um Criador por trás de tudo isso é a existência das coisas, já que sempre baseamos nossas deduções na premissa de que não pode haver efeito sem  causa que o produza.   Por esta razão, qualquer ser sem princípio, não é reconhecido pelo nosso cérebro.

         Apesar de ser explicável, o cálculo preciso que torna possível as viagens espaciais, é simplesmente ininteligível a um matuto. Para as incógnitas do universo, assim como diante dos mistérios de Deus, os maiores sábios não passam de matutos. A distância que separa um iletrado de cálculos matemáticos sofisticados é milhões de vezes menor do que aquela que separa o maior dos sábios do intrincado mistério do aparecimento da vida e de Deus.

         Nossa inteligência é limitada: só vai até determinado ponto. Daí para frente, tudo fica obscuro e misterioso. Isto não significa que não tenha explicação, mas sim que nossa inteligência não foi programada para traduzi-la.

         Se não podemos explicar, por que ficar cismando em vão, perdendo horas e noites com algo impossível? Como aquela pessoa pobre e humilde, deixemos o barco singrar pelas águas tranqüilas de nossa limitação. Será perigoso metermos nosso caíque de compreensão pelos mares revoltos dos mistérios. Vivamos nossas vidas com tudo quanto temos direito, porque querendo ou não, o que tiver que ser, será.

         É importante que saiamos da cama como as aves de seus poleiros: alegres por um novo dia. Sem prejudicar ninguém, vamos à luta, sempre com a simplicidade dos passarinhos que cantam alegres em cada dia que amanhece.

         Estamos aqui: Deus existe. A máquina jamais explicará o engenheiro, mas o engenheiro gosta e cuida do que faz. Quando uma de suas máquinas dá problema, ele procura arrumar e só desiste mesmo quando percebe que não tem jeito. Acho que isto é uma conclusão que deve nos tranqüilizar... um pouquinho... ao menos.

 

MÃOS ESTENDIDAS

VÉSPERA DE NATAL

         Há muitos anos, ali no Calçadão da Getúlio Vargas, vejo uma velhinha maltrapilha e cega, sempre com os braços estendidos à cata de algum centavo para sua sobrevivência. Se alguém se der à curiosidade de vigiar, verá que é muito raro alguém parar para depositar qualquer moeda em suas mãos enrugadas.

         Mais uma vez se aproxima o Natal, o dia do nascimento do Filho de Deus, o surgimento da esperança dos desvalidos, fracos e oprimidos. Mesmo assim, sem nada mudar, lá está a velhinha, olhos infeccionados e cegos, de mãos estendidas, implorando aos transeuntes, a caridade de um prato de comida. Há quantos natais aquelas mãos estão ali estendidas?!...

         Pelas ruas, as pessoas passam, aglomeram-se: aproxima-se  o mais lindo dia da Terra. Mãos abarrotadas de presentes, gente se acotovelando, quase pisando na pobre velhinha de mãos estendidas. Ela nada mais representa que estorvo àqueles que estão pensando nos filhos, no pai, nos parentes... e, por incrível e paradoxal que pareça, talvez em Jesus Cristo.

         — Uma esmola pelo amor de Deus! — brada ela incansavelmente, mas as pessoas  parecem não notar a sua presença. Como formigas-correição que se desorientam se mexermos em sua trilha, as pessoas andam de um lado para outro à procura do CAMINHO, sem imaginar que o cruzam a todo instante. Ela não passa de um instrumento de Deus, uma oportunidade constante de praticarmos a caridade. Entretém-se escutando o falatório e o roçagar das saias de seda.

         Não sabe ela o motivo de toda aquela correria, daquela euforia, daquela algaravia que se forma a seu redor. Ah, pudesse ela entender que tudo aquilo era porque se aproximava o dia em que Jesus, que tanto demonstrou sua opção pelos desvalidos, fracos e oprimidos, iria aniversariar! Soubesse ela e se ergueria às cambalhotas para gritar  como Bartimeu: "Filho de Davi, tem misericórdia de mim"!

         Mas ela também é uma de nós: anda cega, sem fé, tendo a felicidade, a paz e tudo quanto deseja em suas mãos, mas preferindo a cegueira e as lástimas de uma pedinte sofrida: "uma esmola pelo amor de Deus!"

         Os sinos repicam, o planeta todo está em festa, bilhões de lâmpadas coloridas piscam pelas cidades e catedrais, corais entoam hinos de alegria... Até parece que todos os miseráveis do mundo já não existem e que a felicidade se trancou dentro de nossas casas, na troca de presentes, na comida farta, na bebida que alegra. Ninguém percebe, porém, que o nosso presépio está vazio, que o berço está frio e que Jesus, certamente, está tremelicando debaixo de uma marquise ou nos calçadões das cidades, com as mãos estendidas, implorando a caridade de um prato de comida.

         Quem quiser ver, com certeza, o Menino Jesus renascido, não vá às igrejas e catedrais, mas sim aos ínfimos e imundos guetos das cercanias, naqueles lugares onde nosso egoísmo empurrou os verdadeiros filhos de Deus e irmãos de Jesus. É de lá que estará ecoando a cada segundo, o grito comovente do cego de Jericó: "Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim"!

         Escolha um presentinho qualquer e dê a uma criança abandonada. Se assim o fizer poderá vangloriar-se de ter visto no dia 25 de dezembro, o Menino Deus recém-nascido. Nos presépios das igrejas, nas comemorações pomposas onde refulgem luzes e extravasam cores, certamente, o Menino pobre de Belém não estará. A quem duvidar é bom que leia o Sermão da Montanha. Ele foi proferido pelo Homem mais importante da humanidade, cujo aniversário iremos comemorar em breve.

 

 DEUS E OS HOMENS

         Deus existe. A verdade mais fácil de se admitir na vida é a existência de um Ser Superior. É infantil demais admitir-se que tudo quanto há sobre nosso planeta e acima dele se fez por mero acaso. Só mesmo quem nunca observou a natureza ou olhou para os céus com espírito perscrutador, poderá afirmar tamanha tolice.

         A tão apregoada evolução de Charles Darwin,  embora tenha papel relevante na elucidação de muitos aparentes mistérios, não chega, sequer, a estremecer a certeza da interferência divina na construção do mundo em que vivemos.

         Há sempre por detrás do que se diz incrédulo, uma tentativa vã de justificar seus deslizes, fraquezas e interesses. A probabilidade de a  vida ter surgido e chegado ao ponto em que se encontra, por casualidade, é semelhante à admissão de que, em se jogando todas as letras do Dicionário Aurélio ao vento, elas possam, ao cair, reconstituí-lo novamente por inteiro, sem uma única falha.

         É bem verdade que as tentativas que se registram pelo infinito e pela eternidade são incontáveis, mas mesmo assim não conseguem ultrapassar a barreira do impossível.

         Apesar de em minha adolescência eu haver contestado a onisciência de Deus ao demonstrar o não entendimento pelas coisas que imaginava injustas, jamais duvidei, ao olhar em torno de mim, que ALGUÉM, muito inteligente, tivesse engendrado tudo isso.

         Foge-me, hoje ainda, ao conhecimento, as razões que levaram o Senhor do universo a extirpar de nosso raciocínio toda e qualquer fórmula científica plausível que pudesse,  se não dirimir, ao menos arrefecer as afirmações de: um Deus sem princípio e sem fim; uma seqüência de galáxias sem limites e, principalmente,  seu amor inexplicável a nós, ínfimos seres. O amor de Deus para com os homens é, a meu ver, o maior de todos os mistérios. Não consigo entender que Ele tenha descido de sua morada, submetendo-Se à morte mais humilhante da época — a crucificação — simplesmente para nos dar a chance de sermos eternamente felizes. Sinceramente, isso não cabe em meu entendimento!  

         Hoje, vivendo a era da eletrônica com seus computadores sofisticados, sinto os seres humanos como se fossem essas máquinas, porém, com um programa limitado de informações  que impossibilita o entendimento dos mistérios.

         Somos, então, obrigados a ver e a concluir apenas, sem jamais provar nada. Deixou-nos Ele a fé, esta característica singular dos seres privilegiados. Sem esta graça duvidaremos sempre dos mistérios e passaremos a crer, apenas, naquelas coisas que a ciência pode provar.

         Não duvido da existência de Deus, mas não consigo entender "que tenha tempo a perder" com esse nada que somos nós. Que  seremos  diante de um ser poderoso que criou trilhões de galáxias, cada uma longe da outra bilhões de anos luz, com a luz, no vácuo do infinito, caminhando a trezentos mil quilômetros por segundo?

         Se os americanos, para enviarem Neil Armstrong em julho de 1969 à lua, já consideraram uma proeza ímpar, como alcançar os demais planetas  dos sistemas planetários de outros sóis? Isto deve representar bem nossa capacidade ou a nossa diferença com Deus e também justificar o porquê de eu considerar a Sua morte por nós, o maior de todos os mistérios.

         Entendo, pois, que Deus existe, mas fico confuso ao me deparar com a grande fé dos que acreditam piamente que Ele se preocupa ou "tem tempo" para se inquietar com cada um de nós. Parece-me mais lógico termos sido criados e avisados das leis que devem nos reger para conseguirmos um outro mundo melhor. Neste caso, vigoraria, plenamente, a lei da liberdade total, com cada um escolhendo a própria sorte.

 

DEUS: UM SALTO NO ESCURO

            Relata-nos Heródoto, histórias milagrosas dos mais diversos povos, das mais variadas crenças e religiões. Entre elas, a de Creso, rei dos Lídios, considerado um dos homens mais ricos de sua época. Quando os oráculos o aconselharam a investir contra Ciro, rei dos Persas, ele acreditou. Foi derrotado, preso e posto por Ciro sobre uma enorme fogueira para ser queimado vivo.

            Apesar de rico, Creso era um homem muito sensível e amante das verdades morais e filosóficas. Amigo e admirador de Sólon, dizia não trocar os ensinamentos do sábio grego por riqueza alguma deste mundo.

            Quando o fogo foi ateado, ele homenageou o mais sábio legislador ateniense, bradando que, mesmo os reis ricos e poderosos, eram passíveis de castigos; que tudo era passageiro e que somente as virtudes enalteciam o homem e eram imperecíveis.

            Estas palavras comoveram profundamente o rei persa que ordenou que apagassem a fogueira. O fogo, porém, se tornara incontrolável. Diante da emoção geral  dos que assistiam ao ato, e da fé pessoal, o rei mais rico da antiguidade implorou a Apolo que o livrasse daquela morte horrível. O céu que estava claro, conturbou-se em minutos, trazendo trovões e fortes chuvas que apagaram as labaredas. Diante do acontecido, Creso passou da condição de vencido condenado à morte ao importante cargo de principal conselheiro do vencedor.

            No livro de Jonas, a Bíblia nos relata que ele, Jonas, foi engolido por um enorme peixe, ficando em seu ventre durante três dias e três noites, sendo depois vomitado numa das praias da Assíria a fim de que promovesse a conversão de Nínive. O próprio Jesus confirma isso.

         Percebemos assim, desde os primórdios, a ansiedade dos seres humanos quanto ao transcendental. Centenas de seitas e religiões foram sendo criadas, cada uma dizendo-se dona da verdade e apresentando em sua propagação, milagres estonteantes, ações que só são concebíveis a Deus. Afinal, Apolo também tinha poder para ordenar que do céu caísse  chuva e que as nuvens obedecessem?

Nós, católicos, acreditamos que, por ordem de Deus, Jonas passou vivo, três dias e três noites no ventre de um peixe; acreditamos que Lázaro, morto  há quatro dias, já em estado de putrefação, por ordem de Jesus, ergueu-se do túmulo para espanto de todos quantos estavam lá; acreditamos, enfim, em todos os milagres relatados pela Bíblia e por nossa Igreja.

            Tornamo-nos cépticos ou mesmo não acreditamos quando homens, de crenças pouco ortodoxas, relatam que foram contemplados com os benefícios do deus deles. Hoje, com raríssimas exceções, todo ser humano acredita que há um só Deus, criador de todas as coisas. Como explicar, então, para não citar outros, o milagre relatado por Heródoto?

            Houve tempos (e talvez ainda os há) em que a preocupação maior dos chefes religiosos era impor sua doutrina, buscando a hegemonia de seu Deus. Em nome, então, de um Criador Bom e Justo, foram cometidas as maiores maldades e injustiças que podemos imaginar. Nem as coisas de Deus foram poupadas do interesse político dos homens.

            Por essa razão só nos resta apelar para quem criou tudo isso, independentemente de  denominação, e pedir a Ele que tenha pena de nós — humanidade desorientada. Não importa que seja chamado de Jeová, Alá, Lua, Apolo..., importa sim, que no coração do homem que pede, resida a fé num Ser Superior Único.

Entendo que quando Creso implorou a Apolo; quando os índios pediam socorro ao sol ou a lua; quando qualquer ser humano, antes da vinda de Jesus Cristo, contritamente pedia socorro aos céus, Deus Pai, considerando os tempos, não levava em conta os apelidos com que era chamado.

            Agora, em pleno século XX, diante de um presente religiosamente ainda indefinido, olhamos aturdidos para o passado e não encontramos o fio da meada para o futuro. Sentimo-nos num pináculo em noite escura, esperando a hora de saltar sem estarmos certos do lugar onde iremos cair.