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PARA ONDE VAI IMPERATRIZ?
EDMILSON SANCHES
Este artigo é considerado, pelo professor Gildásio Mendes, da FGV do Rio de Janeiro, "o verdadeiro termo de referência de Imperatriz". Com sua publicação, revista e melhorada, este artigo torna-se, embora sem maior detalhamento, uma das primeiras, senão única, ação deliberadamente continuada para alertar à sociedade a enorme carência de um debate sistêmico e sistemático acerca da realidade contemporânea de Imperatriz Como se sabe, este município, durante décadas, vinha sendo administrado mais como uma instância de apropriação, manutenção e ampliação de poder político e financeiro do que como um espaço onde pessoas - com legitimidade política, competência técnica e disposição para o trabalho -- pudessem construir, gradual, voluntária e solidariamente um modelo possível de qualidade de vida e justiça social para todos nesta que é a maior cidade do interior maranhense, sexta maior do interior do Norte e Nordeste e uma das cem maiores de todo o País, incluídas as capitais.
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O território. As mudanças - Tem muito pouca gente pensando Imperatriz. Em 1997, o município saiu de um processo de autonomização de distritos, que se emanciparam politicamente, e os reflexos disso ainda não foram correta nem suficientemente avaliados. Em 1959, a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, publicação monumental do IBGE, registrava, como área de Imperatriz, 15.375 quilômetros quadrados. Em menos de 40 anos, 90 (noventa) por cento do território de Imperatriz constituíram-se em outras unidades municipais. Nesse período, não se tem registro de iniciativas consistentes, privadas ou públicas, que objetivassem a discussão racional, técnica, sistemática e sistêmica sobre quais os rumos, quais as potencialidades do Município e as possibilidades de sua Comunidade ante a realidade da época e de hoje e os cenários que se desenham para amanhã. Estamos em um novo milênio (mais simbólico que efetivo), as mudanças se operam mais rapidamente do que a capacidade de registrá-las e todos devemos sair de cima da lesma lerda para, com os próprios pés, caminharmos mais rapidamente rumo a um futuro que cabe a nós mesmos construir.
Imperatriz: A Missão - Toda Organização tem uma missão. Uma empresa, um sindicato, uma associação, um clube, um município, todos são organizações: têm pessoas e estas - supõe-se - têm propósitos, bons propósitos. Dessa forma, se uma Empresa pode definir sua missão como "vender o melhor produto pelo menor preço entre os concorrentes da praça", também uma cidade deve (ou deveria) estabelecer o que gostaria de ser, o que quer atingir. Um exemplo de missão que pode ser sugerido para Imperatriz é: "Conquistar, para seus habitantes, nível de vida gradualmente mais elevado, comparativamente qualificado e quantificado". Ou seja: individualmente, enquanto pessoas, e coletivamente, em organizações, todos devemos nos envolver para a construção gradual e cotidiana da realidade futura prevista na missão. Essa construção terá de ser definida por um (ou mais) objetivos. Qual é o objetivo que, atingido, pode mais fortemente contribuir para o cumprimento da missão?
Indústria - Qual é o objetivo de Imperatriz? Vamos partir de uma premissa física: o território do município, sua geografia, sua área, suas formas de ocupação. Após tornar-se "mãe" de diversos outros municípios, o que sobrou para Imperatriz? Qual seu estoque de terrenos públicos (federais, estaduais, municipais) e que terrenos são esses? São adequados, suficientes, para se pensar numa política de atração de, por exemplo, grandes projetos industriais? Se sim, que tipo de indústrias? Mas só a área física hoje não basta. Nos jornais e revistas de economia e negócios listam-se os muitos casos de chamamentos de governos estaduais e municipais com ofertas de grandes áreas, subsídios via impostos e financiamentos e, mesmo, empréstimos de "dinheiro vivo" a longo prazo. Se tivéssemos estoque de terreno, haveria condições de cobrir essas ofertas, além de providenciar infraestrutura e mão-de-obra qualificada? Se satisfeitas essas pré-condições, durante quanto tempo seriam mantidos os empregos diretos e indiretos previstos? Neste aspecto, cabe registrar que, pelas graças da tecnologia, indústrias -- sobretudo as de grande planta -- investem mais em produtividade que em empregos.
Salário, tecnologia, qualificação - Além disso, não basta saber a quantidade de empregos, mas sua qualidade também. É claro que, como um todo, qualquer massa salarial impacta em maior ou menor grau o nível de consumo e a arrecadação no município. Entretanto, devemos pensar no trabalhador, individualmente e como mantenedor de uma estrutura familiar. Assim, é válido perguntar: Como vai estar distribuída a massa total de salários no empreendimento incentivado? A resposta nos dirá se muitos continuarão ganhando pouco e poucos ganhando o suficiente para desfrutar uma vida mais digna, onde a remuneração cobre todas as despesas básicas de alimentação, abrigo, vestuário, educação, saúde e, ainda, lazer, diversão, reserva para a poupança, para transferência de valores para outras Unidades da Federação e para projetos de autodesenvolvimento pessoal e profissional - os quais, mais tarde, poderão levar a pessoa a alcançar novos e mais elevados patamares salariais. Enquanto isso, sem sobra financeira, o grosso da mão-de-obra incorpora muito pouco de qualidade de vida e quase nada em termos de conteúdos que ampliem seu repertório pessoal-profissional, o que o mantém estático e o torna mais descartável ante a tecnificação dos processos. A figuração é perversa: quem ganha muito, utiliza o bolso para alimentar também a cabeça; quem ganha pouco, utiliza as mãos para alimentar somente - e malmente - a barriga.
Agricultura - Na parte territorial que lhe coube neste latifúndio sul-maranhense, que tipo de agricultura pode ser desenvolvida em Imperatriz? A priori, parecem estar descartadas as culturas extensivas, que exigem vastas áreas de terra - como a sojicultura, que está transformando o município de Balsas em um grande pólo agrograneleiro de exportação. O que dizer então da produção baseada no pequeno empreendimento hortigranjeiro e de fruticultura, o cultivo de plantas medicinais, a piscicultura? Em termos de participação do campo na economia, pode ser a alternativa, considerada a atual extensão e ocupação do solo imperatrizense e a ênfase, senão prioridade, das linhas oficiais de crédito aos micros, mini e pequenos empreendimentos - com recursos de certa forma abundantes, estáveis e menos onerosos.
Serviços - Talvez aqui, no setor de serviços, o forte de Imperatriz, em razão de sua nova conformação geoterritorial, de sua localização espacialmente estratégica e de sua razoável infraestrutura viária e de telecomunicações, além da efetiva exploração desse setor. Não há, em um raio de centenas de quilômetros, nenhum município que abrigue hoje as pré-condições mínimas que Imperatriz já oferece e já tem realizado. O setor de serviços é o que mais cresce em todo o mundo. No Maranhão ou nos Estados Unidos. Há uma rápida mudança de posições de pessoas e de empresas, que antes sequer eram lembradas pelas listas de fortuna e de resultados e hoje ocupam os primeiros lugares. Pode-se, até, dizer que, daqui a pouco tempo, só existirá o setor de serviços. Afinal, é nele que se pensa e se aperfeiçoa, ou se extingue, um produto ou processo. As outras fases (de industrialização e de comercialização) estão dispensando cada vez mais a presença física humana - gradativamente substituída pelo telemarketing, pela via postal, pelo delivery (serviços de entrega em domicílio), pelo acesso a catálogos eletrônicos na rede de computadores Internet e, mais e mais, por máquinas que, mediante moedas, fichas ou senhas, entregam ao operador-consumidor uma diversidade cada vez maior de itens (alimentos, bebidas, jornais, selos, dinheiro trocado, pequenos presentes etc.).
Educação. Idade - Embora a ausência de dados técnicos que fortaleçam uma "site selection" (escolha de local para instalar um empreendimento), pode-se afirmar que em Imperatriz há muitos nichos de negócios ainda inexplorados ou por serem ampliados. É o caso do setor educacional e instrucional, para atendimento à microrregião que Imperatriz jurisdiciona e aos muitos municípios dos Estados vizinhos que igualmente são influenciados ou polarizados pela "Princesa do Tocantins". Mais escolas, universidades e centros de ensino instrucional, técnico e tecnológico. Para cá convergirão naturalmente milhares de estudantes, com um potencial de consumo inegável, além do agregado (e reversão) de imagem. Exemplos disso são Viçosa, Alfenas (ambas em Minas Gerais) e, no Nordeste, Campina Grande (Paraíba). Em uma edição do jornal O Estado do Maranhão divulgou-se, em seu caderno de classificados, anúncio de estabelecimento de outra unidade da Federação que oferecia vagas para hospedagem de estudantes maranhenses. Um outro dado: numa agência bancária local, da rede oficial, ainda remete-se mensalmente, para cidade universitária de outro estado, cerca de cem mil reais, correspondentes a quase cem famílias que têm seus filhos estudando longe de sua cidade. Este dado objetivo permite uma inferência subjetiva: Imperatriz corria o risco de transformar-se numa gerópole, uma cidade velha em idade e em idéias de sua população. Os jovens vão/iam estudar fora, formam-se, muitas das vezes casam-se com um (a) colega de universidade, não resistem ao "canto de sereia" das capitais ou das cidades melhores e ali vão tentar vida nova e ser felizes para sempre. Enquanto isso, as famílias imperatrizenses com mais (ou alguma) condição continuarão a ser exportadoras de "sangue novo", de juventude e talento para outras cidades. É quase um crime de lesa-renovação. Sem falar na comprovação oficial de que a população do Maranhão, do Nordeste e de todo o País vem envelhecendo cada vez mais com índices de fecundidade cada vez menores. Aliás, o IBGE documenta que "o mais significativo declínio da taxa de crescimento [populacional], no período 1991-1996, foi registrado na Região Nordeste". O motivo: a manutenção "dos tradicionais fluxos de saída da região". Não é à toa que o próprio Governo do Maranhão já declarou que 65% da população maranhense tem menos de três anos de escola. O não-retorno dos jovens maranhenses e imperatrizenses ao seu local de origem certamente contribui para a existência - e perigosa ampliação - desse percentual.
Diversão e turismo - O nicho de negócios diversionais é, no setor de serviços de Imperatriz, um dos de menor exploração e diversificação. Como ainda não se sabe a população economicamente ativa (PEA) e o potencial de consumo do Município e sua região, sequer pode-se alegar tecnicamente falta de mercado, descontado o consumidor externo, que passa aqui em razão de turismo de negócios, de eventos ou do ecoturismo. Aliás, estes segmentos do negócio turístico precisam de estudos que reforcem a impressão geral de que Imperatriz guardaria boas respostas para os investidores que acreditassem nesse mercado potencial, não propriamente por Imperatriz ter ou deixar de ter recursos turísticos (também ainda não mapeados) mas pela possibilidade de se tornar, aí sim, o "portão" de entrada dos ecoturistas, em função dos modais -- e, naturalmente, da intermodalidade -- dos transportes (aeroviário, ferroviário, rodoviário, hidroviário). Em relação ao turismo de eventos, é premente a necessidade de Imperatriz ser dotada de centros de convenções multiuso (para congressos, seminários, ciclos de palestras e conferências, feiras e exposições multissetoriais, treinamento de mão-de-obra etc.), como ocorre nas grandes cidades e capitais. Os poucos "auditórios" e "salões nobres" existentes na cidade são, quando não privados, carentes de mais espaço e de adequada infraestrutura logística -- até porque foram pensados para uma outra realidade e necessidade.
Pequenos negócios - O mundo de hoje e, mais ainda, o mundo de amanhã, é cruel para com as pessoas que, sem base econômica que as sustente, não dispõem de um "minimum minimorum" de formação escolar/acadêmica, de competência técnico-profissional, de formação cultural, de informação geral, de honestidade pessoal e de domínio de pelo menos quatro idiomas (o nativo, o inglês e as "linguagens" da informática e da atividade profissional). Por aí dá para intuir como está a situação daqueles 65% de maranhenses que só têm até três anos de escola -- ou seja, sequer concluíram o Primeiro Grau menos (que vai do 1° ao 4° ano do antigo primário). Então, qual a alternativa para essa população? Os pequenos empreendimentos, aqui compreendidos os micros, mínis e pequenos negócios em qualquer setor da economia (agricultura, indústria, comércio e serviços). Recursos, dinheiro, existem. Existe, também, uma certa boa vontade do Governo federal, por intermédio de suas instituições financeiras e de convênios com outros Estados, de tornar esses recursos estáveis e com juros menores do que os de outras linhas de crédito. Outra grande vantagem é o custo do emprego ou ocupação nos pequenos empreendimentos. Na indústria, um emprego custa cerca de 24 mil reais. Na agricultura, com dinheiro do FNE (o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste, operacionalizado pelo Banco do Nordeste), o custo cai para seis mil reais. Já no pequeno negócio o custo cai para dois mil reais, podendo ser menor. Outra vantagem, do ponto de vista de quem empresta, é o índice de retorno do crédito. Mais de 90% dos tomadores de empréstimos paga suas dívidas -- em dia. Isso consta de balanços de bancos oficiais. É a descoberta do óbvio: geralmente, os pequenos empreendedores têm como maior patrimônio sua palavra e sua própria imagem e manifestam horror ante à possibilidade de serem cobrados, protestados ou executados judicialmente por conta de dívidas. Daí, procurarem cumprir suas obrigações, de preferência "em dia", ampliando, pelo retorno do dinheiro, as possibilidades de acesso ao crédito por parte de outros pequenos empreendedores. Desta forma, o apoio creditício aos pequenos empreendimentos pode redimir do pecado da indigência e da miséria os excluídos de outras oportunidades na vida. Sem falar que um pequeno empreendimento, além de autonomizar o principal trabalhador, normalmente inclui uma ou mais pessoas no mercado de trabalho. Há milhões de casos comprovados em todo o País. Hoje, os pequenos empreendimentos são o maior empregador do Brasil. E Imperatriz, com uma boa rede bancária -- que, é verdade, já foi maior --, com a presença de SINE, SEBRAE e do Conselho Municipal de Trabalho e Emprego, além das secretarias municipais mais diretamente ligadas à geração de emprego e renda, está em posição avançada, comparativamente a outros municípios, para concretizar essa política.
Perguntas, perguntas - Para se instalar, hoje, uma empresa precisa de muitas informações. Se isso não é verdade em Imperatriz, pelo menos já o é em quase todo o mundo. Somente percepção, feeling, bom senso, tirocínio, "faro", intuição, não bastam. Não que sejam descartáveis: são imprescindíveis, mas, por si sós, não são suficientes. Isso é o que faz a diferença entre um empreendedor, um empresário, e um simples proprietário de "negócio". No campo das informações técnicas, econômicas, sociais, entre outras, o município de Imperatriz ainda falta responder (e responder com pelo menos 95% de acerto) a muitas perguntas sobre sua própria realidade: Qual o exato território e seus limites? Qual a população economicamente ativa (PEA)? Qual o PIB (produto interno bruto) municipal? Qual a renda per capita (RPC) ou PIB per capita de sua população? Qual a base econômica e a participação de cada segmento? Qual o potencial de consumo de sua população? Qual o estoque de terrenos públicos? Quais os índices de mortalidade infantil e materna? Qual o índice de aproveitamento, na cidade e sua região, dos formandos dos cursos superiores e técnicos locais? Quais, exatamente, os incentivos que União, Estado e Município têm para aqueles que desejarem investir em Imperatriz e região?
Imagem - É aceito internacionalmente que o maior patrimônio de uma pessoa ou organização é o seu "nome", sua imagem. Isoladamente, a marca (o nome comercial) "Marlboro", "Coca-Cola", "Microsoft" etc. valem dezenas e dezenas de bilhões (isso mesmo: bilhões) de dólares. É, de longe, o maior ativo das respectivas empresas. Porque, com o nome, com a marca, vão referenciais percebidos positivamente pelo consumidor. Essa positividade instala-se no "share of mind" (espaços da mente) das pessoas, e haja trabalho e muito dinheiro para que outra marca convença o consumidor a promover uma substituição. Imperatriz ainda se ressente de alguns eventos que feriram-na profunda e danosamente. É verdade que desses eventos havia os que só por infelicidade aqui ocorreram. Mas não interessa. Seria recomendável uma campanha de "venda" do município além dos limites do Tocantins e da Belém-Brasília para incrementar o processo de atração de investimentos. Nessas campanhas poder-se-ia falar de aspectos positivos do município e da região. A Norte-Sul. A Ferrovia Carajás. Pólo combustível e guseiro em Açailândia. Pólo celulósico em Cidelândia. Pólo agrograneleiro em Balsas. Pólo energético em Imperatriz. Estação rastreadora de satélite em Imperatriz. Implantação do sistema de fibra ótica em Imperatriz, daqui derivando para capitais como Palmas e Belém e outras cidades. Localização estratégica. Rio Tocantins. Hidrovia Araguaia-Tocantins. Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM). Diversas universidades. Inúmeros hospitais. Infraestrutura viária -- terra e trilho, água e ar. Comércio atacadista. Indústrias. Pólo coureiro-calçadista. Rede de mais de 20 veículos de comunicação social (rádios, jornais, televisões e revistas). Multiculturalidade. Estrangeiros de muitos países. Brasileiros de todos os matizes. Etc. etc. etc.
Envolvimento - O processo de desenvolvimento de um município e de uma região dá-se melhormente se for antecedido de estudos e de envolvimento de todos os segmentos organizados da sociedade. Como anotam os mais renomados professores e consultores mundiais, não dá para se pensar desenvolvimento sem a participação das pessoas que representam desde as mais pobres (e principalmente estas) associações de moradores ou de trabalhadores rurais até as portentosas organizações ou briosas corporações dos segmentos mais ricos da comunidade. Há diversas formas para a execução desse processo, que se inicia com eventos de informação e troca de idéias, para uma maior sensibilização de todos os envolvidos. O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) tem uma metodologia própria, criada, aplicada e aprovada no Brasil e com repercussão internacional.
Desenvolvimento é esforço coletivo, não tarefa unipessoal. Desenvolvimento, só com envolvimento. Para que ele aconteça, não basta vestir a camisa. É necessário carimbar a pele. É indispensável tatuar a alma.
(edmilsonsanches@uol.com.br)
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